Fantasias inventando histórias

Primeiro, foi da Frozen. Depois, da Ariel.

Em seguida, as princesas (finalmente!) cansaram e começamos a inventar piratas, fadas, macacos mágicos.

Depois ela se entregou ao calor: queria mesmo era ficar de biquini (mesmo que se dissesse, em alguns momentos, uma vampira).

Fosse como fosse, minha filha passou esses últimos dias brincando de ser personagens. E nós?

Nós ficamos no entorno, dando volume à imaginação com histórias que se encaixassem nas suas fantasias. Nos transformamos em livros sendo escritos em tempo real, meio que por acidente, de maneira totalmente colaborativa. Criamos ondas de sorvete, céus com tempestades tumultuando os vôos das fadas e unicórnios, selvas brilhantes, oceanos de Nutella, torres mágicas, sofás voadores.

E quer saber? Foram histórias sensacionais essas – todas absolutamente diferentes das que costumamos comprar em livrarias. Todas, inclusive, bem mais empolgantes.

A descoberta do Carnaval, ao menos para mim, não poderia ter sido outra: deveríamos deixar as próprias crianças escreverem as histórias. Poucos adultos, afinal, conseguem chegar a um pico imaginativo como o delas!

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(Agora, se me dão licença, está na hora de experimentar alguma fantasia nova – o Carnaval só termina amanhã!!!)

Comprei um atlas

Não foi exatamente um atlas – não achei, pelo menos nas livrarias que visitei, nenhum atlas realmente interessante para crianças.

Na verdade, comprei um livro de fotos de viagens incríveis com mapas claros dos locais onde elas foram tiradas. Serviu ao propósito.

O atlas não é para mim: hoje, o Google e a Wikipedia acabam substituindo qualquer título do gênero feito para adultos. Ele é para a minha pequena filha.

Na medida em que eu vou lendo histórias para ela, mais e mais perguntas sobre as localidades em que elas ocorreram vão povoando a noite.

Em alguns casos, claro, os cenários são mundos mágicos e inexistentes… mas há outros bem reais.

Há o Nilo e as Pirâmides, há Roma Antiga, há o Olimpo com seus deuses, há os mares da Bahia.

Mesmo no caso das histórias que se passam em outras dimensões, como o País das Maravilhas de Alice, há o local e o tempo em que Lewis Carroll viveu e o que o inspirou.

Deixei o livro com ela e, sempre que surge alguma pergunta, me socorro dele para mostrar dunas, montanhas ou rios onde enredos se desenrolaram. Funcionou bem.

Continua funcionando.

Dia desses cheguei em casa do trabalho em silêncio e ela estava sozinha no seu quarto. Quando olhei, lá estava ela mergulhada nas fotos incríveis da Índia, provavelmente imaginando onde seria aquele lugar tão colorido e cheio de pessoas e animais exóticos.

Dá para perceber que essa nova curiosidade instalada tem ficado cada vez mais frequente pelos papos cotidianos e, claro, pela “aparição” do “atlas acidental” em todos os cantos da casa como que denunciando seu pequeno rastro.

 

 

Minha esperança? Que isso faça crescer mais nela aquele bichinho chamado de curiosidade pelo mundo, que ela cresça com vontade de devorar cada país que nos cerca.

Daqui a uns 10 ou 12 anos eu passo por aqui para contar se funcionou.

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Como ensinar o certo e o errado em um mundo tão errado quanto o nosso?

Missão difícil essa à que me propus ao fazer a pergunta título deste post. Tão difícil que, confesso, nem tentarei criar uma resposta definitiva.

NEsse sentido, tenho mais interrogações do que exclamações. Afinal, há moradores de rua ensinando o que é miséria pelas ruas da cidade, há pregações xenófobas na TV, há adultos destilando preconceitos que deveriam ser inconcebíveis, há cenas de guerra povoando a Internet, há muito, mas muito mais lágrimas do que sorrisos.

Não que eu ache que o mundo esteja cada vez pior: basta um mínimo de senso histórico para comparar os nossos tempos com os que queimavam infiéis em fogueiras públicas ou os que celebravam em praças as cabeças rolando em guilhotinas. Em verdade, acho que o mundo nunca esteve tão melhor e tão pacífico quanto em nossos dias… mas o “problema” é que as comunicações em si são tão abundantes e anárquicas que temos a sensação de estar vivendo no verdadeiro inferno.

