A história de se escrever sobre histórias

Uma das primeiras decisões que tomei quando comecei a Fábrica de Historinhas foi usar este espaço, o blog, para relatar um pouco da minha experiência como pai. Cheguei a me questionar repetidas vezes se não acabaria me arrependendo de escancarar tanta vida pessoal na Internet… mas hoje fico deliz pela decisão. 

Estive relendo alguns dos posts escritos nos últimos meses e, no final, acabei concluindo que o próprio blog se tornou – ao menos para mim – um relato vivo da minha história com a minha filha. Aqui já escrevi sobre a reação dela ao se enxergar em uma história, sobre como as noites mergulhadas em páginas tem alterado as nossas vidas, sobre como as imaginações – da criança e do pai – voam a cada novo conto feito para aprendermos mais sobre o mundo e as coisas. 

Na medida em que vou escrevendo cada post, vou também evitando que memórias importantes se percam no mar de passados que acumulamos todos os dias… e isso é importante. É como um diário antigo (mas jamais antiquado) em que todo o processo de crescimento intelectual da minha filha acaba sendo, de uma forma ou de outra, registrado. 

Falo muito aqui sobre a importância de se ler histórias para crianças – mas essa meta-aventura de se registrar a história da interpretação das histórias é igualmente importante. Nesse sentido, recomendo também a todos os pais e mães que, seja em um blog, no Facebook, no Insta ou no Youtube, aproveitem essa maravilhosa era de informação em que vivemos para fazer exatamente isso: registrar as histórias que todos já vivemos com os nossos próprios filhos. 

Há história mais importante que essa, afinal?

As duas línguas portuguesas nas historinhas da Fábrica

“Esse projeto está muito fixe!”, disse a Teresa, uma das mães da nossa parceira Storytellme, editora portuguesa, quando apresentamos o conceito da Fábrica de Historinhas.

Confesso que ficamos daqui, do outro lado do Skype, olhando um para a cara do outro sem entender se havíamos recebido um elogio ou uma crítica. Nos minutos seguintes constatamos: ela havia gostado. “Fixe” era algo como  “legal”.

Ufa!

Como todos os livros que temos até o momento na Fábrica são de origem portuguesa, mergulhei imediatamente na tarefa de adaptá-los ao nosso brasileirês… e fui descobrindo todo um outro mundo.

 

Descobri que, além de “fixe”, havia todo um universo de palavras inexistentes pelas bandas de cá. Descobri que tempos verbais inteiros (como o futuro do pretérito) mal são falados do outro lado do Atlântico.

Descobri que lá se fala “aspeto”, e não “aspecto”; e “facto” ao invés de “fato”.

Descobri que a pontuação tem outro estilo, outras regras, outra fluidez. Se você já leu Saramago, certamente foi impactado pelo tamanho quase angustiante das suas frases. Pois é: esse não era o estilo próprio do mestre lusitano e sim o idioma em si, com todas as suas regras gramaticais.

Enfim, descobri que o português de Portugal escrito é tão exótico, aqui para nós, quanto o falado. E é também incrivelmente belo, lúdico, fluido.

Deveria então manter os livros da Fábrica na língua-mãe? Não – não faria sentido adotar escritas e concordâncias erradas sob os parâmetros ortográficos e gramaticais brasileiros. Não faria sentido “des-ensinar” crianças, claro. Fui, então, para uma espécie de meio de caminho.

Para dar mais ritmo, acabei traduzindo grafias e ajustando frases, mas preservando parte da “forma” e do estilo de pontuação de cada parágrafo. É meio difícil de explicar, eu sei – mas é como se os livros daqui da Fábrica fossem escritos em um terceiro português, feito para unir o melhor dos dois mundos de maneira meticulosamente articulada.

Apesar de suspeito para falar, fiquei muito satisfeito com o resultado – e os primeiros pais que já receberam as historinhas, pelo que temos colhido de feedback, também.

Em outras palavras: ficou muito, mas muito fixe mesmo 🙂

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