Entre cucas e bois da cara preta: o estranho hábito de educar a partir do medo

Nunca fui muito fã de contar histórias assustadoras para crianças. Aliás, nunca entendi muito o motivo das principais cantigas de ninar brasileiras sempre terem como propósito amedrontar os pequenos (“boi, boi, boi, boi da cara preta, pega esse menino que tem medo de careta”; “nana, neném, que a cuca vai pegar, papai foi pra roça, mamãe foi passear”; etc.). 

Mas, enfim, foram com essas cantigas que, provavelmente, todos nós aprendemos a dormir com medo de monstros e da solidão. 

Talvez haja um lado educativo nisso tudo: um amigo uma vez me disse que o grande papel dessas músicas assustadoras era mesmo ensinar as crianças que não havia alternativa na vida senão “corajosamente fechar os olhos” e enfrentar os medos. Segundo ele, ouvir os próprios pais cantarem que monstros estavam por vir, sendo depois abandonados sozinhos nas sua camas por toda a escuridão da noite, forjaria uma espécie de coragem fundamental para que as crianças aprendessem a enfrentar o mundo no futuro. 

Em minha humilde opinião, discordo: há de haver alguma maneira menos sádica de se ensinar coragem. 

Tenho uma teoria quanto a isso – uma teoria que comprovo apenas com a minha própria experiência empírica como pai: racionalizar o mundo é mais saudável do que incentivar o terror. Em outras palavras: é melhor educar do que aterrorizar. 

Explico-me: 

Quando se canta para uma criança que ela estará só e que um monstro a pegará em instantes se ela não se comportar de uma determinada maneira, busca-se – claro – administrá-la pelo medo irracional. Não se está ensinando valores essenciais e nem estratégias subliminares de autodefesa: está se ensinando apenas que a melhor maneira de sobreviver ao dia é submetendo-se ao medo e rezando para que o sol chegue antes dos monstros. Está se ensinando impotência.  

Não seria mais fácil contar as histórias do mundo para ela? Algo que tome carona em medos reais que ela estiver sentindo naquela faixa etária e que explique, de alguma maneira lúdica, que eles não tem razão real de ser? Algo que a acalme e que a force raciocinar sobre seus medos, elocubrando mecanismos de autoconvencimento de que eles realmente não existem? 

Crianças, principalmente as mais novas, são como esponjas: elas tendem a sugar todo átomo de ensinamento que se lance em suas direções. 

Se se semear medo como estratégia de “silenciamento”, certamente a criança entenderá que o mundo é mesmo um lugar aterrorizante e que o melhor que ela tem a fazer se quiser sobreviver é ficar escondida no seu canto sem ser percebida. Isso é coragem? Não me parece. 

Se se semear racionalidade, por outro lado, seu pequeno cérebro começará toda uma sequência de sinapses que terão como resultado não temer, mas entender o mundo. Bem melhor, não?

E qual a melhor maneira de semear racionalidade? Fazendo o óbvio: mantendo aceso o hábito de contar histórias para crianças. Não há ferramenta melhor para entrar nas “exóticas” mentes infantis para construir pontes entre o que elas são e no que elas poderão se transformar. 

2 comentários sobre “Entre cucas e bois da cara preta: o estranho hábito de educar a partir do medo

  1. Martha Gomes Brandão

    Concordo plenamente e, como contadora de histórias, busco tornar a ralidae, entremeada de imaginação, interagindo com as crianças.Uma das coisas que me chamam a atenção, é o fato de elas, construirem a sua própria história, de acordo com sua próprias experiências e desejos, em sua realidade.

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