E, se é justamente a comunicação que molda os nossos olhos e ouvidos, como ensinar aos nossos filhos que aquele vilão que está na posição de herói, guiando uma nação com a força do preconceito, está tão errado quanto coberto de apoios e aplausos?

Difícil isolar a educação que queremos dar a crianças que vivem tão inundadas de exemplos opostos aos valores que queremos que elas tenham.

A solução, como disse, não tenho. Acho que ninguém tem.

Mas talvez ela passe pela oportunidade única de se ler um livro para uma criança na hora de dormir. Por que? Porque esse é um dos únicos (senão “o” único) momento em que a sua atenção estará 100% voltada para a narrativa que estiver contando para ela. Sem TV. Sem brinquedos. Sem outros amigos bagunçando junto. Sem outros adultos tumultuando o áudio.

Apenas você e seu filho e uma história agindo como ponte para a sua formação ideal.

Funciona?

Espero que sim. Lá em casa, pelo menos, tudo indica que está funcionando 🙂

Germany, Berlin, Father reading book while son sleeping
Germany, Berlin, Father reading book while son sleeping

O fim das férias e o começo (de verdade) de 2017

Quando evocamos a lembrança das férias, costumamos nos lembrar daquela maravilha que era ficar livre da rotina e poder dedicar todo o tempo a brincar. 

É provável que essa seja a mesma percepção que se consolide nas mentes de todas as crianças – mas apenas depois de uma certa idade. 

Aproveitar férias, afinal, tem uma relação direta com a liberdade individual. Quando a própria criança pode descer para a rua do prédio e brincar com os amigos para os quais ela mesmo ligou, poucos são os empecilhos para a diversão. Mas e no caso de crianças menores, com seus 4, 5 ou 6 anos, principalmente as que vivem em grandes centros urbanos famosos pela justificada neurose em torno da questão da segurança? 

Pode-se pensar e criar mil maneiras das crianças pequenas se divertirem e passarem o tempo – mas, no final das contas, elas estarão ainda dependentes das rotinas dos adultos. Descer para brincar? Só se houver alguém mais com elas. Ir a um parque? Idem. Brincar com os amigos? Só se os pais destes também estiverem com condições de combinar esses pequenos programas. 

O resultado disso: para crianças pequenas, principalmente na fase pre-alfabetização, o trecho final das férias é quase um suplício. Saudades dos amigos, tédio e energia acumulada acabam fazendo-as rezar pela volta da rotina escolar. 

Férias, para essas crianças pequenas, são simplesmente longas demais! 

Pois bem: a rotina escolar já começa a voltar a partir da semana que vem na maior parte do país. Com ela, voltam também os horários para dormir, as atividades extra-classe, as rotinas que darão mais sentido às historinhas de dormir. 

Com ela, a página do ano passado finalmente será virada – inclusive pela passagem para uma nova série. 

Com ela, e só com ela, começa realmente o ano de 2017 para os núcleos familiares. 

Assim, nosso desejo para todos não poderia ser diferente: um feliz 2017!!!

O terceiro olho

Estava atravessando a sala para pegar um copo de água na cozinha quando me deparei com minha filha de 5 anos correndo para cima e para baixo com um adesivo de brilhante colado à testa.

Chamei ela em um canto:

– Você sabia que tem um povo, lá do outro lado do mundo, que acredita que nós temos um terceiro olho exatamente onde você colocou esse brilho?, perguntei.

– Não… mas eu não tenho outro olho aqui, não é, papai? É só um adesivo!

– Depende. Dizem que é um olho invisível a partir de onde se percebe as coisas, se imagina as coisas que a gente não vê de verdade. Eu, pessoalmente, acho que é o olho da nossa imaginação. Quando você vê duas bonecas e inventa uma brincadeira, você está dando vida a coisas que não existiam até então. Você está enxergando com sua imaginação o que ninguém mais vê. E não é para isso que serve um olho? Para enxergar?

Ela parou, pensativa. Olhou ao redor.

– Então ali tem um castelo!, concluiu, apontando para o aparador. E no meu quarto tem três casas com amigas brincando!

Uma sucessão de lugares mágicos se abriu imediatamente, todos sempre repletos de detalhes e descobertas impressionantemente nítidas.

