Que tal inverter os papéis?

Crianças de praticamente todas as idades (principalmente a partir dos 3 anos) adoram desenhar. Quando ainda não sabem escrever, os desenhos são as suas formas de contar histórias – muitas das quais escondem personagens assustadores, sonhos fantásticos, visões estereotipadas das pessoas que fazem parte de suas vidas. 

Pois bem: e se invertermos os papéis uma noite e fazermos os nossos filhos nos contarem as histórias que criaram a partir das suas ilustrações? 

Os primeiros relatos – pelo menos de acordo com a experiência que tive em casa – serão os mais óbvios: casas são casas, borboletas são borboletas, nuvens são nuvens. Mas parte do nosso papel aqui inclui também ser uma espécie de narrador invisível, coadjuvante. Sim, há uma casa – mas o que se passa dentro dela? Sim, há uma nuvem – mas o que acontecerá quando ela decidir chover? E as boboletas voando? O que elas podem estar procurando pelos céus? 

A coisa mais incrível desse mundo de histórias é justamente esse infinito de possibilidades. 

Sensacional. 

Hiperativado

Minha segunda filha nasceu na segunda da semana passada.

De lá para cá houve o natural: lidar com o natural ciúme da minha mais velha, hoje com 5 anos; mergulhar na rotina de troca de fraldas, choros e fomes; ajudar a implementar uma nova rotina de 24 horas na casa; garantir que todos fiquem bem; e, claro, trabalhar. Não há nada de excepcional aqui: todos os pais passam pelas mesmas coisas todos os dias.

Mas, ainda que esteja falando da normalidade, é inegavelmente uma normalidade que cansa.

É como escrever uma nova saga por dia com direito a curvas nos enredos, personagens fantásticos, protagonismos surpreendentes, lições finais e assim por diante.

Mas há outra coisa inegável: a sensação a cada pseudo-final de dia é incrível.

Há coisa melhor que filhos?

As histórias mais longas

No mundo em que vivemos, uma das lições mais difíceis de ensinar a crianças é que elas não podem ter tudo.

A dificuldade é por motivos óbvios: brinquedos estão por toda parte, há uma centena de canais de TV, há um Youtube inteiro com desenhos sob demanda. Aliás, a raiz do problema é exatamente esta: tudo em nossos tempos é sob demanda.

Só que não adianta brigar contra a modernidade: há que se conviver com ela.

Às vezes, com pequenos ‘nãos’ dispersos pelo cotidiano. Às vezes, com regras mais rígidas que tenham como motivo único ensinar limites. E, às vezes, com histórias.

De que maneira?

Crianças menores, com 4, 5 ou 6 anos, costumam ter alguma dificuldade em lidar com a ‘espera’. Isso se reflete bem em histórias: elas querem ir de capa a contracapa, assegurando-se de que terão completado sagas e enredos sem deixar nada para trás.

Fiz um experimento com isso lá em casa há algumas semanas: comprei um livro imenso de fábulas. Seria impossível lê-lo na íntegra em uma noite só: a única alternativa seria ir de fábula em fábula. Uma por noite. Uma de cada vez. Deixando claro que havia muito mais história para os próximos dias naquele mesmo livro do que o que veríamos naquela noite.

No começo, não foi exatamente fácil. Foi difícil para a minha filha conceber a possibilidade de um livro digerido aos poucos, dia a dia: ela parecia mais ‘movida’ pelo fato de não terminá-lo do que pela história que acabava de ouvir.

Persisti, claro.

E o resultado foi incrível.

Nas noites seguintes, a agonia foi cedendo espaço à curiosidade. Ela já sabia que veria uma história por noite – e ficava ansiosa pela noite e por saber quais novos mundos desbravaríamos naquele livro.

Nos dias seguintes, mais calma começou a transparecer – como um súbito movimento de maturação.

Tudo por causa de um livro grande? Certamente que não: mudanças nunca ocorrem por uma única causa. Mas de uma coisa não tenho dúvidas: dormir com a sensação de falta certamente ajuda a lidar melhor com as angústias naturais relacionadas à saciedade dos desejos.

