Reacostumando-se à rotina

Sei que a volta às aulas varia de estado para estado ou mesmo de escola para escola.

No caso da minha filha, elas recomeçaram na quarta-feira da semana passada.

Sim: como muitas crianças de 5 anos, ela estava em um estado de ansiedade incrível para rever as amigas e retomar a rotina.

Mas, sim, a readaptação ao horário tem sido tensa. Nada mais de dormir depois das 10 ou mesmo 11 e nada mais de acordar depois das 10. Depois das 10? Para não perder a van escolar, o horário de despertar agora é às 6:20, quando o dia ainda carrega alguns tons da noite neste final de verão.

Se isso por si só não bastasse, ainda há toda a carga de atividades extra como natação e ballet para somar mais cansaço a esses nossos tão amados pequenos seres humanos. O resultado tende a ser óbvio: pedaços de exaustão exibidos como pequenas malcriações e “ranzinzisses”.

O que fazer? Bom… continuar remando o barco com as constantes e cotidianas correções de rota.

O que é educar, afinal, senão corrigir rotas a cada segundo?

Tanto falamos de contar histórias para crianças aqui que, às vezes, acabamos nos esquecendo de que as nossas vidas, de pais, são uma história à parte.

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Como ensinar o certo e o errado em um mundo tão errado quanto o nosso?

Missão difícil essa à que me propus ao fazer a pergunta título deste post. Tão difícil que, confesso, nem tentarei criar uma resposta definitiva.

NEsse sentido, tenho mais interrogações do que exclamações. Afinal, há moradores de rua ensinando o que é miséria pelas ruas da cidade, há pregações xenófobas na TV, há adultos destilando preconceitos que deveriam ser inconcebíveis, há cenas de guerra povoando a Internet, há muito, mas muito mais lágrimas do que sorrisos.

Não que eu ache que o mundo esteja cada vez pior: basta um mínimo de senso histórico para comparar os nossos tempos com os que queimavam infiéis em fogueiras públicas ou os que celebravam em praças as cabeças rolando em guilhotinas. Em verdade, acho que o mundo nunca esteve tão melhor e tão pacífico quanto em nossos dias… mas o “problema” é que as comunicações em si são tão abundantes e anárquicas que temos a sensação de estar vivendo no verdadeiro inferno.

E, se é justamente a comunicação que molda os nossos olhos e ouvidos, como ensinar aos nossos filhos que aquele vilão que está na posição de herói, guiando uma nação com a força do preconceito, está tão errado quanto coberto de apoios e aplausos?

Difícil isolar a educação que queremos dar a crianças que vivem tão inundadas de exemplos opostos aos valores que queremos que elas tenham.

A solução, como disse, não tenho. Acho que ninguém tem.

Mas talvez ela passe pela oportunidade única de se ler um livro para uma criança na hora de dormir. Por que? Porque esse é um dos únicos (senão “o” único) momento em que a sua atenção estará 100% voltada para a narrativa que estiver contando para ela. Sem TV. Sem brinquedos. Sem outros amigos bagunçando junto. Sem outros adultos tumultuando o áudio.

Apenas você e seu filho e uma história agindo como ponte para a sua formação ideal.

Funciona?

Espero que sim. Lá em casa, pelo menos, tudo indica que está funcionando 🙂

Germany, Berlin, Father reading book while son sleeping
Germany, Berlin, Father reading book while son sleeping

A importância de se permitir que crianças criem enquanto lêem

O título pode parecer óbvio mas, às vezes, acabamos nos esquecendo disso quando lidamos com nossos filhos. 

Quando ensinamos alguma coisa mais objetiva, temos a expectativa de que eles absorvam esse conhecimento de maneira quase inquestionável. 

Quando apontamos algum perigo, partimos do princípio de que eles o encarará com o pavor gélido dos velhos.

Quando mostramos alguma conduta, esperamos que ela seja desempenhada praticamente sem questionamentos. 

Quando lemos uma história, queremos crer que ela será ouvida em um silêncio tumular. 

Erro básico esse de achar que crianças são adultos. Não são.

Adultos, afinal, tem essa indiscutível capacidade de aprender calados, de ligar a intropecção e cruzar experiências de vida sem balbuciar uma única sílaba. 

Crianças, por outro lado, não tem esse acervo de conhecimento já sedimentado em forma de experiências e vivências. Tudo o que lhes é “ensinado” precisa ser questionado, às vezes em alto e bom som, para ser devidamente entendido. Diria mais: aprender, para crianças pequenas, é uma constante dialética hegeliana ao som de heavy metal. 

Crianças precisam criar estridentemente para projetar o que estão ouvindo e, por fim, entender, aprender. 

