Mais inúmeras histórias a serem contadas

Até hoje, todos os meus posts foram relacionados a histórias contadas para a minha filha Isa, de 5 anos. E foram descobertas fenomenais, confesso: a cada nova fábula, a cada novo conto, mundos novos foram se multiplicando para nós dois: enquanto as sinapses se turbilhavam na sua cabecinha, eu também acabava descobrindo-a a cada novo brilho de olhar, a cada pergunta interessada, a cada “wow” escapulido dos seus pulmões. 

Pois bem: na segunda, minha segunda filha, Alice, nasceu. 

Nova jornada à vista!  

Claro: Alice ainda terá que esperar alguns anos para começar a receber esse fluxo de narrativas loucas retinas adentro… mas já estou tonto de ansiedade para começar. 

Multipliquemos, então, as histórias. E as descobertas. E esses momentos tão incríveis que temos com os nossos filhos. 

Esta semana sou só felicidade 😉

Como lidar com as histórias de monstros que existem

Monstros… sempre eles. 

Pode-se fazer o que for: dizer que seres malignos alados de três olhos e dentes gigantescos não existem, provar que há apenas ar sob a cama, mostrar que o escuro é apenas o claro sem luz. Monstros, ainda assim, sempre persistirão na imaginação das crianças. 

E, até as gerações passadas, os monstros eram os mesmos: bruxas, cucas, dragões etc. 

Até que o “politicamente correto” decidiu iniciar uma cruzada contra todos, praticamente forçando as suas exclusões dos livros infantis. 

Mas isso apagou o medo? 

De forma alguma. Medos, afinal, são manifestações muito mais espirituais do que físicas: eles apenas assumem uma forma qualquer para que crianças possam enfrentá-los de frente. E sabe o que acontece quando essa “forma” é apagada, quando cucas somem e bruxas entram em extinção? 

A realidade empresta outras. 

Lá em casa, o novo monstro que deixa a minha filha com medo durante as noites é o mosquito da dengue. De tanto ouvir casos em casa e na escola, de tanto ver campanhas na TV, de tanto captar críticas ao clube em frente à nossa casa que insiste em deixar suas caixas d’água descobertas, ela concluiu que o pior monstro de todos é aquele minúsculo ser alado que, embora praticamente imperceptível, consegue aterrorizar o mundo inteiro. 

Como lidar com isso? 

Diferente da Cuca e das bruxas, o mosquisto existe. Diferente dos monstros de três olhos, é realmente às noites que seus zumzuns ao pé do ouvido os denunciam. Diferente dos monstros das histórias, nossa capacidade de defender os filhos é realmente limitada. 

Ainda estou enfrentando esse novo monstro lá em casa. Já inventei historinhas, já chamei atenção para o mosquiteiro sobre a sua cama, já acalmei os ânimos da minha pequena filha. 

Mas ele continua lá, com uma invisibilidade irritantemente presente, desafiando a tudo e a todos. 

Talvez novas histórias devessem ser escritas sobre esses novos monstros que assustam crianças, sobre monstros que realmente existem. 

Mas, independentemente disso, não deixa de ser um sinal dos tempos que nosso papel como pais deixa de ser o de ensinar que monstros não existem para ser o de ensinar a melhor e mais segura maneira de conviver com eles. 


 

A história de se escrever sobre histórias

Uma das primeiras decisões que tomei quando comecei a Fábrica de Historinhas foi usar este espaço, o blog, para relatar um pouco da minha experiência como pai. Cheguei a me questionar repetidas vezes se não acabaria me arrependendo de escancarar tanta vida pessoal na Internet… mas hoje fico deliz pela decisão. 

Estive relendo alguns dos posts escritos nos últimos meses e, no final, acabei concluindo que o próprio blog se tornou – ao menos para mim – um relato vivo da minha história com a minha filha. Aqui já escrevi sobre a reação dela ao se enxergar em uma história, sobre como as noites mergulhadas em páginas tem alterado as nossas vidas, sobre como as imaginações – da criança e do pai – voam a cada novo conto feito para aprendermos mais sobre o mundo e as coisas. 

Na medida em que vou escrevendo cada post, vou também evitando que memórias importantes se percam no mar de passados que acumulamos todos os dias… e isso é importante. É como um diário antigo (mas jamais antiquado) em que todo o processo de crescimento intelectual da minha filha acaba sendo, de uma forma ou de outra, registrado. 

