Historinhas para se entender

Crianças tem essa característica de se abrir pouco. Falar, todas falam – por vezes aos cotovelos, até.

Mas quando se trata de seus grandes medos, de suas angústias e fantasias de terror… aí tudo muda.

Tendo a acreditar que esses medos infantis – de abandono, de serem preteridos, de não agradarem etc. – são tão colossais que colocá-los em palavras faladas, por si só, já é algo assustador. E nós, pais?

Ficamos pairando em torno das entrelinhas balbuciadas em horas de descuido, tentando formar e organizar esse quebra-cabeças tão infinito que é a mente infantil. E para fazer o que com ele? 

Conversar sempre é bem vindo, claro. Mas há horas que nossas palavras também caem no vácuo, por mais bem intencionadas que sejam. Nosso papel é mais complexo, muito mais complexo: é ensinar os nossos filhos a se entenderem e entenderem as coisas dos mundos às suas voltas sem que ninguém precise colocar em palavras.

E, se não há nenhuma fórmula mágica para isso, há pelo menos um caminho que descobri faz algum tempo: entrar e usar o próprio mundo da fantasia infantil para criar uma conexão maior, mais densa justamente por ser mais lúdica. 

Em outras palavras: livros infantis, histórias contadas na hora de dormir, são mais que um hábito ou passatempo. São como remédios fabulosos, como lições inteiras que, uma vez contadas, farão efeito inacreditável nas mentes e corações dos pequenos. 

Claro: há que se escolher bem a história. Há que se selecionar aquelas que mais tenham a ver com os temores do momento, com as angústias extravasadas naquelas tão discretas e desesperadas entrelinhas do discurso infantil. Como tudo na vida, há que se entender pelo menos parte do problema para se conseguir começar a endereçá-lo.

Mas a mera existência desse caminho, dessa porta aberta para conexão aos pontos mais nevrálgicos da criança, já é um alento.

Livros avulsos e pacotes: conheça os novos modelos da Fábrica de Historinhas!

Quando lançamos a Fábrica de Historinhas, no finalzinho do ano passado, tínhamos apenas um modelo de venda: assinatura. Ou seja: os pais pagavam um valor mensal e, a cada trinta dias, recebiam em casa uma nova história personalizada.

Pois bem: acabamos de reformar a Fábrica e acrescentar alguns novos modelos. A partir de agora, ela funcionará assim:

  1. Livros avulsos: quem quiser poderá personalizar e comprar apenas um livro, de maneira simples, prática e direta.
  2. Pacotes: A assinatura se transformará em um pacote periódico. Ou seja: se quiser três meses de historinhas, bastará comprar o pacote de três meses. Neste caso, no entanto, os pais poderão também escolher quais dos livros receberão em quais meses, facilitando tanto a personalização quanto agregando mais opções.
  3. Aniversário: Finalmente, o pacote de aniversário (que inclui um livro grande para o aniversariante + livrinhos pequenos para dar de lembrancinhas aos convidados) será mantido.

E quanto aos assinantes atuais? Quem quiser pode migrar para algum dos nossos novos modelos, bastando que contate o atendimento@fabricadehistorinhas.com.br , ou ficar como está. Pelo menos até dezembro deste ano, todos os planos de assinatura atuais serão mantidos.

Essas mudanças vieram depois de muita demanda do público e acreditamos que, agora, a Fábrica ficará muito mais acessível e prática para todos. Gostou?

Então confira o site no www.fabricadehistorinhas.com.br e divirta-se escolhendo as historinhas ideais para seus filhos!

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Como pensam as crianças

Já começo pedindo perdão pelo título, pretensioso demais para o que realmente pretendo escrever aqui. 

Faz algumas semanas, instalamos no iPad da Isa, minha filha mais velha de 5 anos, o Youtube Kids. O objetivo: permitir um pouco de independência em sua navegação pela Internet uma vez que ela poderia fazer buscas por voz e que nós poderíamos contar com algum tipo de censura quanto a conteúdos… digamos… inapropriados. 

O que eu não contava é que isso nos permitiria viajar fundo na maneira com que o cérebro de uma criança é articulado em nossos dias. 

Vamos a exemplos: 

Quando ela quer buscar algo sobre o famigerado Spinner, por exemplo, ela não fala “Spinner”: ela fala “coisas maneiras”, na esperança de achar não apenas o brinquedo em si como também conteúdos semelhantes. O Youtube, cujo algoritmo de busca é simplesmente genial, entende isso perfeitamente e entrega como resultado exatamente o que ela quer. 

O que mais ela busca? Conteúdos estilo “do-it-yourself” em versão kids, exemplos de brincadeiras com bonecas ou simplesmente ideias para se passar o tempo quando está entediada. Tudo em uma linguagem que, para nós, adultos, soa ilógica e fadada a levá-la a lugar nenhum. 

