Que tal inverter os papéis?

Crianças de praticamente todas as idades (principalmente a partir dos 3 anos) adoram desenhar. Quando ainda não sabem escrever, os desenhos são as suas formas de contar histórias – muitas das quais escondem personagens assustadores, sonhos fantásticos, visões estereotipadas das pessoas que fazem parte de suas vidas. 

Pois bem: e se invertermos os papéis uma noite e fazermos os nossos filhos nos contarem as histórias que criaram a partir das suas ilustrações? 

Os primeiros relatos – pelo menos de acordo com a experiência que tive em casa – serão os mais óbvios: casas são casas, borboletas são borboletas, nuvens são nuvens. Mas parte do nosso papel aqui inclui também ser uma espécie de narrador invisível, coadjuvante. Sim, há uma casa – mas o que se passa dentro dela? Sim, há uma nuvem – mas o que acontecerá quando ela decidir chover? E as boboletas voando? O que elas podem estar procurando pelos céus? 

A coisa mais incrível desse mundo de histórias é justamente esse infinito de possibilidades. 

Sensacional. 

Livros são muito, mas muito mais importantes que filmes ou desenhos

Desculpem se ofendi alguém com a afirmação no título do post: a ideia não é denegrir nenhuma forma de arte.

Mas repito-me: livros são muito, mas muito mais importantes que filmes ou desenhos.

Por que?

Porque livros são histórias que acontecem na mente dos leitores.

Quando uma criança assiste a um desenho, há todo um enredo devidamente traduzido em figuras, vozes e cenários já criados para ela. Já houve uma interpretação feita por um diretor, já há formas atribuídas para as suas fantasias, já há cores, densidades, importâncias pensadas por outros. A criança apenas as digere.

Não com livros.

Com livros, tudo o que pode haver é a voz de um pai ou mãe lendo para seu filho ou filha. Os cenários? Eles até podem ser ilustrados – mas a falta de movimentos os transporta diretamente para a imaginação de uma criança. Em um livro, é a mente da criança que constrói as ações, que completa os enredos, que determina os estilos de cada um dos personagens.

Filmes e desenhos são assistidos por crianças passivamente.

Livros são sempre co-escritos por elas em suas mentes.

A diferença é brutal – assim como os efeitos para o seu desenvolvimento.

Sobre livros e o ensinamento do Tempo

Para nós, adultos, o Tempo é relativamente simples de entender: temos o nosso passado, dosamos cada uma das decisões que tomamos no dia-a-dia, projetamos com base nelas o nosso futuro. Há, senão uma certeza de que tudo dará certo, pelo menos uma expectativa de previsibilidade. Poucas coisas são mais reconfortantes que isso.

Não para uma criança: para ela, o Tempo é uma caixa preta.

Ela tem, claro, o seu curto passado: tem os dias de ontem, tem as festas que participou, as broncas que tomou e que impregnaram em seu instinto a diferença entre certo e errado. Ela tem também o seu presente – mas a impulsividade com que costuma decidir e reagir, motivada pela pura falta de entendimento sobre consequências de longo prazo, faz com que cada minuto seguinte seja uma possível surpresa. E o futuro? Uma criança de 3, 4, 5, 6 anos tem algum tipo de projeção sobre a sua vida quando tiver 30 ou 40? Não. Ela tem as suas fantasias, o poder lúdico de imaginar o que poderá ser – bailarina, superherói, motorista de ônibus ou médico… mas a própria facilidade com que os sonhos mudam comprova o quão aberto é o futuro.

Isso não está errado – claro. A coisa mais difícil de se entender no mundo é justamente a noção de Tempo: o conhecimento do passado, os efeitos do presente, os impactos disso nas possibilidades do futuro.