O que isso tem a ver com livros e histórias? A participação do adulto. 

Ou seja: se apenas abandonarmos as crianças com algum livro lúdico qualquer, daqueles que fazem figuras saltarem das páginas quando elas são viradas, ou com alguma app barulhenta no tablet, elas até podem se divertir – mas a capacidade de aprendizagem certamente será comprometida. 

Na fase pre-alfabetização, afinal, elas precisam do tom de voz de adultos lendo histórias; precisam das pausas dramáticas customizadas de acordo com as suas próprias características; precisam conseguir interromper com conjecturas, conclusões ou exclamações. Elas precisam interagir para conseguir construir sobre cada história e, por fim, aprender com ela.

Para crianças pequenas, aprender com histórias deve ser uma tarefa a dois, guiada por adultos até que estes se fizerem desnecessários no momento em que acervos próprios se consolidarem nas suas pequenas e impressionantes mentes. 

Não desperdicemos essa oportunidade: ler para crianças é muito mais essencial para o crescimento intelectual do que costumamos imaginar. 

Personalizando historinhas na vida real

As historinhas daqui da Fábrica acabaram me dando uma ideia que acabei colocando em prática recentemente: personalizar todas as histórias que conto para a minha filha, apimentando-as com nomes familiares a ela para cultivar mais a concentração.

Pus isso em prática na semana passada, durante uma historia sobre os Deuses Gregos. A história em si já era cativante o suficiente, verdade seja dita, até pelas interferências externas (como trovões ecoando no exato instante em que eu falava da ira de Zeus).

Mas a sua curiosidade assumiu proporções muito maiores quando disse que Afrodite era tão vaidosa quanto ela mesma, que Atena era tão sábia quanto a avó, que foi Eros quem flechou o coração do seu amigo Otto e que todos moravam em uma montanha que ficava na Grécia, bem depois de Portugal (país familiar para ela por ser onde moram os avós maternos).

Claro: é sempre necessário ter o cuidado de não destruir mitos ou histórias – não se pode desensinar uma criança, naturalmente. Mas posso afirmar que essa personalização, essa contextualização do novo no meio do familiar, funciona maravilhas para captar a concentração de uma criança.

Era óbvio, afinal: se funciona com os livros da Fábrica de Historinhas, por que não haveria de funcionar em todas as outras histórias?

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Você já levou o seu filho a uma biblioteca?

Antigamente, bibliotecas eram lugares em que todos poderiam fazer empréstimos de livros (em muitos casos com cópias únicas) e devolvê-los depois de lidos. 

A própria evolução tecnológica impôs uma mudança dramática no cenário: livros são fáceis de se encontrar (seja em forma física ou digital) e bibliotecas já deixaram, há muito, de ser as guardiãs dos exemplares únicos de grandes histórias. Mas isso significa que elas não tem mais motivo de ser? 

De forma alguma. Bibliotecas, hoje, continuam sendo o que sempre foram: templos de disseminação da literatura. O estilo da “pregação”, por assim dizer, é que mudou. Em outras palavras: talvez não faça mais tanto sentido ir a uma biblioteca para tomar um livro emprestado como se fazia na década de 80. Mas faz, sim, muito sentido ir a uma biblioteca para mergulhar no universo da literatura com a mesma intensidade com a qual se vai, por exemplo, a um cinema ou a um museu. 

Quer exemplos práticos – principalmente focado nas crianças? 

A Biblioteca Infantil Multilíngue Belas Artes, na capital paulista, tem um espaço inteiro dedicado a crianças com o objetivo de estimular a leitura como brincadeira.

A Biblioteca Infantil Aglaé Fontes de Alencar, em Aracaju, tem uma sala específica para oficinas e leitura coletiva de histórias.

A Biblioteca Lucília Minssen, em Porto Alegre, tem uma programação mensal rica com oficinas de leitura e apresentações teatrais. 

Em outras palavras: se, antigamente, bibliotecas eram lugares onde as pessoas escolhiam as histórias para levar para casa, hoje elas são ambientes onde as histórias são consumidas e trabalhadas diretamente. 

Hoje, as bibliotecas se transformaram em museus de histórias vivas. Quer coisa mais perfeita para incentivar o hábito de leitura em crianças? 

Aceite, então, uma dica: procure uma biblioteca em sua cidade, atente-se à programação e aproveite as férias para garantir uma visita com os seus pequenos! 

(Uma dica extra: este post aqui lista uma série de opções extremamente interessantes por todo o Brasil.)

O desencontro de energias do começo do ano

Para muitos pais, esse período entre meados de janeiro e o começo de fevereiro é uma sucessão de interrogações. Exceto pelos afortunados que tiraram férias no verão, nós, os demais, estamos já desde a segunda de volta à suada labuta!