Falo muito aqui sobre a importância de se ler histórias para crianças – mas essa meta-aventura de se registrar a história da interpretação das histórias é igualmente importante. Nesse sentido, recomendo também a todos os pais e mães que, seja em um blog, no Facebook, no Insta ou no Youtube, aproveitem essa maravilhosa era de informação em que vivemos para fazer exatamente isso: registrar as histórias que todos já vivemos com os nossos próprios filhos. 

Há história mais importante que essa, afinal?

Comprei um atlas

Não foi exatamente um atlas – não achei, pelo menos nas livrarias que visitei, nenhum atlas realmente interessante para crianças.

Na verdade, comprei um livro de fotos de viagens incríveis com mapas claros dos locais onde elas foram tiradas. Serviu ao propósito.

O atlas não é para mim: hoje, o Google e a Wikipedia acabam substituindo qualquer título do gênero feito para adultos. Ele é para a minha pequena filha.

Na medida em que eu vou lendo histórias para ela, mais e mais perguntas sobre as localidades em que elas ocorreram vão povoando a noite.

Em alguns casos, claro, os cenários são mundos mágicos e inexistentes… mas há outros bem reais.

Há o Nilo e as Pirâmides, há Roma Antiga, há o Olimpo com seus deuses, há os mares da Bahia.

Mesmo no caso das histórias que se passam em outras dimensões, como o País das Maravilhas de Alice, há o local e o tempo em que Lewis Carroll viveu e o que o inspirou.

Deixei o livro com ela e, sempre que surge alguma pergunta, me socorro dele para mostrar dunas, montanhas ou rios onde enredos se desenrolaram. Funcionou bem.

Continua funcionando.

Dia desses cheguei em casa do trabalho em silêncio e ela estava sozinha no seu quarto. Quando olhei, lá estava ela mergulhada nas fotos incríveis da Índia, provavelmente imaginando onde seria aquele lugar tão colorido e cheio de pessoas e animais exóticos.

Dá para perceber que essa nova curiosidade instalada tem ficado cada vez mais frequente pelos papos cotidianos e, claro, pela “aparição” do “atlas acidental” em todos os cantos da casa como que denunciando seu pequeno rastro.

 

 

Minha esperança? Que isso faça crescer mais nela aquele bichinho chamado de curiosidade pelo mundo, que ela cresça com vontade de devorar cada país que nos cerca.

Daqui a uns 10 ou 12 anos eu passo por aqui para contar se funcionou.

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Sendo co-autor de todos os autores do mundo

Desde que minha filha deitou os olhos sobre um livro de histórias do mundo do Monteiro Lobato, nada mais a demove de ouvi-lo até o final todas as noites.

Confesso que fiquei orgulhoso e envaidecido pela minha pequena leitora de 5 anos, ainda em fase de pre-alfabetização, ficar tão aficcionada por algo que certamente parece como um tijolo de letras para ela.

E sim: tenho lido Monteiro Lobato todas as noites, incansavelmente, às vezes utilizando a tecla SAP para pular partes mais complicadas e elaborar em torno de outras mais suaves.

Mas está ficando um desafio cada vez maior.

Como explicar, por exemplo, as penas de morte do Código de Drácon para quem sequer entende direito o conceito de morrer? Como explicar a escravidão, as perseguições a tantos povos, os assassinatos políticos e as lutas por direitos que uma criança de 5 anos entende não como conquista, mas como parte do mundo tal qual ele foi originalmente concebido?

Cheguei até a tentar mudar o livro. Ela aceita, principalmente no caso das histórias personalizadas daqui da Fábrica em que ela é personagem… mas isso dura apenas uma noite por mês. Nas demais, a regra é clara: Monteiro Lobato.

E o ritual é igualmente claro: passo o olho pela história da vez com a velocidade de uma cheetah e a reescrevo mentalmente, sublinhando algumas passagens, acrescentando outras, omitindo partes mais tensas.

Por hora, continua funcionando – milagrosamente. E ela continua com os olhos arregalados e os neurônios tecendo sinapses alucinadas enquanto ouve histórias de egípcios, persas, gregos, romanos.

Mas confesso, por fim, que nunca imaginei que contar histórias para dormir fosse se transformar em uma tarefa tão tensa para o pai – e nem que este precisaria treinar a própria criatividade para se transformar em co-autor de um dos maiores gênios da nossa literatura para fazer a magia acontecer!