Livros são muito, mas muito mais importantes que filmes ou desenhos

Desculpem se ofendi alguém com a afirmação no título do post: a ideia não é denegrir nenhuma forma de arte.

Mas repito-me: livros são muito, mas muito mais importantes que filmes ou desenhos.

Por que?

Porque livros são histórias que acontecem na mente dos leitores.

Quando uma criança assiste a um desenho, há todo um enredo devidamente traduzido em figuras, vozes e cenários já criados para ela. Já houve uma interpretação feita por um diretor, já há formas atribuídas para as suas fantasias, já há cores, densidades, importâncias pensadas por outros. A criança apenas as digere.

Não com livros.

Com livros, tudo o que pode haver é a voz de um pai ou mãe lendo para seu filho ou filha. Os cenários? Eles até podem ser ilustrados – mas a falta de movimentos os transporta diretamente para a imaginação de uma criança. Em um livro, é a mente da criança que constrói as ações, que completa os enredos, que determina os estilos de cada um dos personagens.

Filmes e desenhos são assistidos por crianças passivamente.

Livros são sempre co-escritos por elas em suas mentes.

A diferença é brutal – assim como os efeitos para o seu desenvolvimento.

Sobre livros e o ensinamento do Tempo

Para nós, adultos, o Tempo é relativamente simples de entender: temos o nosso passado, dosamos cada uma das decisões que tomamos no dia-a-dia, projetamos com base nelas o nosso futuro. Há, senão uma certeza de que tudo dará certo, pelo menos uma expectativa de previsibilidade. Poucas coisas são mais reconfortantes que isso.

Não para uma criança: para ela, o Tempo é uma caixa preta.

Ela tem, claro, o seu curto passado: tem os dias de ontem, tem as festas que participou, as broncas que tomou e que impregnaram em seu instinto a diferença entre certo e errado. Ela tem também o seu presente – mas a impulsividade com que costuma decidir e reagir, motivada pela pura falta de entendimento sobre consequências de longo prazo, faz com que cada minuto seguinte seja uma possível surpresa. E o futuro? Uma criança de 3, 4, 5, 6 anos tem algum tipo de projeção sobre a sua vida quando tiver 30 ou 40? Não. Ela tem as suas fantasias, o poder lúdico de imaginar o que poderá ser – bailarina, superherói, motorista de ônibus ou médico… mas a própria facilidade com que os sonhos mudam comprova o quão aberto é o futuro.

Isso não está errado – claro. A coisa mais difícil de se entender no mundo é justamente a noção de Tempo: o conhecimento do passado, os efeitos do presente, os impactos disso nas possibilidades do futuro.

Mas, ao mesmo tempo, é também o entendimento mais valioso que uma criança pode ter. Por que? Porque nossa vida é regrada, precisamente, pelo Tempo. Quanto mais cedo o entendermos, mais cedo começaremos a construir as nossas felicidades dosando impulsividade e previsibilidade, intempestividade e controle. Quanto mais cedo entendermos o Tempo, mais cedo conceberemos a fórmula perfeita para transformá-lo em felicidade de acordo com as nossas estruturas de vida.

E esse é, provavelmente, o maior dos benefícios de um livro. Livros, claro, são compostos de enredo – e enredos são pura cronologia. Enredos partem de um cenário inicial, desembocam nas decisões tomadas pelo protagonista, apresentam as consequências dessa decisão. Livros ensinam muito mais do que meia dúzia de lições de moral para crianças: livros ensinam o Tempo.

E ensinam utilizando a linguagem lúdica de uma criança, brincando com sua imaginação, atiçando suas noções de mundo e provocando deduções impossíveis de se ter em outros meios.

Livros são, possivelmente, a maior das invenções do homem para capturar para si a felicidade.

Utilizemo-nos com os nossos filhos.

