As histórias mais longas

No mundo em que vivemos, uma das lições mais difíceis de ensinar a crianças é que elas não podem ter tudo.

A dificuldade é por motivos óbvios: brinquedos estão por toda parte, há uma centena de canais de TV, há um Youtube inteiro com desenhos sob demanda. Aliás, a raiz do problema é exatamente esta: tudo em nossos tempos é sob demanda.

Só que não adianta brigar contra a modernidade: há que se conviver com ela.

Às vezes, com pequenos ‘nãos’ dispersos pelo cotidiano. Às vezes, com regras mais rígidas que tenham como motivo único ensinar limites. E, às vezes, com histórias.

De que maneira?

Crianças menores, com 4, 5 ou 6 anos, costumam ter alguma dificuldade em lidar com a ‘espera’. Isso se reflete bem em histórias: elas querem ir de capa a contracapa, assegurando-se de que terão completado sagas e enredos sem deixar nada para trás.

Fiz um experimento com isso lá em casa há algumas semanas: comprei um livro imenso de fábulas. Seria impossível lê-lo na íntegra em uma noite só: a única alternativa seria ir de fábula em fábula. Uma por noite. Uma de cada vez. Deixando claro que havia muito mais história para os próximos dias naquele mesmo livro do que o que veríamos naquela noite.

No começo, não foi exatamente fácil. Foi difícil para a minha filha conceber a possibilidade de um livro digerido aos poucos, dia a dia: ela parecia mais ‘movida’ pelo fato de não terminá-lo do que pela história que acabava de ouvir.

Persisti, claro.

E o resultado foi incrível.

Nas noites seguintes, a agonia foi cedendo espaço à curiosidade. Ela já sabia que veria uma história por noite – e ficava ansiosa pela noite e por saber quais novos mundos desbravaríamos naquele livro.

Nos dias seguintes, mais calma começou a transparecer – como um súbito movimento de maturação.

Tudo por causa de um livro grande? Certamente que não: mudanças nunca ocorrem por uma única causa. Mas de uma coisa não tenho dúvidas: dormir com a sensação de falta certamente ajuda a lidar melhor com as angústias naturais relacionadas à saciedade dos desejos.

Livros são muito, mas muito mais importantes que filmes ou desenhos

Desculpem se ofendi alguém com a afirmação no título do post: a ideia não é denegrir nenhuma forma de arte.

Mas repito-me: livros são muito, mas muito mais importantes que filmes ou desenhos.

Por que?

Porque livros são histórias que acontecem na mente dos leitores.

Quando uma criança assiste a um desenho, há todo um enredo devidamente traduzido em figuras, vozes e cenários já criados para ela. Já houve uma interpretação feita por um diretor, já há formas atribuídas para as suas fantasias, já há cores, densidades, importâncias pensadas por outros. A criança apenas as digere.

Não com livros.

Com livros, tudo o que pode haver é a voz de um pai ou mãe lendo para seu filho ou filha. Os cenários? Eles até podem ser ilustrados – mas a falta de movimentos os transporta diretamente para a imaginação de uma criança. Em um livro, é a mente da criança que constrói as ações, que completa os enredos, que determina os estilos de cada um dos personagens.

Filmes e desenhos são assistidos por crianças passivamente.

Livros são sempre co-escritos por elas em suas mentes.

A diferença é brutal – assim como os efeitos para o seu desenvolvimento.

Livros gigantes para crianças pequenas?

Sabe qual o único problema de ler historinhas infantis todos os dias? 

Livros tem finais.

No caso da maioria dos livros para crianças de 3 a 7 anos, esses finais costumam ser rápidos, mesmo porque tratam-se de histórias que se desenrolam inteiras em 20 ou 30 páginas. Como fazer, então? 

Comprar 365 livros por ano? Complicado. 

Acabei arrumando uma solução diferente por aqui, com minha filha: temos 3 tipos diferentes de livros.

  • Tipo 1: livros novos, que ela traz da biblioteca da escola ou que compramos. 
  • Tipo 2: livros que já lemos juntos, mas que ela adora e gosta de reler.
  • Tipo 3: livros grandes repletos de pequenos contos. 

