Histórias fazendo os legados culturais dos nossos filhos

Eu nasci na Bahia.

Para mim, sincretismo religioso nunca foi um conceito exótico – era uma espécie de norma cultural, uma espécie de lei universal tão óbvia quanto a da gravidade.

Desde que me entendo por gente, portanto, 2 de fevereiro era dia de parar o cotidiano para “falar” com Yemanjá, talvez a mais famosa das Orixás cultuadas em Salvador. 2 de fevereiro era dia de jogar flores no mar para homenageá-la, era dia de acompanhar, ainda que pela TV, as inúmeras embarcações povoando a Baía de Todos os Santos, era dia de sentir uma energia inexplicavelmente diferente nas praias.

Minhas lembranças dessa data são as lembranças de uma criança. Sempre achei a possibilidade de uma sereia real ser a rainha do mar algo impressionante, encantador. Foi em datas como essa que, aos poucos e embalado pelo lúdico tão óbvio e ululante, fui entendendo o conceito universal de fé e de esperança, coisas tão abstratas e difíceis de serem colocadas em palavras quando se tem apenas 4 ou 5 anos. Foi em datas como essa que me encantei pelos personagens que, só depois de muito tempo, descobri serem mais característicos da própria cultura baiana do que do imenso mundo deitado atrás de nossas fronteiras.

Em resumo, foi em datas como o 2 de fevereiro que aprendi a acreditar no inacreditável, a esperar o inesperado, a ter orgulho de um legado cultural mais velho do que eu saberia contar.

E esse é um dos papéis de histórias para crianças… não? Afinal, histórias não ganham ainda mais força quando simbolizam legados culturais? Não ganham o poder até mesmo de formar caráter?

Datas especiais – como o dia 2 de fevereiro é para mim – são isso, em qualquer lugar do mundo: oportunidades perfeitas para transformar histórias em legados culturais. Fica-se mais paulista quando se celebra as histórias de heroísmo no 9 de julho; fica-se mais carioca quando se ouve a história da vinda de D. João VI ao passear pelo belíssimo centro do Rio; fica-se mais gaúcho quando se celebra a Semana Farroupilha.

E, partindo do princípio de que legados culturais são uma das bases da formação de qualquer criança, isso significa que nós, pais, temos quase que uma obrigação de aproveitá-las para transmitir aos nossos filhos os valores que nos são caros.

Para mim, isso significa que não terminarei o dia de hoje sem contar para a minha filha a história da sereia rainha do mar. Mas também significa que já estou fazendo todo um calendário próprio para casar datas, lugares e histórias com o objetivo único de entregar a ela o mais puro encantamento.

yemanja

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  1. Pingback: Aprendendo a conviver com novas crianças na família – Blog Fábrica de Historinhas

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