Categoria: Literatura para crianças
A escolha da história
No começo, eu mesmo gostava de escolher a historinha da noite para a minha filha. O raciocínio era simples, até simplista: como pai, eu saberia melhor que tema abordar junto a ela.
Há raciocínio mais antiquado que esse, mais digno do século XIX??
Se tem uma coisa que minha filha me ensinou foi que nós não temos a menor pista de quais os temas que realmente atormentam as crianças se não deixarmos elas mesmos dizerem. Observar é importante, obviamente – mas nem sempre os olhos de um adulto conseguirão captar as tantas entrelinhas que se escondem nos olhares de uma criança.
Assim, um novo diálogo, tão rico quanto invisível, passou a se estabelecer entre nós todas as noites. Eu pergunto a ela que livro ela quer ler. Ela escolhe.
Pela sua escolha, percebo alguns medos, algumas ansiedades, alguns temas que parecem estar pairando no ar.
Não os ataco diretamente: com crianças, os caminhos mais curtos tendem a ser também os mais longos. Vou apenas trabalhando tons de vozes e emoções, reforçando falas e trechos da história escolhida. Vou acompanhando os olhares, respondendo a perguntas com desvios de enredo personalizados, colando a fantasia à realidade em pontos-chave.
Depois que passei a fazer isso, a hora da historinha virou algo bem menos protocolar lá em casa: virou uma conversa invisível aprofundadíssima entre pai e filha, algo já esperado como se fosse um dos pontos mais altos do dia.
É impressionante como há sutilezas na conexão com crianças.

(Mas as historinhas são sempre sagradas)
Na terça passada, fiz um post aqui sobre a alta carga de responsabilidade que, às vezes, entregamos aos nossos filhos.
Lá em casa, em nosso próprio micro-universo, estamos lidando com isso agora – mas tem uma coisa que me mantém orgulhoso. Seja com o cansaço que for, algo nunca muda na nossa rotina: minha filha só dorme, ao menos em dias de semana, depois de receber a sua dose de historinhas noturnas.
Para mim, é um alívio.
Acho isso fundamental – principalmente por ser uma demanda que parte dela, não de mim. Histórias abrem mentes, impulsionam sinapses, despertam um tipo de curiosidade de mundo que considero fundamental para o amadurecimento de qualquer ser humano. Seja por Marcelo, Marmelo, Martelo, por alguma historinha personalizada daqui da Fábrica ou por contos do Monteiro Lobato sobre Romanos e Egípcios, o fato é que há todo um emaranhado de curiosidades e repertórios sendo construído toda noite.
Repertórios.
O que seriam eles senão os ingredientes mais fundamentais para que todos nós, crianças e adultos, consigamos nos desemaranhar dos nossos problemas e resolver os desafios que a vida sempre colocará em nossas frentes?
É com eles – os tantos personagens que nos fazem companhia todas as noites – que mais conto para que ela cresça bem, inteligente e, sobretudo, feliz.
Há excesso de responsabilidades?
9 entre 10 pais – e estou sendo generoso aqui – dizem que um dos maiores desafios que tem é ensinar os filhos a terem responsabilidade.
Não quero menosprezar a tarefa: em um mundo tão cheio de volubilidades, onde tudo é tão efêmero, sob demanda e ao alcance, entender o conceito de responsabilidade certamente é algo dificílimo.
Mas, às vezes, erramos na dose.
Afinal, enquanto discutimos com os nossos filhos para que eles cuidem melhor dos seus brinquedos, para que mantenham os quartos impecavelmente arrumados, para que limpem as suas bagunças – tudo absolutamente coerente, acrescento – também os entulhamos de aulas e atividades como ballet, judô, técnicas circenses, inglês, espanhol, futebol, piano.
Sim, tudo faz parte da educação. Não questiono isso. Mas deve haver algum limite, alguma linha a partir da qual o peso se torna excessivo. Comecei a perceber isso em casa.
Lá, enfrento os mesmos desafios que, provavelmente, qualquer pai normal. Mas comecei a observar um pouco mais a minha filha mais velha, de 5 anos (a mais nova ainda não completou dois meses de vida). Ela brinca como qualquer criança, diverte-se insanamente, é hipercriativa, inteligente e tudo mais que um pai coruja pensa de sua cria.
Mas, fora de todo esse círculo de elogios, ela também está acumulando momentos de um tipo de cansaço que comecei a considerar excessivo para uma menina tão nova. Esse cansaço não se traduz só em sono, claro: há momentos de malcriação mais fora de contexto, há unhas sendo roídas, há uma ansiedade por acontecimentos futuros tamanha que começamos a evitar contar novidades até que elas estejam prestes a acontecer.
Isso tudo nos fez pensar que, talvez, esteja na hora de diminuir um pouco o rol de tarefas, de aliviar o estresse que nós, pais, às vezes nem nos damos conta de estarmos gerando.
Ainda não sei como e nem o que… mas toda história, todo enredo começa com algum problema posto à frente de seus protagonistas. Certo?
Eis o nosso: dar mais espaço para que uma criança possa ser um pouco mais… criança.

Como criar o hábito de ler livros nas crianças
Como esse é um tema obviamente importante para nós, compartilho esse post do Guia Infantil (que vale muito a pena):
A colcha mágica
Ganhamos, nesse último final de semana, um presente incrível para a minha filha mais nova – que completa um mês amanhã -da sua madrinha: essa colcha mágica abaixo.