Esse terceiro tipo foi uma baita descoberta, ao menos para mim. Veja: livros infantis precisam ser pequenos, claro, para fixar a história dentro do tempo que uma criança consegue ficar focada. Não adianta muito, principalmente para as mais novinhas, ler obras com 20, 30 capítulos – o interesse acaba desmaiando aos poucos. 

É aí que entram livros de contos ou fábulas: cada capítulo é uma história à parte, sendo que todas se somam em um único fio de raciocínio sutilmente mais amplo. E mais: quando a criança se toca de que estamos lendo apenas uma parte daquele mundaréu de páginas e que as outras partes ficarão para os outros dias, ela vai “aprendendo a aprender”, vai entendendo que nem todas as experiências da vida precisam ser deglutidas em suas inteirezas. 

O que estou falando aqui pode parecer óbvio… mas paternidade é assim: cada um de nós descobre, em nossos próprios tempos, as mesmas coisas que, provavelmente, a maioria de nós já está careca de saber 🙂 

A geografia de uma criança

Às vezes, quando me pego contando alguma história para a minha filha de 5 anos, esqueço que alguns referenciais simplesmente não existem para ela.

Para uma criança, o mundo é feito de familiaridades temporária e geograficamente dispersas entre si, descoladas, desconectadas. É um mundo tão diferente que sequer nos damos conta do que estamos contando.

A África, por exemplo, é uma terra com savanas por onde passam leões caçando girafas – mas que também divide espaço com os mesmos prédios pichados e avenidas largas que ela está habituada a ver na São Paulo que vivemos.

Esses prédios são tão onipresentes quando o céu e o arco-íris, aliás.

A Austrália não é muito diferente da África – basta trocar leões e girafas por cangurus.

A Europa, por sua vez, é uma grande Suécia pontilhada de castelos encantados e banhada pelo delicioso clima do sul da Itália. Exceto por Portugal, claro, que na verdade se resume ao apartamento de seus avós.

Há ainda, em sua cabeça, outros mundos que não se encaixam exatamente em continentes: o Egito com suas pirâmides, a Grécia com seus Deuses, a Babilônia com suas torres. Todos eles existem, embora não se saiba ao certo onde ou habitado por quem.

Estados Unidos? Não é exatamente um lugar. Tem os vulcões do Havaí e os belos prédios brancos de Washington, além de um louco artificialmente bronzeado que volta e meia aparece na TV para tomar o tempo de seus desenhos.

São visões de partes, de pequenas histórias ainda sem muita noção de espaço e tempo que, um dia, se costurarão em sua cabeça.

Um dia.

Talvez o marco do fim da infância seja justamente o momento em que esses lugares incríveis se fecharem no mesmo mundo e se dispersarem por muitos tempos.

Um dia, antes que isso ocorra, vou pedir à minha filha que desenhe o mundo tal qual ela o enxerga.

Será a história de todas as histórias.

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Fantasias inventando histórias

Primeiro, foi da Frozen. Depois, da Ariel.

Em seguida, as princesas (finalmente!) cansaram e começamos a inventar piratas, fadas, macacos mágicos.

Depois ela se entregou ao calor: queria mesmo era ficar de biquini (mesmo que se dissesse, em alguns momentos, uma vampira).

Fosse como fosse, minha filha passou esses últimos dias brincando de ser personagens. E nós?

Nós ficamos no entorno, dando volume à imaginação com histórias que se encaixassem nas suas fantasias. Nos transformamos em livros sendo escritos em tempo real, meio que por acidente, de maneira totalmente colaborativa. Criamos ondas de sorvete, céus com tempestades tumultuando os vôos das fadas e unicórnios, selvas brilhantes, oceanos de Nutella, torres mágicas, sofás voadores.

E quer saber? Foram histórias sensacionais essas – todas absolutamente diferentes das que costumamos comprar em livrarias. Todas, inclusive, bem mais empolgantes.

A descoberta do Carnaval, ao menos para mim, não poderia ter sido outra: deveríamos deixar as próprias crianças escreverem as histórias. Poucos adultos, afinal, conseguem chegar a um pico imaginativo como o delas!

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(Agora, se me dão licença, está na hora de experimentar alguma fantasia nova – o Carnaval só termina amanhã!!!)