Não é que crianças tenham ideias diferentes de adultos – essa verdade é verdade desde que o mundo existe. É que agora – pelo menos essa foi a minha conclusão – os diálogos internos delas, a maneira com que elas raciocinam, é absolutamente distante do que nós, que nascemos antes da era digital, estamos efetivamente preparados para entender.

O Pequeno Príncipe e o valor dos clássicos

Às vezes esquecemos o quão importante são os clássicos. 

Aliás, nos esquecemos que livros viram clássicos por carregarem em suas páginas sabedorias raras, costuradas em enredos sofisticados que conversam fundo com o leitor. 

Me lembrei disso na semana passada, quando li o Pequeno Príncipe para a minha filha de 5 anos. 

Há o começo curioso e exótico, com um ser vindo de um planeta distante tendo sua história contada por um piloto que caiu no Saara. Seus olhinhos já começaram a brilhar por aí, pelos mundos distantes do dela que, subitamente, se apresentavam. 

Mas – e é isso que transform livros em clássicos – logo a superfície foi sendo substituída por temas aprofundadíssimos para crianças. A distância colossal entre seu mundo e o mundo dos adultos, a dificuldade de comunicação, os medos da solidão e do abandono, a morte, o além… 

Em cada página, uma lição nova saía das páginas direto para o seu coração, deixando um rastro de expressões conflitantes, ora aliviadas, ora tristes, ora esclarecidas. 

A saga do Pequeno Príncipe levou quase uma semana, terminando na noite da quinta. 

Não foi uma leitura fácil – principalente quando chegamos no final, quando o Príncipe morre e retorna ao seu planeta. Mas quais grandes sabedorias da vida são fáceis de serem adquiridas? 

A partir daí, até hoje, ela volta e meia faz referências à história – seja tentando “cativar” algum animal, falando da flor ou simplesmente olhando de maneira mais prolongada e pensativa para as estrelas. 

Os conhecimentos dos livros, claro, não são como pílulas que mostram efeito no instante seguinte: são sabedorias que se constroem por impregnação, de história em história, de fantasia em fantasia, de constatação em constatação. 

Eis, para mim, o grande valor dos clássicos: eles permitem saltos comprovadamente impressionantes nessa jornada tão individual que, invariavelmente, levará cada leitor, de qualquer idade, ao mais importante de todos os conhecimentos: o próprio. 

Somos as nossas histórias

Não digo isso como uma espécie de chavão, como uma frase solta, jogada ao vento, só por ser “bonita”. Eu realmente acredito que nós somos o acumulado das nossas histórias. 

Eu só funciono como funciono porque fui educado pelas histórias de vida dos meus pais (que, por sua vez, fora, moldados pelas histórias dos meus avós e assim por diante). Quando digo histórias de vida, incluo desde desafios da época, livros lidos que moldaram suas visões de mundo, perspectivas alcançadas e frustradas e assim por diante. 

Dia desses recebi do meu pai um livro com a história da nossa família desde o começo do século XIX, quando “éramos” tropeiros cruzando os sertões da Bahia. Havia, nesse livro, um conjunto de histórias e fotos de uma riqueza redescobridora – um conjunto que me fez entender melhor até a mim mesmo. 

O que fiz com isso? O óbvio: traduzi na linguagem de uma criança de 5 anos, usando as fotos como gancho, e comecei a repassar para a minha filha mais velha um pouco de como chegamos até o presente. 

Partindo de imigrantes portugueses do começo do século XIX. Depois, do paupérrimo Vale do Jequitinhonha nas suas secas mais áridas. Em seguida, guiando boiadas até o meio da Bahia. Caçando educação para os mais promissores. Perseguindo uma vida diferente. Singrando sertões até chegar ao mar de Salvador. Cruzando os céus até chegar a São Paulo. 

As nossas histórias de vida são como contos de fada – tudo depende da maneira com que as roteirizamos e fazemos encaixar nas mentes de menor idade. São, aliás, muito melhores do que contos de fada que se passam nas florestas do norte da Europa: há, nos nossos passados, qualquer coisa que acaba soando familiar, possivelmente por obra da memória genética, e que atrai muito mais a atenção dos nossos filhos. 

Para que mais serve uma história, afinal, senão para nos ajudar a entender quem nós realmente somos? 

Escolas se adaptando à realidade

Educar crianças nunca foi uma missão fácil: há dogmas curriculares, choques de geração, quedas de interesse e incontáveis desafios no caminho entre as disciplinas e as pequenas mentes que, em tese, deveriam absorvê-las. 

Mas o problema, ao menos a meu ver, não é o desafio em si: é o inacreditável conservadorismo das escolas, em especial das brasileiras, que insistem em manter os mesmos métodos do século XIX mesmo cientes de que as suas eficácias são inquestionáveis. Pense bem: faz sentido, hoje, fazer alunos decorarem matérias, evitarem colas em provas e interagirem uns com os outros apenas em esparsas ocasiões? 