Pensando bem, isso até era meio óbvio, não? Não seríamos nós, pais, afinal, os grandes co-autores de todos os livros que lemos para os nossos filhos?

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O fim das férias e o começo (de verdade) de 2017

Quando evocamos a lembrança das férias, costumamos nos lembrar daquela maravilha que era ficar livre da rotina e poder dedicar todo o tempo a brincar. 

É provável que essa seja a mesma percepção que se consolide nas mentes de todas as crianças – mas apenas depois de uma certa idade. 

Aproveitar férias, afinal, tem uma relação direta com a liberdade individual. Quando a própria criança pode descer para a rua do prédio e brincar com os amigos para os quais ela mesmo ligou, poucos são os empecilhos para a diversão. Mas e no caso de crianças menores, com seus 4, 5 ou 6 anos, principalmente as que vivem em grandes centros urbanos famosos pela justificada neurose em torno da questão da segurança? 

Pode-se pensar e criar mil maneiras das crianças pequenas se divertirem e passarem o tempo – mas, no final das contas, elas estarão ainda dependentes das rotinas dos adultos. Descer para brincar? Só se houver alguém mais com elas. Ir a um parque? Idem. Brincar com os amigos? Só se os pais destes também estiverem com condições de combinar esses pequenos programas. 

O resultado disso: para crianças pequenas, principalmente na fase pre-alfabetização, o trecho final das férias é quase um suplício. Saudades dos amigos, tédio e energia acumulada acabam fazendo-as rezar pela volta da rotina escolar. 

Férias, para essas crianças pequenas, são simplesmente longas demais! 

Pois bem: a rotina escolar já começa a voltar a partir da semana que vem na maior parte do país. Com ela, voltam também os horários para dormir, as atividades extra-classe, as rotinas que darão mais sentido às historinhas de dormir. 

Com ela, a página do ano passado finalmente será virada – inclusive pela passagem para uma nova série. 

Com ela, e só com ela, começa realmente o ano de 2017 para os núcleos familiares. 

Assim, nosso desejo para todos não poderia ser diferente: um feliz 2017!!!

A importância de se permitir que crianças criem enquanto lêem

O título pode parecer óbvio mas, às vezes, acabamos nos esquecendo disso quando lidamos com nossos filhos. 

Quando ensinamos alguma coisa mais objetiva, temos a expectativa de que eles absorvam esse conhecimento de maneira quase inquestionável. 

Quando apontamos algum perigo, partimos do princípio de que eles o encarará com o pavor gélido dos velhos.

Quando mostramos alguma conduta, esperamos que ela seja desempenhada praticamente sem questionamentos. 

Quando lemos uma história, queremos crer que ela será ouvida em um silêncio tumular. 

Erro básico esse de achar que crianças são adultos. Não são.

Adultos, afinal, tem essa indiscutível capacidade de aprender calados, de ligar a intropecção e cruzar experiências de vida sem balbuciar uma única sílaba. 

Crianças, por outro lado, não tem esse acervo de conhecimento já sedimentado em forma de experiências e vivências. Tudo o que lhes é “ensinado” precisa ser questionado, às vezes em alto e bom som, para ser devidamente entendido. Diria mais: aprender, para crianças pequenas, é uma constante dialética hegeliana ao som de heavy metal. 

Crianças precisam criar estridentemente para projetar o que estão ouvindo e, por fim, entender, aprender. 

O que isso tem a ver com livros e histórias? A participação do adulto. 

Ou seja: se apenas abandonarmos as crianças com algum livro lúdico qualquer, daqueles que fazem figuras saltarem das páginas quando elas são viradas, ou com alguma app barulhenta no tablet, elas até podem se divertir – mas a capacidade de aprendizagem certamente será comprometida. 

Na fase pre-alfabetização, afinal, elas precisam do tom de voz de adultos lendo histórias; precisam das pausas dramáticas customizadas de acordo com as suas próprias características; precisam conseguir interromper com conjecturas, conclusões ou exclamações. Elas precisam interagir para conseguir construir sobre cada história e, por fim, aprender com ela.

Para crianças pequenas, aprender com histórias deve ser uma tarefa a dois, guiada por adultos até que estes se fizerem desnecessários no momento em que acervos próprios se consolidarem nas suas pequenas e impressionantes mentes. 

Não desperdicemos essa oportunidade: ler para crianças é muito mais essencial para o crescimento intelectual do que costumamos imaginar. 

