Censura na historinha

Dia desses me deparei com um infográfico pra lá de interessante no UOL sobre a escolha de histórias para crianças. Tem de tudo: dados, dicas e opiniões bem completas sobre o quanto o “politicamente correto” ajuda ou atrapalha no processo educacional.

Bom… não vou me alongar tanto aqui, mesmo porque nada que eu escreva será mais completo que a matéria. Recomendo que vejam clicando aqui, na imagem abaixo ou diretamente no link http://tab.uol.com.br/contos-infantis/#censura-na-historinha

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Lidando com a falta de faltas no universo infantil atual

A vida é inegavelmente mais completa para uma criança hoje do que para uma criança da década de 80.

Não que sejamos todos milionários ou que vivamos com o PIB per Capita da Suécia, claro – mas o mundo ficou inegavelmente mais acessível. Pense na quantidade de vezes que você ouviu a palavra “não tem”quando era criança e na quantidade de vezes que profere isso para seus filhos.

Vá nos detalhes.

Lá atrás, se quiséssemos assistir a desenhos animados, tínhamos que acordar cedo e confiar no gosto do editor do Xou da Xuxa. Hoje, basta ligar o Netflix ou o Youtube e toda a infinidade de conhecimento produzido pela humanidade se materializa em um clique.

Não me levem a mal: não sou nem um pouco saudosista e nem penso que o mundo era melhor quando a vida era mais escassa. Ao contrário: acredito piamente que as oportunidades abertas para a humanidade como um todo pela nossa Era da Informação são maiores e mais brilhantes do que jamais este nosso planeta testemunhou.

Mas isso não significa que tudo seja perfeito.

Se tem uma coisa que aprendemos na nossa infância de escassez é a entender a falta. Entender que nem tudo estava permanentemente ao nosso dispor nos ensinava também a lidar com frustrações, a comemorar melhor as conquistas, a lutar mais pelas pequenas vitórias cotidianas.

Mas em um mundo em que tudo é possível e fácil, qual o propósito de se batalhar por qualquer coisa?

O perigo disso? Nossos filhos eventualmente crescerão e entrarão em um mercado de trabalho que tende a ser cada vez mais competitivo e árido – e não há como lidar bem com a competitividade se não se aprendeu desde cedo que frustrações e vitórias precisam ser enfrentados com um tipo de maturidade que só o tempo ensina.

Bom… e daí? Por que estou escrevendo sobre isso aqui no blog da Fábrica? Porque, se não dá para mudar o mundo ou enclausurar uma criança no século XIX, dá pelo menos para trabalhar a sua maturação com livros.

Livros, afinal, são retratos de tempos passados, de tempos que continham batalhas e que eram povoados por protagonistas e antagonistas. São realidades paralelas que crianças conseguem entender, digerir e usar, claro, para seu próprio benefício.

Se, por um lado, é difícil mudar o mundo em que vivemos hoje para inserir um pouco mais de “menos” na realidade, por outro é bem mais fácil usar as sempre bem vindas historinhas infantis para preparar as nossas crianças para um mundo muito mais severo do que o que eles esperam encontrar.

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Os tataravós

“Papaaaaaaaaaai!!!!! Venha ver meu tataravô na televisããããão!!!!!!”, gritou, da sala, minha filha de 5 anos.

Corri para a sala me perguntando, do alto da minha medíocre imaginação de adukto, que diabos meus antepassados de Jaguaquara, interior da Bahia, ou Maruim, interior de Sergipe, estariam fazendo na TV.

Quando cheguei lá, surpresa: era um desenho sobre homens das cavernas!

Fantástico.


Assim, na medida em que os ouvidos vão absorvendo historinhas que mesclam ficção com realidade, o Tempo vai gradativamente tomando forma na cabeça de uma criança…

Livros versus aplicativos

Sou meio rígido com livros. Não que seja chato ou que imponha Schoppenhauer para minha filha de 5 anos, claro – mas tenho aquela crença de que literatura e aplicativos são coisas absolutamente distintas. 

Vá a uma banca de jornal, por exemplo, e escolha um livro infantil qualquer. São grandes as chances de você acabar se deparando com uma daquelas histórias cujas páginas pulam cada vez que são folheadas ou que incluam cartelas de adesivos para crianças se divertirem de outra maneira. No começo, ficava apenas observando a reação da minha filha a cada livrinho interativo desses. 