Nossos filhos, no entanto, ainda estão nadando no delicioso ócio das férias. O resultado? Um óbvio “desencontro de energias”. Para os pequenos, afinal, ainda é hora de acordar tarde, passar as primeiras horas do dia vegetando pela casa e, depois, tentar descobrir o que fazer com tanta energia acumulada. E o que fazer??

Para quem mora nas cidades costeiras, praia. Para quem mora em grandes cidades, parques ou museus. Para quem mora em pequenas cidades, ruas ou praças. Mas seja para onde for, há ainda a questão fundamental: com QUEM, já que estamos presos aos nossos ecritórios e já que pequenos de 3 a 7 anos não podem sair por conta própria perambulando pela cidade? Avós? Tios? Babás? Todos, em algum tipo de fórmula de revezamento que garanta que o tédio, filho do ócio, não apareça justamente no começo da noite, quando chegamos do trabalho já levemente assustados com o que vamos encontrar? 

Ah, as férias escolares… 

Mas olhe por outro lado: é também nesse momento que a educação mais fica nas mãos dos nossos núcleos familiares, incluindo toda a parentada e amigos, tanto nossos quanto dos nossos filhos. É nesses dias que as crianças mais aprendem a conviver com o próprio ócio, a inventar maneiras mais inusitadas de se divertir, a escrever, ainda que com as mentes, as suas próprias histórias e enredos vividos pelos bonecos e bonecas que lotam os seus quartos. 

Sim, eu sei: isso não alivia em nada a tarefa de enfrentar as férias escolares que ainda durarão mais um mês. Assim, na falta de algum conselho melhor (e se alguém o tiver, por favor o diga logo), deixo aqui, neste primeiro post do ano, um desejo para todos pais e mães envoltos no mesmo tipo de dilema de começo de ano que eu: que todos consigamos nos virar bem e que muitas histórias incríveis sejam escritas nesse verão! 

Feliz 2017!!!

Monteiro Lobato e a antecipação da inteligência infantil

Aprendi a ler com Monteiro Lobato. 

Não falo aqui do “aprender a ler” literal, da alfabetização, claro. Falo do pegar um livro nas mãos e devorá-lo história a história, descobrindo a curiosidade dos próximos capítulos e as descobertas novas de cada parágrafo. Me lembro bem do livro – tão bem que consegui achar sua capa no Google, embora digitalmente esfarrapada e comida pelas traças que não perdoam nem mesmo no universo digital: 


Esse livro “funcionou” para mim. Me peguei pensando no motivo dia desses, quando me deparei com uma nova edição na prateleira de uma livraria aqui em São Paulo. Bom… motivos não faltaram. 

Havia os personagens do Sítio do Pica-Pau Amarelo para dar aquele ar infantil; havia histórias que evocam uma curiosidade natural (como a descoberta do fogo, a invenção do avião, o Big Bang); havia uma cadência, um ritmo de narrativa daqueles que empolgam; havia uma extensão perfeita já que nenhuma era longa demais ou curta demais. Havia, enfim, Monteiro Lobato em seu melhor. 

Bom… minha filha de 5 anos não está exatamente alfabetizada, claro. Mas comprei o livro e decidi testá-lo com ela. Resultado? 

Do Big Bang aos romanos, ela amou cada palavra. Foi descobrindo que histórias não precisamos ser lidas de capa a capa na mesma hora, foi deduzindo o mundo à sua volta, foi ficando mais curiosa com tudo na medida em que saciava cada curiosidade. Verdade seja dita, os únicos trechos que ela não curtia mesmo eram os que tinham Dona Benta dialogando com Pedrinho e Narizinho, justamente o que havia sido criado para dar um toque mais infantil a acontecimentos tão… terrenos. 

Claro: houve momentos em que eu acabei usando uma espécie de “tecla SAP” e outros que eu criei um pouco de romance que sabia que cairiam bem, mas, em essência, esse livro foi uma espécie de terremoto intelectual na pequena mente de uma menina de 5 anos. 

A conclusão que acabei chegando? Por algum motivo qualquer, possivelmente pelo enormidade de estímulos de informação que recebem minuto a minuto, crianças hoje parecem muito mais inteligentes que as de ontem. Conclusão óbvia, aliás: basta ver como os nossos pequenos lidam com eletroeletrônicos e questionam realidades que, em nossos tempos, sequer imaginávamos relevantes.

Eu iria ainda além: a capacidade do cérebro de digerir conhecimento inverteu decisivamente a própria cronologia natural, antecipando-se à alfabetização. Crianças de hoje, em outras palavras, não precisam saber ler para querer “ler” uma história qualquer.