Você já levou o seu filho a uma biblioteca?

Antigamente, bibliotecas eram lugares em que todos poderiam fazer empréstimos de livros (em muitos casos com cópias únicas) e devolvê-los depois de lidos. 

A própria evolução tecnológica impôs uma mudança dramática no cenário: livros são fáceis de se encontrar (seja em forma física ou digital) e bibliotecas já deixaram, há muito, de ser as guardiãs dos exemplares únicos de grandes histórias. Mas isso significa que elas não tem mais motivo de ser? 

De forma alguma. Bibliotecas, hoje, continuam sendo o que sempre foram: templos de disseminação da literatura. O estilo da “pregação”, por assim dizer, é que mudou. Em outras palavras: talvez não faça mais tanto sentido ir a uma biblioteca para tomar um livro emprestado como se fazia na década de 80. Mas faz, sim, muito sentido ir a uma biblioteca para mergulhar no universo da literatura com a mesma intensidade com a qual se vai, por exemplo, a um cinema ou a um museu. 

Quer exemplos práticos – principalmente focado nas crianças? 

A Biblioteca Infantil Multilíngue Belas Artes, na capital paulista, tem um espaço inteiro dedicado a crianças com o objetivo de estimular a leitura como brincadeira.

A Biblioteca Infantil Aglaé Fontes de Alencar, em Aracaju, tem uma sala específica para oficinas e leitura coletiva de histórias.

A Biblioteca Lucília Minssen, em Porto Alegre, tem uma programação mensal rica com oficinas de leitura e apresentações teatrais. 

Em outras palavras: se, antigamente, bibliotecas eram lugares onde as pessoas escolhiam as histórias para levar para casa, hoje elas são ambientes onde as histórias são consumidas e trabalhadas diretamente. 

Hoje, as bibliotecas se transformaram em museus de histórias vivas. Quer coisa mais perfeita para incentivar o hábito de leitura em crianças? 

Aceite, então, uma dica: procure uma biblioteca em sua cidade, atente-se à programação e aproveite as férias para garantir uma visita com os seus pequenos! 

(Uma dica extra: este post aqui lista uma série de opções extremamente interessantes por todo o Brasil.)

O desencontro de energias do começo do ano

Para muitos pais, esse período entre meados de janeiro e o começo de fevereiro é uma sucessão de interrogações. Exceto pelos afortunados que tiraram férias no verão, nós, os demais, estamos já desde a segunda de volta à suada labuta!

Nossos filhos, no entanto, ainda estão nadando no delicioso ócio das férias. O resultado? Um óbvio “desencontro de energias”. Para os pequenos, afinal, ainda é hora de acordar tarde, passar as primeiras horas do dia vegetando pela casa e, depois, tentar descobrir o que fazer com tanta energia acumulada. E o que fazer??

Para quem mora nas cidades costeiras, praia. Para quem mora em grandes cidades, parques ou museus. Para quem mora em pequenas cidades, ruas ou praças. Mas seja para onde for, há ainda a questão fundamental: com QUEM, já que estamos presos aos nossos ecritórios e já que pequenos de 3 a 7 anos não podem sair por conta própria perambulando pela cidade? Avós? Tios? Babás? Todos, em algum tipo de fórmula de revezamento que garanta que o tédio, filho do ócio, não apareça justamente no começo da noite, quando chegamos do trabalho já levemente assustados com o que vamos encontrar? 

Ah, as férias escolares… 

Mas olhe por outro lado: é também nesse momento que a educação mais fica nas mãos dos nossos núcleos familiares, incluindo toda a parentada e amigos, tanto nossos quanto dos nossos filhos. É nesses dias que as crianças mais aprendem a conviver com o próprio ócio, a inventar maneiras mais inusitadas de se divertir, a escrever, ainda que com as mentes, as suas próprias histórias e enredos vividos pelos bonecos e bonecas que lotam os seus quartos. 

Sim, eu sei: isso não alivia em nada a tarefa de enfrentar as férias escolares que ainda durarão mais um mês. Assim, na falta de algum conselho melhor (e se alguém o tiver, por favor o diga logo), deixo aqui, neste primeiro post do ano, um desejo para todos pais e mães envoltos no mesmo tipo de dilema de começo de ano que eu: que todos consigamos nos virar bem e que muitas histórias incríveis sejam escritas nesse verão! 

Feliz 2017!!!