Eu já sei!

Essa é a pior frase que podemos enfrentar com uma criança.

Não digo isso, claro, quando estamos falando de algum assunto que ela já domine e esteja apenas expressando a inutilidade de tentarmos ensinar o que já saiba.

Refiro-me à resistência que, por vezes, aparece nas crianças em assumir que não se sabe algo. 

Em pegar um brinquedo qualquer e tentar montá-lo sozinha a despeito de complicados manuais de instrução feitos para adultos – mas sem admitir que um adulto possa capitanear o processo justamente por já ter mais instrumentos, por assim dizer, para saber mais.

Ou em forçar grafias erradas de palavras durante o processo de alfabetização pela pura resistência de se assumir que não se sabe e deixar um adulto ensinar.

Ou mesmo em aprender a forma certa de falar as horas.

Há, nas crianças, essa resistência em assumir-se “não-onisciente”, em expor uma falta essencial para o próprio processo de amadurecimento. Eu diria até que o mais difícil no processo de educação não é ensinar fórmulas ou definições, mas sim ensinar que não se sabe tudo e que, se não se entende e se aceita isso, também não se aprende nada.

Sim, crianças são curiosas por definição – mas a melhor forma de se explorar essa curiosidade, ao menos em minha opinião, é incentivando que ela seja exposta como pergunta, como dúvida ou mesmo como brincadeira. Senão, como conduzir o amadurecimento dos nossos filhos?

Uma boa ferramenta para isso? Livros, claro.

Livros, afinal, contém histórias cujos enredos só são desvendados “na próxima página”. Livros exigem paciência da criança, exigem aceitação do mistério, exigem que a descoberta parta, invariavelmente, da boca de quem estiver lendo.

Não que baste uma história para solucionar tudo – educação, afinal, se faz por impregnação. Mas, com uma depois da outra, desconhecido depois de desconhecido, mistério depois de mistério… aí o cenário inteiro começa a se metamorfosear. É o hábito, afinal, que muda as mentes.

É fazer o conhecimento do desconhecimento ser natural, comum, cotidiano. 

Um dia depois do outro.

Até que o “eu já sei” vire “eu quero saber”.

Lidando com a falta de faltas no universo infantil atual

A vida é inegavelmente mais completa para uma criança hoje do que para uma criança da década de 80.

Não que sejamos todos milionários ou que vivamos com o PIB per Capita da Suécia, claro – mas o mundo ficou inegavelmente mais acessível. Pense na quantidade de vezes que você ouviu a palavra “não tem”quando era criança e na quantidade de vezes que profere isso para seus filhos.

Vá nos detalhes.

Lá atrás, se quiséssemos assistir a desenhos animados, tínhamos que acordar cedo e confiar no gosto do editor do Xou da Xuxa. Hoje, basta ligar o Netflix ou o Youtube e toda a infinidade de conhecimento produzido pela humanidade se materializa em um clique.

Não me levem a mal: não sou nem um pouco saudosista e nem penso que o mundo era melhor quando a vida era mais escassa. Ao contrário: acredito piamente que as oportunidades abertas para a humanidade como um todo pela nossa Era da Informação são maiores e mais brilhantes do que jamais este nosso planeta testemunhou.

Mas isso não significa que tudo seja perfeito.

Se tem uma coisa que aprendemos na nossa infância de escassez é a entender a falta. Entender que nem tudo estava permanentemente ao nosso dispor nos ensinava também a lidar com frustrações, a comemorar melhor as conquistas, a lutar mais pelas pequenas vitórias cotidianas.

Mas em um mundo em que tudo é possível e fácil, qual o propósito de se batalhar por qualquer coisa?

O perigo disso? Nossos filhos eventualmente crescerão e entrarão em um mercado de trabalho que tende a ser cada vez mais competitivo e árido – e não há como lidar bem com a competitividade se não se aprendeu desde cedo que frustrações e vitórias precisam ser enfrentados com um tipo de maturidade que só o tempo ensina.

Bom… e daí? Por que estou escrevendo sobre isso aqui no blog da Fábrica? Porque, se não dá para mudar o mundo ou enclausurar uma criança no século XIX, dá pelo menos para trabalhar a sua maturação com livros.

Livros, afinal, são retratos de tempos passados, de tempos que continham batalhas e que eram povoados por protagonistas e antagonistas. São realidades paralelas que crianças conseguem entender, digerir e usar, claro, para seu próprio benefício.

Se, por um lado, é difícil mudar o mundo em que vivemos hoje para inserir um pouco mais de “menos” na realidade, por outro é bem mais fácil usar as sempre bem vindas historinhas infantis para preparar as nossas crianças para um mundo muito mais severo do que o que eles esperam encontrar.

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