Era a mesma reação provocada por uma app qualquer no iPad: sua gana, sua curiosidade, era muito mais movida pelo resultado de uma interação física qualquer do que pelo enredo em si. Era como se esses livros (ou apps físicas) estimulassem mais seus dedos que sua imaginação. 

Aí, em minha mente, criei uma separação conceitual clara: livros são livros, aplicativos são aplicativos e há momentos para cada um deles.

O que entendo como livros? Histórias contidas em páginas que tenham seu desenrolar, suas narrativas, gerando interações na imaginação das crianças. Tudo o que a criança precisa fazer, fisicamente, é ouvir (ou ler): o resto é com sua imaginação. 

E aplicativos? Qualquer coisa que inclua reações físicas a impulsos quaisquer (como virar páginas ou clicar em ícones). 

Ambos tem seus momento? Tem, sem dúvidas. A última coisa que quero fazer é banir aplicativos, principalmente os eletrônicos, da vida da minha filha: isso apenas criaria um abismo entre ela e o mundo de hoje no qual, eventualmente, ela acabará se inserindo de maneira independente dos pais. 

Mas também é irreal supor que um livro de adesivos da Barbie terá o mesmo efeito de uma coletânea de histórias do mundo do Monteiro Lobato. 

Livros são livros. E são fundamentais para a educação de qualquer criança.

 

Monteiro Lobato e a antecipação da inteligência infantil

Aprendi a ler com Monteiro Lobato. 

Não falo aqui do “aprender a ler” literal, da alfabetização, claro. Falo do pegar um livro nas mãos e devorá-lo história a história, descobrindo a curiosidade dos próximos capítulos e as descobertas novas de cada parágrafo. Me lembro bem do livro – tão bem que consegui achar sua capa no Google, embora digitalmente esfarrapada e comida pelas traças que não perdoam nem mesmo no universo digital: 


Esse livro “funcionou” para mim. Me peguei pensando no motivo dia desses, quando me deparei com uma nova edição na prateleira de uma livraria aqui em São Paulo. Bom… motivos não faltaram. 

Havia os personagens do Sítio do Pica-Pau Amarelo para dar aquele ar infantil; havia histórias que evocam uma curiosidade natural (como a descoberta do fogo, a invenção do avião, o Big Bang); havia uma cadência, um ritmo de narrativa daqueles que empolgam; havia uma extensão perfeita já que nenhuma era longa demais ou curta demais. Havia, enfim, Monteiro Lobato em seu melhor. 

Bom… minha filha de 5 anos não está exatamente alfabetizada, claro. Mas comprei o livro e decidi testá-lo com ela. Resultado? 

Do Big Bang aos romanos, ela amou cada palavra. Foi descobrindo que histórias não precisamos ser lidas de capa a capa na mesma hora, foi deduzindo o mundo à sua volta, foi ficando mais curiosa com tudo na medida em que saciava cada curiosidade. Verdade seja dita, os únicos trechos que ela não curtia mesmo eram os que tinham Dona Benta dialogando com Pedrinho e Narizinho, justamente o que havia sido criado para dar um toque mais infantil a acontecimentos tão… terrenos. 

Claro: houve momentos em que eu acabei usando uma espécie de “tecla SAP” e outros que eu criei um pouco de romance que sabia que cairiam bem, mas, em essência, esse livro foi uma espécie de terremoto intelectual na pequena mente de uma menina de 5 anos. 

A conclusão que acabei chegando? Por algum motivo qualquer, possivelmente pelo enormidade de estímulos de informação que recebem minuto a minuto, crianças hoje parecem muito mais inteligentes que as de ontem. Conclusão óbvia, aliás: basta ver como os nossos pequenos lidam com eletroeletrônicos e questionam realidades que, em nossos tempos, sequer imaginávamos relevantes.

Eu iria ainda além: a capacidade do cérebro de digerir conhecimento inverteu decisivamente a própria cronologia natural, antecipando-se à alfabetização. Crianças de hoje, em outras palavras, não precisam saber ler para querer “ler” uma história qualquer.

Nosso papel como pais? Substituir, ainda que temporariamente, a alfabetização, sendo a ponte entre as histórias que enchem os livros e a curiosidade do mundo que parece coçar a pele de cada filho. 

Dá até uma esperança maior no futuro da humanidade 🙂 

Dê livros no Natal

Se você tem um filho(a) pequeno(a), são grandes as chances dele(a) receber toneladas de brinquedos neste Natal por parte dos tios, tias, avós e familiares em geral.