Infinity time. Digital generated

Sobre comida e capacidade de aprendizado

Sempre posto aqui sobre a relação entre histórias e o próprio desenvolvimento infantil. Uma coisa está intimamente ligada à outra, claro – são as histórias que despertam sinapses novas e ensinam deduções, fatos do mundo, relações entre causas e consequência.

Mas é óbvio que há mais que isso – muito mais. Um dos fatores mais fundamentais é a alimentação – e a relevância é impressionante. Confira nesse vídeo abaixo:

https://embed.ted.com/talks/lang/pt-br/sam_kass_want_to_teach_kids_well_feed_them_well

Usando festas de aniversário para entender melhor as nossas crianças

E não são?

Esse fim de semana fomos a um aniversário de um amigo da minha filha. Havia o tradicional, o que todos nós, pais, já estamos habituados a ver: animadores, crianças correndo para cima e para baixo, novos laços sendo feitos, amizades ganhando ou perdendo corpo, bolos, brigadeiros, famílias.

Tudo normal, certo?

Certo – só que apenas para nós, adultos.

Para uma criança, festas assim são um desafio à parte, uma oportunidade perfeita de amadurecimento em que se deve lidar com ambientes naturalmente mais competitivos que o ambiente familiar natural. Em outras palavras: cada festa de aniversário é, por natureza, uma trama à parte que cada criança, aniversariante ou convidada, está escrevendo.

O que resta a nós, pais, fazermos? Ler essas tramas, essas histórias.

Nesses casos, nos resta dar espaço e deixar as crianças se desenvolverem nas suas próprias comunidades. E, claro, observar, da primeira fila, esse amadurecimento acontecer com os nossos pequenos: ver a maneira que eles resolvem conflitos, como se impõem ou se resignam, como se divertem, como agem em suas comunidades.

Isso nos permitirá uma espécie de “diagnóstico”: saberemos (ou pelo menos teremos uma ideia mais precisa sobre) quais os elementos que precisam ser mais trabalhados em nossos filhos. Timidez? Saber ganhar? Saber perder? Saber negociar?

A partir daí vem o óbvio: usar a nossa observação para guiar a nossa educação, (incluindo a escolha de livros infantis que melhor se encaixarem em cada situação).

Aniversários não são apenas comemorações, fins em si mesmas: são um ponto de partida perfeito para se realinhar a educação que nós mesmos estamos dando a nossos filhos.

 

 

Livros gigantes para crianças pequenas?

Sabe qual o único problema de ler historinhas infantis todos os dias? 

Livros tem finais.

No caso da maioria dos livros para crianças de 3 a 7 anos, esses finais costumam ser rápidos, mesmo porque tratam-se de histórias que se desenrolam inteiras em 20 ou 30 páginas. Como fazer, então? 

Comprar 365 livros por ano? Complicado. 

Acabei arrumando uma solução diferente por aqui, com minha filha: temos 3 tipos diferentes de livros.

  • Tipo 1: livros novos, que ela traz da biblioteca da escola ou que compramos. 
  • Tipo 2: livros que já lemos juntos, mas que ela adora e gosta de reler.
  • Tipo 3: livros grandes repletos de pequenos contos. 

Esse terceiro tipo foi uma baita descoberta, ao menos para mim. Veja: livros infantis precisam ser pequenos, claro, para fixar a história dentro do tempo que uma criança consegue ficar focada. Não adianta muito, principalmente para as mais novinhas, ler obras com 20, 30 capítulos – o interesse acaba desmaiando aos poucos. 

É aí que entram livros de contos ou fábulas: cada capítulo é uma história à parte, sendo que todas se somam em um único fio de raciocínio sutilmente mais amplo. E mais: quando a criança se toca de que estamos lendo apenas uma parte daquele mundaréu de páginas e que as outras partes ficarão para os outros dias, ela vai “aprendendo a aprender”, vai entendendo que nem todas as experiências da vida precisam ser deglutidas em suas inteirezas. 

O que estou falando aqui pode parecer óbvio… mas paternidade é assim: cada um de nós descobre, em nossos próprios tempos, as mesmas coisas que, provavelmente, a maioria de nós já está careca de saber 🙂