O que fazer nas férias com crianças?

A matéria abaixo pode ser relativamente antiga… mas há conteúdos que costumam se manter sempre no presente.

Leitura recomendada para pais e mães que estão às voltas comesse tanto de tempo e energia livres circulando pela casa 🙂

Link da matéria: http://epoca.globo.com/vida/vida-util/comportamento/noticia/2014/12/b43-atividadesb-para-fazer-nas-ferias.html

Como pensam as crianças

Já começo pedindo perdão pelo título, pretensioso demais para o que realmente pretendo escrever aqui. 

Faz algumas semanas, instalamos no iPad da Isa, minha filha mais velha de 5 anos, o Youtube Kids. O objetivo: permitir um pouco de independência em sua navegação pela Internet uma vez que ela poderia fazer buscas por voz e que nós poderíamos contar com algum tipo de censura quanto a conteúdos… digamos… inapropriados. 

O que eu não contava é que isso nos permitiria viajar fundo na maneira com que o cérebro de uma criança é articulado em nossos dias. 

Vamos a exemplos: 

Quando ela quer buscar algo sobre o famigerado Spinner, por exemplo, ela não fala “Spinner”: ela fala “coisas maneiras”, na esperança de achar não apenas o brinquedo em si como também conteúdos semelhantes. O Youtube, cujo algoritmo de busca é simplesmente genial, entende isso perfeitamente e entrega como resultado exatamente o que ela quer. 

O que mais ela busca? Conteúdos estilo “do-it-yourself” em versão kids, exemplos de brincadeiras com bonecas ou simplesmente ideias para se passar o tempo quando está entediada. Tudo em uma linguagem que, para nós, adultos, soa ilógica e fadada a levá-la a lugar nenhum. 

Não é que crianças tenham ideias diferentes de adultos – essa verdade é verdade desde que o mundo existe. É que agora – pelo menos essa foi a minha conclusão – os diálogos internos delas, a maneira com que elas raciocinam, é absolutamente distante do que nós, que nascemos antes da era digital, estamos efetivamente preparados para entender.

O Pequeno Príncipe e o valor dos clássicos

Às vezes esquecemos o quão importante são os clássicos. 

Aliás, nos esquecemos que livros viram clássicos por carregarem em suas páginas sabedorias raras, costuradas em enredos sofisticados que conversam fundo com o leitor. 

Me lembrei disso na semana passada, quando li o Pequeno Príncipe para a minha filha de 5 anos. 

Há o começo curioso e exótico, com um ser vindo de um planeta distante tendo sua história contada por um piloto que caiu no Saara. Seus olhinhos já começaram a brilhar por aí, pelos mundos distantes do dela que, subitamente, se apresentavam. 

Mas – e é isso que transform livros em clássicos – logo a superfície foi sendo substituída por temas aprofundadíssimos para crianças. A distância colossal entre seu mundo e o mundo dos adultos, a dificuldade de comunicação, os medos da solidão e do abandono, a morte, o além… 

Em cada página, uma lição nova saía das páginas direto para o seu coração, deixando um rastro de expressões conflitantes, ora aliviadas, ora tristes, ora esclarecidas. 

A saga do Pequeno Príncipe levou quase uma semana, terminando na noite da quinta. 

Não foi uma leitura fácil – principalente quando chegamos no final, quando o Príncipe morre e retorna ao seu planeta. Mas quais grandes sabedorias da vida são fáceis de serem adquiridas? 

A partir daí, até hoje, ela volta e meia faz referências à história – seja tentando “cativar” algum animal, falando da flor ou simplesmente olhando de maneira mais prolongada e pensativa para as estrelas. 

Os conhecimentos dos livros, claro, não são como pílulas que mostram efeito no instante seguinte: são sabedorias que se constroem por impregnação, de história em história, de fantasia em fantasia, de constatação em constatação. 

Eis, para mim, o grande valor dos clássicos: eles permitem saltos comprovadamente impressionantes nessa jornada tão individual que, invariavelmente, levará cada leitor, de qualquer idade, ao mais importante de todos os conhecimentos: o próprio. 