Nada contra brinquedos, claro – mas não pude deixar de notar, nesses últimos 5 anos desde que virei pai, o quão pouco duradouros eles são. E não digo isso pela qualidade técnica: falo da utilização prática mesmo.

Quando nós éramos menores, as opções disponíveis de brinquedos eram poucas: tínhamos uma meia dúzia com as quais nos divertíamos por meses a fio. Hoje, no entanto, qualquer visita a uma Ri-Happy na esquina nos apresenta a centenas de lançamentos diários tão impressionantes quanto caros.

As crianças, claro, se encantam. Os pais compram. As crianças brincam por alguns dias. Aí, quase que imediatamente depois, elas se deparam com um novo lançamento – seja em uma vitrine ou na TV. Surge uma nova demanda e o ciclo começa de novo.

E o brinquedo que havia sido comprado? Vai para a pilha que acaba rapidamente caindo na vala do esquecimento.

A abundância gera o desperdício.

Não tenho nada contra brinquedos, acreditem – mas tomei uma decisão importante neste Natal: trocarei trecos por histórias.

Não que minha filha não vá ganhar trecos, brinquedos: seu sorriso imediatista certamente será desenhado por presentes da família. Eu, no entanto, preferirei dar algo que dure mais tempo: uma história.

O que é esse “mais tempo”? No caso de uma história, o infinito de sinapses geradas na escuridão do cérebro infantil já a partir de uma única leitura. Perdoem o clichê, mas é mesmo verdade que livros duram para sempre. Pollys e Shopkins, não.

E quando digo história, quero dizer história mesmo. Nada de livrinhos interativos que fazem pedaços de papel saltarem a cada página folheada ou de coleções de adesivos inúteis: quero algo que faça a imaginação da minha filha dar forma, por conta própria, às palavras que ela ouvir.

Nada também de ebooks que cantam e fazem barulho: para uma criança pequena, entrando na fase de alfabetização, menos é mais. quanto mais interatividades eletrônicas existirem, mais ela exercitará os dedos e menos o cérebro.

Neste Natal buscarei o exato oposto.

Neste Natal o presente será algum livro incrível.

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As histórias como pontes entre os mundos dos pais e dos filhos

Talvez a coisa mais fantástica desse período de alfabetização de crianças seja o mar de descobertas que se abre para elas. 

No cotidiano da minha filha, para usar um exemplo doméstico, ela está lidando com a sensação de crescimento fortalecida depois que o primeiro dentinho ficou mole, a noção de compartilhamento com a notícia da chegada de uma irmã mais nova, as competições por espaço e autoafirmação de personalidade perante as amigas e os tantos emaranhados de realidade e fantasia que começam a explodir na mente como uma espécie de bomba atômica de interrogações e exclamações. Tudo é surpreendentemente novo.

Claro: crescer é uma tarefa que nunca tem fim e a cada dia nós mesmos, do alto da nossa idade, nos deparamos com surpresas (boas e ruins) que transformam a vida em pura aventura. Mas nós, adultos, temos uma estrutura que, embora nem sempre bem resolvida, certamente é mais “bem definida”. Já sabemos separar jôio de trigo, já encaramos as maldades do mundo como fatos da vida (e não como magias de bruxos malignos) e já entendemos que as soluções para nossos problemas precisam ser construídas por nós mesmos. De certa forma, já entendemos a solidão. 

Crianças, não. Ao contrário: elas precisam de guias para ensiná-las que, ao menos até que o mundo das bruxas e fadas fique para trás e que os tantos medos abstratos virem passado, haverá alguém presente para apontar algum tipo de caminho. O papel de um pai ou de uma mãe pode até ser simplificado aqui: somos provedores de segurança. 

Segurança física, obviamente, protegendo os filhos dos males reais que o mundo cisma em ter, mas também segurança emocional. Nesse sentido, nosso papel passar por saber calcular os passos que devemos dar juntos e os que precisamos incentivá-los a seguir por conta própria; os medos que devemos confortar com abraços e os que devemos repelir; as fantasias que devemos incentivar e as que devemos, ainda que aos poucos, dizer que não passam de imaginação. 