Perceba que ela não é, exatamente, só uma colcha: é um cenário.
Ela vem com bonequinhos de pano. Vem com um livrinho de história. Vem, portanto, perfeita para embrulhar uma criança de fantasias.
Sim: uma criança de menos de um ano com certeza não se apegará às nuances de um livro infantil tradicional. Mas cabe ao mundo que a cerca, do qual nós, pais, fazemos parte, desenvolver essa vontade de se encantar.
Ainda não usei a colcha – mágica por envolver a criança, literalmente, em um sonho – com a pequena Alice. Mas oportunidades certamente não faltarão.
Teatrinhos provocando risos, enredos fabricando sinapses, vozes despertando curiosidades: há presente melhor para uma criança que algo que permita tanta magia?
A calma
Quem tem mais de um filho ou filha saberá do que estou falando.
Basta que a barriga cresça ao ponto de parecer insustentável e pronto: a cabeça do mais velho começa a rodopiar, tensa, angustiada, nutrindo aquela curiosidade agonizante sobre o que acontecerá com ela depois que aquele novo e estranho ser romper a barriga da mãe.
Do nosso lado, não foram poucos os desafios. Houve questionamentos, pavores, tiques, camas molhadas. Houve agonia mútua.
Sim, mútua: que pais não se angustiam, afinal, ao perceber a angústia de uma filha?
Mas não havia muito o que fazer senão perseverar, atentos e calmos. Ser pai também é isso: saber manter a calma e o raciocínio frio até nos momentos mais complicados.
Nessas últimas semanas ficamos ali, equilibrando historinhas tranquilizadoras com tentativas de conversas francas e aprofundadas. Fizemos os nossos cortes, demos as nossas broncas quando elas se fizeram necessárias – mas, sobretudo, fomos medindo e tentando desarmar a angústia.
A irmãzinha nasceu. Os três dias de hospital foram uma espécie de clímax da tensão, um ambiente em que todas as dúvidas sobre o futuro que já se transformava em presente pareceram eclodir. Ficaríamos nós dois, pai e mãe, inteiramente dedicados à filha mais nova e ignorando ela, a mais velha, que passaria a viver com os avós na casa? Nunca mais sairíamos daquele hospital? Aquela seria a nossa nova casa, a nossa nova prioridade única de vida?
Para uma criança de 5 anos, sempre vale lembrar, ainda existem monstros sob a cama. Para uma criança de 5 anos, a cama sob a qual os monstros se escondem muitas vezes se chama ‘solidão’.
Mais papos retos. Mais historinhas.
Até que fomos para casa.
Muitas novas introduções: construir a ponte entre filha mais velha e mais nova é sempre fundamental. O que seria do conceito de família sem isso, afinal?
Nova rotina, visitas de curiosos, avós ainda em casa prestando aquela tão fundamental ajuda com as coisas do cotidiano.
Não sei bem em que momento mas, há alguns dias, as coisas pareceram começar a entrar no que podemos chamar de normalidade.
Tiques sumiram, risos choveram com mais frequência, sobrancelhas mudaram de ângulo. Aos poucos, como todas as mudanças importantes da vida. Mas decisivamente.
No domingo passado, os avós voltaram para Portugal, onde vivem. Foi triste, claro – não há despedida feliz. Houve choros, houve promessas de voltas breves, houve aquelas dores de separação que já eram familiares a todos. Vidas em família também são feitas delas.
Ontem de manhã fui a quarto da minha mais velha acordá-la para a escola. Na noite anterior contei a ela uma historinha sobre uma baleia perdida que encontrara o rumo de casa e voltara para a sua família, seguindo com a vida. O livro fora escolhido por ela -uma escolha perfeita.
O sono foi calmo, inteiro.
O despertar, idem.
Ela foi para a escola tranquila, falante, deixando beijos para a irmã mais nova e ignorando boa parte das manifestações físicas das angústias que por tanto tempo a perseguiam.
Passados ficaram no passado.
Sim, sei que novas angústias certamente virão – a vida, afinal, é um infinito ciclo de perigos e vitórias. Mas aquela vitória, pelo menos, parecia estar assegurada.
Quando a deixei dentro da van, seguindo sorridente, suspirei aliviado, cheio daquela certeza de que tudo dará certo.
Subi o elevador de volta.
Em casa, o chorinho faminto da minha nova recém nascida cortava o silêncio da manhã.
Não eram nem 7 horas e o dia já estava tão cheio de acontecimentos.
Já sentiu a reação das crianças ao se verem em uma história?
Temos dois “produtos” aqui na Fábrica: um modelo por assinatura, em que enviamos uma história diferente por mês, e um com histórias de aniversário.
Pelo que percebemos, a maior parte de histórias de aniversário são dadas não pelos pais para os seus próprios filhos, mas sim para os filhos dos outros (incluindo colegas de escola ou familiares). O resultado é incrível.
Como ninguém espera, na prática, receber um livro com sua foto na capa e seu nome protagonizando o enredo, há uma mescla de choque com ansiedade sensacional pela leitura. Aliás, ressalto este ponto: ansiedade pela leitura.
Não é exatamente isso que queremos desenvolver em nossas crianças para que elas se tornem adultos mais cultos, inteligentes e preparados para encarar o futuro?
Sei que sou suspeito para falar mas, ao menos aqui em casa, esse virou o presente oficial das festas dos amigos da minha filha 🙂
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