Depois de um tempo ela parou, novamente, me olhou fixamente nos olhos e disse, com uma expressão que só adultos costumam carregar:

-Você é um bom pai.

E saiu correndo para o quarto para brincar no seu mundo.

Isso foi na segunda passada.

Pelos próximos dias ela colou o adesivo na testa e não parou de inventar novas brincadeiras com seu “terceiro olho”. Com o tempo, claro, o adesivo acabou desaparecendo embaixo de algum sofá e ela não se lembrou mais dele. Mas uma coisa acabou ficando muito clara: ali, naquela historinha de segundos que contei para a minha filha no meio da sala na noite de uma segunda-feira qualquer, algumas sinapses novas foram geradas e a sua imaginação foi exercitada como tem que ser.

Ali também acabei concluindo que, aos olhos de uma criança, ser um bom pai ou uma boa mãe é algo intimamente ligado a saber exercitar a ilimitada imaginação infantil, é saber dotá-la de insumos, de ferramentas, para que ela mesma possa viajar mais livremente pela sua própria realidade individual. Em outras palavras: é saber guiá-la com as histórias certas nos momentos certos.

É provável que a história do terceiro olho e todo o episódio acabe caindo no esquecimento. É provável até que já tenha caído, aliás. Mas as sinapses, os exercícios mentais, ficaram – e não é isso, afinal, que realmente importa quando se tem 5 anos de idade?

(Fora isso, confesso em um tom mais egoísta, fez um bem tremendo ao ego ouvir um elogio gratuito desse de uma filha na difícil (e sempre recheada de falhas) tarefa de ser pai!)

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PS: Sim, eu sei que há muito mais sobre o terceiro olho do que eu contei. Mas convenhamos: estamos falando de uma criança de 5 anos, né?

Eu e as férias da escola

Já faz tempo que eu desenvolvi o hábito de ler historinhas para a minha filha toda noite, antes dela dormir. É um dos momentos que mais gosto do dia, aliás, por poder testemunhar de maneira impressionantemente nítida o seu crescimento intelectual e o seu entusiasmado encantamento com cada pedacinho de enredo.

Até aí, tudo bem.

Aí vieram as férias, claro, para quebrar a rotina da minha filha. As mesmas férias trouxeram os avós dela para casa, pintaram tudo de família e, como não poderia ser diferente, encheram o ar de alegria. Convenhamos: depois desse 2016, um pouco de mudança de ares é mais que bem vindo, certo?

Indiscutível.

Só que meu posto de contador de histórias foi temporariamente suspenso: para matar as saudades da avó que mora longe, minha filha tem dormido no mesmo quarto que ela e pedido a ela para ser a “leitora oficial”.

Sei, sei… o importante é que o fluxo de literatura ouvido adentro continue a todo vapor. OK. Não discuto isso.

Mas sabem o que descobri? Que ler para nossos filhos é algo que fazemos tanto por eles quanto por nós mesmos.

Nesse mundo tão atribulado que vivemos, passear pela fantasia infantil diariamente é uma bênção inegável para qualquer adulto!

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Lidando com a falta de faltas no universo infantil atual

A vida é inegavelmente mais completa para uma criança hoje do que para uma criança da década de 80.

Não que sejamos todos milionários ou que vivamos com o PIB per Capita da Suécia, claro – mas o mundo ficou inegavelmente mais acessível. Pense na quantidade de vezes que você ouviu a palavra “não tem”quando era criança e na quantidade de vezes que profere isso para seus filhos.

Vá nos detalhes.

Lá atrás, se quiséssemos assistir a desenhos animados, tínhamos que acordar cedo e confiar no gosto do editor do Xou da Xuxa. Hoje, basta ligar o Netflix ou o Youtube e toda a infinidade de conhecimento produzido pela humanidade se materializa em um clique.

Não me levem a mal: não sou nem um pouco saudosista e nem penso que o mundo era melhor quando a vida era mais escassa. Ao contrário: acredito piamente que as oportunidades abertas para a humanidade como um todo pela nossa Era da Informação são maiores e mais brilhantes do que jamais este nosso planeta testemunhou.

Mas isso não significa que tudo seja perfeito.

Se tem uma coisa que aprendemos na nossa infância de escassez é a entender a falta. Entender que nem tudo estava permanentemente ao nosso dispor nos ensinava também a lidar com frustrações, a comemorar melhor as conquistas, a lutar mais pelas pequenas vitórias cotidianas.