A questão é que não se trata apenas de falar, por mais jeito que se tenha, com os filhos. O importante é se conectar, é falar na língua deles – a mesma que mescla fantasias com realidades em fórmulas tão indivíduais que o mero entendimento acaba ficando difícil. Mas, se podemos considerar que há dois mundos distintos entre adultos e crianças, também podemos considerar que há uma porta que os conecta: histórias. 

Humanos não são diferentes de animais porque sabem fazer contas ou jogar xadrez: somos diferentes porque sabemos consolidar todas as nossas abstrações emocionais em metáforas espremidas em histórias. E isso, acrescento, fazemos desde a mais tenra idade. 

Isso também significa que, do alto do século XXI, temos um vasto cardápio para escolher. Há histórias sobre virtualmente tudo, servindo de guias para que pais e filhos se descubram nessa jornada conjunto rumo ao crescimento. E como elas ajudam? Entregando as mensagens reais que carregam dentro de fantasias que encantam os pequenos. 

Histórias são o idioma das crianças. 

Quer ajudar a sua a caminhar e a desvendar essa selva que é a vida real? Leia para ela. 

 

As duas línguas portuguesas nas historinhas da Fábrica

“Esse projeto está muito fixe!”, disse a Teresa, uma das mães da nossa parceira Storytellme, editora portuguesa, quando apresentamos o conceito da Fábrica de Historinhas.

Confesso que ficamos daqui, do outro lado do Skype, olhando um para a cara do outro sem entender se havíamos recebido um elogio ou uma crítica. Nos minutos seguintes constatamos: ela havia gostado. “Fixe” era algo como  “legal”.

Ufa!

Como todos os livros que temos até o momento na Fábrica são de origem portuguesa, mergulhei imediatamente na tarefa de adaptá-los ao nosso brasileirês… e fui descobrindo todo um outro mundo.

 

Descobri que, além de “fixe”, havia todo um universo de palavras inexistentes pelas bandas de cá. Descobri que tempos verbais inteiros (como o futuro do pretérito) mal são falados do outro lado do Atlântico.

Descobri que lá se fala “aspeto”, e não “aspecto”; e “facto” ao invés de “fato”.

Descobri que a pontuação tem outro estilo, outras regras, outra fluidez. Se você já leu Saramago, certamente foi impactado pelo tamanho quase angustiante das suas frases. Pois é: esse não era o estilo próprio do mestre lusitano e sim o idioma em si, com todas as suas regras gramaticais.

Enfim, descobri que o português de Portugal escrito é tão exótico, aqui para nós, quanto o falado. E é também incrivelmente belo, lúdico, fluido.

Deveria então manter os livros da Fábrica na língua-mãe? Não – não faria sentido adotar escritas e concordâncias erradas sob os parâmetros ortográficos e gramaticais brasileiros. Não faria sentido “des-ensinar” crianças, claro. Fui, então, para uma espécie de meio de caminho.

Para dar mais ritmo, acabei traduzindo grafias e ajustando frases, mas preservando parte da “forma” e do estilo de pontuação de cada parágrafo. É meio difícil de explicar, eu sei – mas é como se os livros daqui da Fábrica fossem escritos em um terceiro português, feito para unir o melhor dos dois mundos de maneira meticulosamente articulada.

Apesar de suspeito para falar, fiquei muito satisfeito com o resultado – e os primeiros pais que já receberam as historinhas, pelo que temos colhido de feedback, também.

Em outras palavras: ficou muito, mas muito fixe mesmo 🙂

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Comemorando nossos primeiros assinantes :-)

A Fábrica de Historinhas foi lançada oficialmente na quinta passada, um dia depois do Dia das Crianças, quando fizemos a nossa primeira (e ainda super tímida) ação de divulgação.

No próprio dia 13 tivemos nosso primeiro assinante – e já começamos a comemorar como crianças no meio de um mar de brigadeiros 🙂

De lá para cá, não houve um só dia em que não somássemos mais membros à nossa fábrica – e estamos já produzindo os primeiros livros para envio.

Enfim, peço desculpas pelo tom meio egocêntrico desse post – estamos, afinal, celebrando a nós mesmos nesse comecinho de caminhada. Mas não há como ser diferente: todos aqui, tanto do time brasileiro quanto do português, nos esforçamos muito para criar algo que realmente acrescentasse valor ao universo de cada criança – e todos cremos entusiasmadamente que nada muda mais uma vida do que uma boa história.

Que venham, portanto, muito mais.

Vida longa à Fábrica!!!

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