Livros gigantes para crianças pequenas?

Sabe qual o único problema de ler historinhas infantis todos os dias? 

Livros tem finais.

No caso da maioria dos livros para crianças de 3 a 7 anos, esses finais costumam ser rápidos, mesmo porque tratam-se de histórias que se desenrolam inteiras em 20 ou 30 páginas. Como fazer, então? 

Comprar 365 livros por ano? Complicado. 

Acabei arrumando uma solução diferente por aqui, com minha filha: temos 3 tipos diferentes de livros.

  • Tipo 1: livros novos, que ela traz da biblioteca da escola ou que compramos. 
  • Tipo 2: livros que já lemos juntos, mas que ela adora e gosta de reler.
  • Tipo 3: livros grandes repletos de pequenos contos. 

Esse terceiro tipo foi uma baita descoberta, ao menos para mim. Veja: livros infantis precisam ser pequenos, claro, para fixar a história dentro do tempo que uma criança consegue ficar focada. Não adianta muito, principalmente para as mais novinhas, ler obras com 20, 30 capítulos – o interesse acaba desmaiando aos poucos. 

É aí que entram livros de contos ou fábulas: cada capítulo é uma história à parte, sendo que todas se somam em um único fio de raciocínio sutilmente mais amplo. E mais: quando a criança se toca de que estamos lendo apenas uma parte daquele mundaréu de páginas e que as outras partes ficarão para os outros dias, ela vai “aprendendo a aprender”, vai entendendo que nem todas as experiências da vida precisam ser deglutidas em suas inteirezas. 

O que estou falando aqui pode parecer óbvio… mas paternidade é assim: cada um de nós descobre, em nossos próprios tempos, as mesmas coisas que, provavelmente, a maioria de nós já está careca de saber 🙂 

Personalizando historinhas na vida real

As historinhas daqui da Fábrica acabaram me dando uma ideia que acabei colocando em prática recentemente: personalizar todas as histórias que conto para a minha filha, apimentando-as com nomes familiares a ela para cultivar mais a concentração.

Pus isso em prática na semana passada, durante uma historia sobre os Deuses Gregos. A história em si já era cativante o suficiente, verdade seja dita, até pelas interferências externas (como trovões ecoando no exato instante em que eu falava da ira de Zeus).

Mas a sua curiosidade assumiu proporções muito maiores quando disse que Afrodite era tão vaidosa quanto ela mesma, que Atena era tão sábia quanto a avó, que foi Eros quem flechou o coração do seu amigo Otto e que todos moravam em uma montanha que ficava na Grécia, bem depois de Portugal (país familiar para ela por ser onde moram os avós maternos).

Claro: é sempre necessário ter o cuidado de não destruir mitos ou histórias – não se pode desensinar uma criança, naturalmente. Mas posso afirmar que essa personalização, essa contextualização do novo no meio do familiar, funciona maravilhas para captar a concentração de uma criança.

Era óbvio, afinal: se funciona com os livros da Fábrica de Historinhas, por que não haveria de funcionar em todas as outras histórias?

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Entre cucas e bois da cara preta: o estranho hábito de educar a partir do medo

Nunca fui muito fã de contar histórias assustadoras para crianças. Aliás, nunca entendi muito o motivo das principais cantigas de ninar brasileiras sempre terem como propósito amedrontar os pequenos (“boi, boi, boi, boi da cara preta, pega esse menino que tem medo de careta”; “nana, neném, que a cuca vai pegar, papai foi pra roça, mamãe foi passear”; etc.). 

Mas, enfim, foram com essas cantigas que, provavelmente, todos nós aprendemos a dormir com medo de monstros e da solidão. 

Talvez haja um lado educativo nisso tudo: um amigo uma vez me disse que o grande papel dessas músicas assustadoras era mesmo ensinar as crianças que não havia alternativa na vida senão “corajosamente fechar os olhos” e enfrentar os medos. Segundo ele, ouvir os próprios pais cantarem que monstros estavam por vir, sendo depois abandonados sozinhos nas sua camas por toda a escuridão da noite, forjaria uma espécie de coragem fundamental para que as crianças aprendessem a enfrentar o mundo no futuro. 

Em minha humilde opinião, discordo: há de haver alguma maneira menos sádica de se ensinar coragem. 

Tenho uma teoria quanto a isso – uma teoria que comprovo apenas com a minha própria experiência empírica como pai: racionalizar o mundo é mais saudável do que incentivar o terror. Em outras palavras: é melhor educar do que aterrorizar. 

Explico-me: 

Quando se canta para uma criança que ela estará só e que um monstro a pegará em instantes se ela não se comportar de uma determinada maneira, busca-se – claro – administrá-la pelo medo irracional. Não se está ensinando valores essenciais e nem estratégias subliminares de autodefesa: está se ensinando apenas que a melhor maneira de sobreviver ao dia é submetendo-se ao medo e rezando para que o sol chegue antes dos monstros. Está se ensinando impotência.  

Não seria mais fácil contar as histórias do mundo para ela? Algo que tome carona em medos reais que ela estiver sentindo naquela faixa etária e que explique, de alguma maneira lúdica, que eles não tem razão real de ser? Algo que a acalme e que a force raciocinar sobre seus medos, elocubrando mecanismos de autoconvencimento de que eles realmente não existem? 

Crianças, principalmente as mais novas, são como esponjas: elas tendem a sugar todo átomo de ensinamento que se lance em suas direções. 

Se se semear medo como estratégia de “silenciamento”, certamente a criança entenderá que o mundo é mesmo um lugar aterrorizante e que o melhor que ela tem a fazer se quiser sobreviver é ficar escondida no seu canto sem ser percebida. Isso é coragem? Não me parece. 

Se se semear racionalidade, por outro lado, seu pequeno cérebro começará toda uma sequência de sinapses que terão como resultado não temer, mas entender o mundo. Bem melhor, não?

E qual a melhor maneira de semear racionalidade? Fazendo o óbvio: mantendo aceso o hábito de contar histórias para crianças. Não há ferramenta melhor para entrar nas “exóticas” mentes infantis para construir pontes entre o que elas são e no que elas poderão se transformar.