Sendo co-autor de todos os autores do mundo

Desde que minha filha deitou os olhos sobre um livro de histórias do mundo do Monteiro Lobato, nada mais a demove de ouvi-lo até o final todas as noites.

Confesso que fiquei orgulhoso e envaidecido pela minha pequena leitora de 5 anos, ainda em fase de pre-alfabetização, ficar tão aficcionada por algo que certamente parece como um tijolo de letras para ela.

E sim: tenho lido Monteiro Lobato todas as noites, incansavelmente, às vezes utilizando a tecla SAP para pular partes mais complicadas e elaborar em torno de outras mais suaves.

Mas está ficando um desafio cada vez maior.

Como explicar, por exemplo, as penas de morte do Código de Drácon para quem sequer entende direito o conceito de morrer? Como explicar a escravidão, as perseguições a tantos povos, os assassinatos políticos e as lutas por direitos que uma criança de 5 anos entende não como conquista, mas como parte do mundo tal qual ele foi originalmente concebido?

Cheguei até a tentar mudar o livro. Ela aceita, principalmente no caso das histórias personalizadas daqui da Fábrica em que ela é personagem… mas isso dura apenas uma noite por mês. Nas demais, a regra é clara: Monteiro Lobato.

E o ritual é igualmente claro: passo o olho pela história da vez com a velocidade de uma cheetah e a reescrevo mentalmente, sublinhando algumas passagens, acrescentando outras, omitindo partes mais tensas.

Por hora, continua funcionando – milagrosamente. E ela continua com os olhos arregalados e os neurônios tecendo sinapses alucinadas enquanto ouve histórias de egípcios, persas, gregos, romanos.

Mas confesso, por fim, que nunca imaginei que contar histórias para dormir fosse se transformar em uma tarefa tão tensa para o pai – e nem que este precisaria treinar a própria criatividade para se transformar em co-autor de um dos maiores gênios da nossa literatura para fazer a magia acontecer!

Pensando bem, isso até era meio óbvio, não? Não seríamos nós, pais, afinal, os grandes co-autores de todos os livros que lemos para os nossos filhos?

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Monteiro Lobato e a antecipação da inteligência infantil

Aprendi a ler com Monteiro Lobato. 

Não falo aqui do “aprender a ler” literal, da alfabetização, claro. Falo do pegar um livro nas mãos e devorá-lo história a história, descobrindo a curiosidade dos próximos capítulos e as descobertas novas de cada parágrafo. Me lembro bem do livro – tão bem que consegui achar sua capa no Google, embora digitalmente esfarrapada e comida pelas traças que não perdoam nem mesmo no universo digital: 


Esse livro “funcionou” para mim. Me peguei pensando no motivo dia desses, quando me deparei com uma nova edição na prateleira de uma livraria aqui em São Paulo. Bom… motivos não faltaram. 

Havia os personagens do Sítio do Pica-Pau Amarelo para dar aquele ar infantil; havia histórias que evocam uma curiosidade natural (como a descoberta do fogo, a invenção do avião, o Big Bang); havia uma cadência, um ritmo de narrativa daqueles que empolgam; havia uma extensão perfeita já que nenhuma era longa demais ou curta demais. Havia, enfim, Monteiro Lobato em seu melhor. 

Bom… minha filha de 5 anos não está exatamente alfabetizada, claro. Mas comprei o livro e decidi testá-lo com ela. Resultado? 

Do Big Bang aos romanos, ela amou cada palavra. Foi descobrindo que histórias não precisamos ser lidas de capa a capa na mesma hora, foi deduzindo o mundo à sua volta, foi ficando mais curiosa com tudo na medida em que saciava cada curiosidade. Verdade seja dita, os únicos trechos que ela não curtia mesmo eram os que tinham Dona Benta dialogando com Pedrinho e Narizinho, justamente o que havia sido criado para dar um toque mais infantil a acontecimentos tão… terrenos. 

Claro: houve momentos em que eu acabei usando uma espécie de “tecla SAP” e outros que eu criei um pouco de romance que sabia que cairiam bem, mas, em essência, esse livro foi uma espécie de terremoto intelectual na pequena mente de uma menina de 5 anos. 

A conclusão que acabei chegando? Por algum motivo qualquer, possivelmente pelo enormidade de estímulos de informação que recebem minuto a minuto, crianças hoje parecem muito mais inteligentes que as de ontem. Conclusão óbvia, aliás: basta ver como os nossos pequenos lidam com eletroeletrônicos e questionam realidades que, em nossos tempos, sequer imaginávamos relevantes.

Eu iria ainda além: a capacidade do cérebro de digerir conhecimento inverteu decisivamente a própria cronologia natural, antecipando-se à alfabetização. Crianças de hoje, em outras palavras, não precisam saber ler para querer “ler” uma história qualquer.

Nosso papel como pais? Substituir, ainda que temporariamente, a alfabetização, sendo a ponte entre as histórias que enchem os livros e a curiosidade do mundo que parece coçar a pele de cada filho. 

Dá até uma esperança maior no futuro da humanidade 🙂