Mas em um mundo em que tudo é possível e fácil, qual o propósito de se batalhar por qualquer coisa?

O perigo disso? Nossos filhos eventualmente crescerão e entrarão em um mercado de trabalho que tende a ser cada vez mais competitivo e árido – e não há como lidar bem com a competitividade se não se aprendeu desde cedo que frustrações e vitórias precisam ser enfrentados com um tipo de maturidade que só o tempo ensina.

Bom… e daí? Por que estou escrevendo sobre isso aqui no blog da Fábrica? Porque, se não dá para mudar o mundo ou enclausurar uma criança no século XIX, dá pelo menos para trabalhar a sua maturação com livros.

Livros, afinal, são retratos de tempos passados, de tempos que continham batalhas e que eram povoados por protagonistas e antagonistas. São realidades paralelas que crianças conseguem entender, digerir e usar, claro, para seu próprio benefício.

Se, por um lado, é difícil mudar o mundo em que vivemos hoje para inserir um pouco mais de “menos” na realidade, por outro é bem mais fácil usar as sempre bem vindas historinhas infantis para preparar as nossas crianças para um mundo muito mais severo do que o que eles esperam encontrar.

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As histórias como pontes entre os mundos dos pais e dos filhos

Talvez a coisa mais fantástica desse período de alfabetização de crianças seja o mar de descobertas que se abre para elas. 

No cotidiano da minha filha, para usar um exemplo doméstico, ela está lidando com a sensação de crescimento fortalecida depois que o primeiro dentinho ficou mole, a noção de compartilhamento com a notícia da chegada de uma irmã mais nova, as competições por espaço e autoafirmação de personalidade perante as amigas e os tantos emaranhados de realidade e fantasia que começam a explodir na mente como uma espécie de bomba atômica de interrogações e exclamações. Tudo é surpreendentemente novo.

Claro: crescer é uma tarefa que nunca tem fim e a cada dia nós mesmos, do alto da nossa idade, nos deparamos com surpresas (boas e ruins) que transformam a vida em pura aventura. Mas nós, adultos, temos uma estrutura que, embora nem sempre bem resolvida, certamente é mais “bem definida”. Já sabemos separar jôio de trigo, já encaramos as maldades do mundo como fatos da vida (e não como magias de bruxos malignos) e já entendemos que as soluções para nossos problemas precisam ser construídas por nós mesmos. De certa forma, já entendemos a solidão. 

Crianças, não. Ao contrário: elas precisam de guias para ensiná-las que, ao menos até que o mundo das bruxas e fadas fique para trás e que os tantos medos abstratos virem passado, haverá alguém presente para apontar algum tipo de caminho. O papel de um pai ou de uma mãe pode até ser simplificado aqui: somos provedores de segurança. 

Segurança física, obviamente, protegendo os filhos dos males reais que o mundo cisma em ter, mas também segurança emocional. Nesse sentido, nosso papel passar por saber calcular os passos que devemos dar juntos e os que precisamos incentivá-los a seguir por conta própria; os medos que devemos confortar com abraços e os que devemos repelir; as fantasias que devemos incentivar e as que devemos, ainda que aos poucos, dizer que não passam de imaginação. 

A questão é que não se trata apenas de falar, por mais jeito que se tenha, com os filhos. O importante é se conectar, é falar na língua deles – a mesma que mescla fantasias com realidades em fórmulas tão indivíduais que o mero entendimento acaba ficando difícil. Mas, se podemos considerar que há dois mundos distintos entre adultos e crianças, também podemos considerar que há uma porta que os conecta: histórias. 

Humanos não são diferentes de animais porque sabem fazer contas ou jogar xadrez: somos diferentes porque sabemos consolidar todas as nossas abstrações emocionais em metáforas espremidas em histórias. E isso, acrescento, fazemos desde a mais tenra idade. 

Isso também significa que, do alto do século XXI, temos um vasto cardápio para escolher. Há histórias sobre virtualmente tudo, servindo de guias para que pais e filhos se descubram nessa jornada conjunto rumo ao crescimento. E como elas ajudam? Entregando as mensagens reais que carregam dentro de fantasias que encantam os pequenos. 

Histórias são o idioma das crianças. 

Quer ajudar a sua a caminhar e a desvendar essa selva que é a vida real? Leia para ela.