Nosso papel como pais? Substituir, ainda que temporariamente, a alfabetização, sendo a ponte entre as histórias que enchem os livros e a curiosidade do mundo que parece coçar a pele de cada filho. 

Dá até uma esperança maior no futuro da humanidade 🙂 

Primeiras repercussões da Fábrica

Todo começo é sempre recheado de expectativas – e isso vale tanto para uma criança abrindo seus olhos pela primeira vez quanto, claro, para novas empresas.

Não seria diferente conosco, aqui na Fábrica. Foram meses de trabalho, de negociações e de empenho em cada mínimo detalhe – das embalagens à escolha da gramatura ideal de papel, das histórias ao site. E, finalmente, a Fábrica entrou no ar.

Já temos nossos primeiros assinantes, já enviamos os nossos primeiros livros e, agora, começamos a colher alguns feedbacks da comunidade – incluindo algumas redes 100% focadas em temas relacionados a maternidade e paternidade. O resultado?

Orgulho puro.

Principalmente pelo resultado ter batido com o que mais desejávamos, como podem ver pelas imagens abaixo.

Para a Lis que já decorou a história da Estrelinha Ana Luz, para o Dani que pirou ao enxergar a si mesmo e aos seus amigos como Piratas da Praia e para todas as outras crianças, estejam certos que ainda há muito, muito por vir!

Se tem uma coisa que não tem parado, afinal, é a nossa fábrica 🙂

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Lidando com a dificuldade do universo infantil

Nós, adultos, temos a mania de olhar para crianças com alguma inveja sobre a facilidade da vida delas. O raciocínio é sempre o mesmo: crianças só precisam pensar em brincar, crianças não precisam ralar 10 horas por dia em frente a um computador, crianças não tem que pensar em sustentar a família etc.

Sim, é verdade: preocupações de adultos cabem mesmo a adultos. Mas não devemos menosprezar as delas.

Crianças, principalmente as mais novinhas, ainda não sabem diferenciar fantasia de realidade com a brutalidade de um adulto.

Para elas, bruxas, monstros e fadas existem da mesma forma que carros e prédios.

Para elas, uma história bem contada tem o mesmo peso de uma prova ocular qualquer.

Para elas, o que se escuta vale tanto quanto o que se enxerga.

Quer comparar preocupações? Pense você mesmo: o que seria mais preocupante? Entrar no cheque especial ao final do mês ou lidar com um dragão enfurecido escondido embaixo de sua cama?

O universo infantil não é desprovido de preocupações: ele é muito, mas muito mais recheado delas do que o nosso. E a maior dificuldade é que, quando elas compartilham alguns dos tantos medos com os adultos, eles acabam ignorando-os com a solenidade de uma parede.

O remédio para isso? Não há outro senão o próprio tempo e a maturidade que, aos poucos, vai eliminando a sensação de realidade da fantasia. Mas há, claro, como cuidar melhor dessa fase sempre tão complicada: com boas histórias.

E quando digo ‘boas histórias’, aqui, refiro-me a todo um conjunto que inclui livros com enredos bem escritos, fechados, que passem algum tipo de mensagem clara e que sejam contados com a devida empolgação pelo adulto-narrador.

Refiro-me a livros e não a filmes ou desenhos: só livros permitem que as próprias crianças desenhem os personagens e as ações em suas mentes ao invés de ver o que os outros imaginaram para ela. Livros exercitam mais o cérebro do que os olhos.

E refiro-me, sobretudo, à atenção que se deve dar ao universo da criança. A parte mais difícil de se ler uma história na hora de dormir, afinal, é saber também ler e interpretar tudo o que se passa por trás dos olhares atentos do seu filho ou filha.

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Comemorando nossos primeiros assinantes :-)

A Fábrica de Historinhas foi lançada oficialmente na quinta passada, um dia depois do Dia das Crianças, quando fizemos a nossa primeira (e ainda super tímida) ação de divulgação.

No próprio dia 13 tivemos nosso primeiro assinante – e já começamos a comemorar como crianças no meio de um mar de brigadeiros 🙂

De lá para cá, não houve um só dia em que não somássemos mais membros à nossa fábrica – e estamos já produzindo os primeiros livros para envio.

Enfim, peço desculpas pelo tom meio egocêntrico desse post – estamos, afinal, celebrando a nós mesmos nesse comecinho de caminhada. Mas não há como ser diferente: todos aqui, tanto do time brasileiro quanto do português, nos esforçamos muito para criar algo que realmente acrescentasse valor ao universo de cada criança – e todos cremos entusiasmadamente que nada muda mais uma vida do que uma boa história.

Que venham, portanto, muito mais.

Vida longa à Fábrica!!!

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