Ora… se a escola deveria preparar os alunos para o futuro, porque insistimos tanto em nos prender a realidades de passados tão distantes? Não seria mais efetivo, para ficar apenas em um exemplo, ensinar os alunos a pesquisar conteúdos na Internet durante as provas – incentivando a cola bem feita – ao invés de testar a capacidade de suas memórias? Qual o importante, afinal? Que ele “aprenda a aprender” ou que decore algo que fatalmente esquecerá uma hora depois da prova? 

Voemos para fora do Brasil. Na Finlândia, dezenas de escolas estão experimentando métodos bem diferentes. Ao invés de currículos rigidíssimos, quase vitorianos, eles selecionam temas que estejam em pauta no cotidiano (e que, portanto, já atraem o interesse das crianças) e distribuem as matérias em torno deles. Por exemplo: se o tema é “mudança climática”, eles criam projetos que envolvam matemática, história, geografia e até conceitos básicos da economia para que os alunos aprendam, sempre em grupos e com base em aplicações práticas, cotidianas, os conhecimentos que precisam ter. 

Bem melhor, não? Esse mesmo tipo de método tem se espalhado pelo norte da Europa, gerando alunos muito mais interessados e preparados para o futuro. E nós, aqui no Brasil? 

Certamente há uma ou outra escola com métodos mais interessantes – mas elas são a ampla minoria. Resultado? 

Enquanto o mundo muda para produzir cidadãos mais engajados e apaixonados pelo conhecimento, nós seguimos impondo tabuadas e cronologias de datas inúteis. 

Que nós, pais, consigamos compensar esse conservadorismo escolar engajando os nossos filhos à nossa maneira. 

Sabe quem mais compra livros para as crianças aqui na Fábrica de Historinhas?

Avós.

E não estou falando de uma maioria pequena das assinaturas de histórias infantis personalizadas – estou falando de algo na casa dos 85% de todas as compras.

Me deparei com esse número ontem, quando estava me debruçando sobre as nossas estatísticas por pura curiosidade. Confesso que me surpreendi.

Não deixa de ser curioso que, em uma sociedade que tanto reclama da falta de cultura de forma geral, tantos pais acabem deixando para os avós essa que talvez seja a mais importante das “forças educadoras” existentes: a literatura.

Não que isso seja necessariamente ruim – pelo menos, afinal, existe a figura dos avós que se dispõem a passar adiante o amor pelos livros aos seus netos. Mas, por outro lado, são os pais que mais convivem com os filhos – e são os pais colocam os filhos para dormir, que têm as oportunidades únicas de niná-los ao som das letras, que têm dentro de casa as condições perfeitas para usar histórias como ferramentas de crescimento. Sem a presença ativa dos pais, livros deixam de ser histórias mágicas e passam a ser objetos tão irrelevantes como abajures.

As nossas estatísticas não mostram, claro, o que acontece dentro das casas de ninguém. Elas não revelam, por exemplo, se os pais efetivamente lêem as histórias que os avós compraram para as crianças ou se os livros viram apenas tristes peças decorativas nas estantes. Elas também não podem ser lidas com generalismos onipotentes: não sei se essa constatação que tive se aplica à venda de livros infantis na Livraria Cultura, na Travessa, na Curitiba ou em outras.

Tomara que não. Tomara que nossos números sejam apenas um recorte enviesado da realidade e que os pais dêem mais atenção à educação literária dos seus filhos. 

Que futuro se pode esperar de uma sociedade, afinal, sem que suas histórias sejam contadas e recontadas com os devidos entusiasmos?

A escolha da história

No começo, eu mesmo gostava de escolher a historinha da noite para a minha filha. O raciocínio era simples, até simplista: como pai, eu saberia melhor que tema abordar junto a ela.

Há raciocínio mais antiquado que esse, mais digno do século XIX??

Se tem uma coisa que minha filha me ensinou foi que nós não temos a menor pista de quais os temas que realmente atormentam as crianças se não deixarmos elas mesmos dizerem. Observar é importante, obviamente – mas nem sempre os olhos de um adulto conseguirão captar as tantas entrelinhas que se escondem nos olhares de uma criança.

Assim, um novo diálogo, tão rico quanto invisível, passou a se estabelecer entre nós todas as noites. Eu pergunto a ela que livro ela quer ler. Ela escolhe.

Pela sua escolha, percebo alguns medos, algumas ansiedades, alguns temas que parecem estar pairando no ar.

Não os ataco diretamente: com crianças, os caminhos mais curtos tendem a ser também os mais longos. Vou apenas trabalhando tons de vozes e emoções, reforçando falas e trechos da história escolhida. Vou acompanhando os olhares, respondendo a perguntas com desvios de enredo personalizados, colando a fantasia à realidade em pontos-chave.

Depois que passei a fazer isso, a hora da historinha virou algo bem menos protocolar lá em casa: virou uma conversa invisível aprofundadíssima entre pai e filha, algo já esperado como se fosse um dos pontos mais altos do dia.

É impressionante como há sutilezas na conexão com crianças.

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