A história de se escrever sobre histórias

Uma das primeiras decisões que tomei quando comecei a Fábrica de Historinhas foi usar este espaço, o blog, para relatar um pouco da minha experiência como pai. Cheguei a me questionar repetidas vezes se não acabaria me arrependendo de escancarar tanta vida pessoal na Internet… mas hoje fico deliz pela decisão. 

Estive relendo alguns dos posts escritos nos últimos meses e, no final, acabei concluindo que o próprio blog se tornou – ao menos para mim – um relato vivo da minha história com a minha filha. Aqui já escrevi sobre a reação dela ao se enxergar em uma história, sobre como as noites mergulhadas em páginas tem alterado as nossas vidas, sobre como as imaginações – da criança e do pai – voam a cada novo conto feito para aprendermos mais sobre o mundo e as coisas. 

Na medida em que vou escrevendo cada post, vou também evitando que memórias importantes se percam no mar de passados que acumulamos todos os dias… e isso é importante. É como um diário antigo (mas jamais antiquado) em que todo o processo de crescimento intelectual da minha filha acaba sendo, de uma forma ou de outra, registrado. 

Falo muito aqui sobre a importância de se ler histórias para crianças – mas essa meta-aventura de se registrar a história da interpretação das histórias é igualmente importante. Nesse sentido, recomendo também a todos os pais e mães que, seja em um blog, no Facebook, no Insta ou no Youtube, aproveitem essa maravilhosa era de informação em que vivemos para fazer exatamente isso: registrar as histórias que todos já vivemos com os nossos próprios filhos. 

Há história mais importante que essa, afinal?

Comprei um atlas

Não foi exatamente um atlas – não achei, pelo menos nas livrarias que visitei, nenhum atlas realmente interessante para crianças.

Na verdade, comprei um livro de fotos de viagens incríveis com mapas claros dos locais onde elas foram tiradas. Serviu ao propósito.

O atlas não é para mim: hoje, o Google e a Wikipedia acabam substituindo qualquer título do gênero feito para adultos. Ele é para a minha pequena filha.

Na medida em que eu vou lendo histórias para ela, mais e mais perguntas sobre as localidades em que elas ocorreram vão povoando a noite.

Em alguns casos, claro, os cenários são mundos mágicos e inexistentes… mas há outros bem reais.

Há o Nilo e as Pirâmides, há Roma Antiga, há o Olimpo com seus deuses, há os mares da Bahia.

Mesmo no caso das histórias que se passam em outras dimensões, como o País das Maravilhas de Alice, há o local e o tempo em que Lewis Carroll viveu e o que o inspirou.

Deixei o livro com ela e, sempre que surge alguma pergunta, me socorro dele para mostrar dunas, montanhas ou rios onde enredos se desenrolaram. Funcionou bem.

Continua funcionando.

Dia desses cheguei em casa do trabalho em silêncio e ela estava sozinha no seu quarto. Quando olhei, lá estava ela mergulhada nas fotos incríveis da Índia, provavelmente imaginando onde seria aquele lugar tão colorido e cheio de pessoas e animais exóticos.

Dá para perceber que essa nova curiosidade instalada tem ficado cada vez mais frequente pelos papos cotidianos e, claro, pela “aparição” do “atlas acidental” em todos os cantos da casa como que denunciando seu pequeno rastro.

 

 

Minha esperança? Que isso faça crescer mais nela aquele bichinho chamado de curiosidade pelo mundo, que ela cresça com vontade de devorar cada país que nos cerca.

Daqui a uns 10 ou 12 anos eu passo por aqui para contar se funcionou.

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Sendo co-autor de todos os autores do mundo

Desde que minha filha deitou os olhos sobre um livro de histórias do mundo do Monteiro Lobato, nada mais a demove de ouvi-lo até o final todas as noites.

Confesso que fiquei orgulhoso e envaidecido pela minha pequena leitora de 5 anos, ainda em fase de pre-alfabetização, ficar tão aficcionada por algo que certamente parece como um tijolo de letras para ela.

E sim: tenho lido Monteiro Lobato todas as noites, incansavelmente, às vezes utilizando a tecla SAP para pular partes mais complicadas e elaborar em torno de outras mais suaves.