Somos as nossas histórias

Não digo isso como uma espécie de chavão, como uma frase solta, jogada ao vento, só por ser “bonita”. Eu realmente acredito que nós somos o acumulado das nossas histórias. 

Eu só funciono como funciono porque fui educado pelas histórias de vida dos meus pais (que, por sua vez, fora, moldados pelas histórias dos meus avós e assim por diante). Quando digo histórias de vida, incluo desde desafios da época, livros lidos que moldaram suas visões de mundo, perspectivas alcançadas e frustradas e assim por diante. 

Dia desses recebi do meu pai um livro com a história da nossa família desde o começo do século XIX, quando “éramos” tropeiros cruzando os sertões da Bahia. Havia, nesse livro, um conjunto de histórias e fotos de uma riqueza redescobridora – um conjunto que me fez entender melhor até a mim mesmo. 

O que fiz com isso? O óbvio: traduzi na linguagem de uma criança de 5 anos, usando as fotos como gancho, e comecei a repassar para a minha filha mais velha um pouco de como chegamos até o presente. 

Partindo de imigrantes portugueses do começo do século XIX. Depois, do paupérrimo Vale do Jequitinhonha nas suas secas mais áridas. Em seguida, guiando boiadas até o meio da Bahia. Caçando educação para os mais promissores. Perseguindo uma vida diferente. Singrando sertões até chegar ao mar de Salvador. Cruzando os céus até chegar a São Paulo. 

As nossas histórias de vida são como contos de fada – tudo depende da maneira com que as roteirizamos e fazemos encaixar nas mentes de menor idade. São, aliás, muito melhores do que contos de fada que se passam nas florestas do norte da Europa: há, nos nossos passados, qualquer coisa que acaba soando familiar, possivelmente por obra da memória genética, e que atrai muito mais a atenção dos nossos filhos. 

Para que mais serve uma história, afinal, senão para nos ajudar a entender quem nós realmente somos? 

Escolas se adaptando à realidade

Educar crianças nunca foi uma missão fácil: há dogmas curriculares, choques de geração, quedas de interesse e incontáveis desafios no caminho entre as disciplinas e as pequenas mentes que, em tese, deveriam absorvê-las. 

Mas o problema, ao menos a meu ver, não é o desafio em si: é o inacreditável conservadorismo das escolas, em especial das brasileiras, que insistem em manter os mesmos métodos do século XIX mesmo cientes de que as suas eficácias são inquestionáveis. Pense bem: faz sentido, hoje, fazer alunos decorarem matérias, evitarem colas em provas e interagirem uns com os outros apenas em esparsas ocasiões? 

Ora… se a escola deveria preparar os alunos para o futuro, porque insistimos tanto em nos prender a realidades de passados tão distantes? Não seria mais efetivo, para ficar apenas em um exemplo, ensinar os alunos a pesquisar conteúdos na Internet durante as provas – incentivando a cola bem feita – ao invés de testar a capacidade de suas memórias? Qual o importante, afinal? Que ele “aprenda a aprender” ou que decore algo que fatalmente esquecerá uma hora depois da prova? 

Voemos para fora do Brasil. Na Finlândia, dezenas de escolas estão experimentando métodos bem diferentes. Ao invés de currículos rigidíssimos, quase vitorianos, eles selecionam temas que estejam em pauta no cotidiano (e que, portanto, já atraem o interesse das crianças) e distribuem as matérias em torno deles. Por exemplo: se o tema é “mudança climática”, eles criam projetos que envolvam matemática, história, geografia e até conceitos básicos da economia para que os alunos aprendam, sempre em grupos e com base em aplicações práticas, cotidianas, os conhecimentos que precisam ter. 

Bem melhor, não? Esse mesmo tipo de método tem se espalhado pelo norte da Europa, gerando alunos muito mais interessados e preparados para o futuro. E nós, aqui no Brasil? 

Certamente há uma ou outra escola com métodos mais interessantes – mas elas são a ampla minoria. Resultado? 

Enquanto o mundo muda para produzir cidadãos mais engajados e apaixonados pelo conhecimento, nós seguimos impondo tabuadas e cronologias de datas inúteis. 

Que nós, pais, consigamos compensar esse conservadorismo escolar engajando os nossos filhos à nossa maneira.