Mas está ficando um desafio cada vez maior.

Como explicar, por exemplo, as penas de morte do Código de Drácon para quem sequer entende direito o conceito de morrer? Como explicar a escravidão, as perseguições a tantos povos, os assassinatos políticos e as lutas por direitos que uma criança de 5 anos entende não como conquista, mas como parte do mundo tal qual ele foi originalmente concebido?

Cheguei até a tentar mudar o livro. Ela aceita, principalmente no caso das histórias personalizadas daqui da Fábrica em que ela é personagem… mas isso dura apenas uma noite por mês. Nas demais, a regra é clara: Monteiro Lobato.

E o ritual é igualmente claro: passo o olho pela história da vez com a velocidade de uma cheetah e a reescrevo mentalmente, sublinhando algumas passagens, acrescentando outras, omitindo partes mais tensas.

Por hora, continua funcionando – milagrosamente. E ela continua com os olhos arregalados e os neurônios tecendo sinapses alucinadas enquanto ouve histórias de egípcios, persas, gregos, romanos.

Mas confesso, por fim, que nunca imaginei que contar histórias para dormir fosse se transformar em uma tarefa tão tensa para o pai – e nem que este precisaria treinar a própria criatividade para se transformar em co-autor de um dos maiores gênios da nossa literatura para fazer a magia acontecer!

Pensando bem, isso até era meio óbvio, não? Não seríamos nós, pais, afinal, os grandes co-autores de todos os livros que lemos para os nossos filhos?

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Histórias fazendo os legados culturais dos nossos filhos

Eu nasci na Bahia.

Para mim, sincretismo religioso nunca foi um conceito exótico – era uma espécie de norma cultural, uma espécie de lei universal tão óbvia quanto a da gravidade.

Desde que me entendo por gente, portanto, 2 de fevereiro era dia de parar o cotidiano para “falar” com Yemanjá, talvez a mais famosa das Orixás cultuadas em Salvador. 2 de fevereiro era dia de jogar flores no mar para homenageá-la, era dia de acompanhar, ainda que pela TV, as inúmeras embarcações povoando a Baía de Todos os Santos, era dia de sentir uma energia inexplicavelmente diferente nas praias.

Minhas lembranças dessa data são as lembranças de uma criança. Sempre achei a possibilidade de uma sereia real ser a rainha do mar algo impressionante, encantador. Foi em datas como essa que, aos poucos e embalado pelo lúdico tão óbvio e ululante, fui entendendo o conceito universal de fé e de esperança, coisas tão abstratas e difíceis de serem colocadas em palavras quando se tem apenas 4 ou 5 anos. Foi em datas como essa que me encantei pelos personagens que, só depois de muito tempo, descobri serem mais característicos da própria cultura baiana do que do imenso mundo deitado atrás de nossas fronteiras.

Em resumo, foi em datas como o 2 de fevereiro que aprendi a acreditar no inacreditável, a esperar o inesperado, a ter orgulho de um legado cultural mais velho do que eu saberia contar.

E esse é um dos papéis de histórias para crianças… não? Afinal, histórias não ganham ainda mais força quando simbolizam legados culturais? Não ganham o poder até mesmo de formar caráter?

Datas especiais – como o dia 2 de fevereiro é para mim – são isso, em qualquer lugar do mundo: oportunidades perfeitas para transformar histórias em legados culturais. Fica-se mais paulista quando se celebra as histórias de heroísmo no 9 de julho; fica-se mais carioca quando se ouve a história da vinda de D. João VI ao passear pelo belíssimo centro do Rio; fica-se mais gaúcho quando se celebra a Semana Farroupilha.

E, partindo do princípio de que legados culturais são uma das bases da formação de qualquer criança, isso significa que nós, pais, temos quase que uma obrigação de aproveitá-las para transmitir aos nossos filhos os valores que nos são caros.

Para mim, isso significa que não terminarei o dia de hoje sem contar para a minha filha a história da sereia rainha do mar. Mas também significa que já estou fazendo todo um calendário próprio para casar datas, lugares e histórias com o objetivo único de entregar a ela o mais puro encantamento.

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