Mas, ao mesmo tempo, é também o entendimento mais valioso que uma criança pode ter. Por que? Porque nossa vida é regrada, precisamente, pelo Tempo. Quanto mais cedo o entendermos, mais cedo começaremos a construir as nossas felicidades dosando impulsividade e previsibilidade, intempestividade e controle. Quanto mais cedo entendermos o Tempo, mais cedo conceberemos a fórmula perfeita para transformá-lo em felicidade de acordo com as nossas estruturas de vida.

E esse é, provavelmente, o maior dos benefícios de um livro. Livros, claro, são compostos de enredo – e enredos são pura cronologia. Enredos partem de um cenário inicial, desembocam nas decisões tomadas pelo protagonista, apresentam as consequências dessa decisão. Livros ensinam muito mais do que meia dúzia de lições de moral para crianças: livros ensinam o Tempo.

E ensinam utilizando a linguagem lúdica de uma criança, brincando com sua imaginação, atiçando suas noções de mundo e provocando deduções impossíveis de se ter em outros meios.

Livros são, possivelmente, a maior das invenções do homem para capturar para si a felicidade.

Utilizemo-nos com os nossos filhos.

Infinity time. Digital generated

Usando festas de aniversário para entender melhor as nossas crianças

E não são?

Esse fim de semana fomos a um aniversário de um amigo da minha filha. Havia o tradicional, o que todos nós, pais, já estamos habituados a ver: animadores, crianças correndo para cima e para baixo, novos laços sendo feitos, amizades ganhando ou perdendo corpo, bolos, brigadeiros, famílias.

Tudo normal, certo?

Certo – só que apenas para nós, adultos.

Para uma criança, festas assim são um desafio à parte, uma oportunidade perfeita de amadurecimento em que se deve lidar com ambientes naturalmente mais competitivos que o ambiente familiar natural. Em outras palavras: cada festa de aniversário é, por natureza, uma trama à parte que cada criança, aniversariante ou convidada, está escrevendo.

O que resta a nós, pais, fazermos? Ler essas tramas, essas histórias.

Nesses casos, nos resta dar espaço e deixar as crianças se desenvolverem nas suas próprias comunidades. E, claro, observar, da primeira fila, esse amadurecimento acontecer com os nossos pequenos: ver a maneira que eles resolvem conflitos, como se impõem ou se resignam, como se divertem, como agem em suas comunidades.

Isso nos permitirá uma espécie de “diagnóstico”: saberemos (ou pelo menos teremos uma ideia mais precisa sobre) quais os elementos que precisam ser mais trabalhados em nossos filhos. Timidez? Saber ganhar? Saber perder? Saber negociar?

A partir daí vem o óbvio: usar a nossa observação para guiar a nossa educação, (incluindo a escolha de livros infantis que melhor se encaixarem em cada situação).

Aniversários não são apenas comemorações, fins em si mesmas: são um ponto de partida perfeito para se realinhar a educação que nós mesmos estamos dando a nossos filhos.

 

 

Histórias e vocabulário

Logo que comecei a contar histórias para a minha filha, minha maior preocupação era que ela não se perdesse em vocábulos que ela desconhecia. Minha solução? Traduzi-losdiretamente do papel, trocando algumas palavras dos textos por outras que sabia que ela conhecia.

Até que me toquei do quanto essa ideia era péssima.

O raciocínio é simples, mas tão simples, que chega a ser constrangedor. Além dos enredos em si, um dos grandes papéis de histórias – infantis ou não – é ampliar o nosso vocabulário. Com um acervo maior de palavras aprendidas em contextos claros, podemos formular melhor os nossos próprios pensamentos e criar linhas de racionalização muito mais sofisticadas.

Por outro lado, se fugirmos das novas palavras unicamente por elas serem novas, ficaremos sempre presos ao desenvolvimento de pensamentos mais tacanhos, pouco evoluídos, simplórios.

Se isso serve para um adulto de 40 anos, por que não serviria para uma criança de 5 ou 6, justamente na fase perfeita para sugar conhecimento?

Mudei de estratégia, claro. Hoje, ao invés de traduzir palavras, substituindo o novo pelo conhecido, eu as mantenho e, sempre que percebo uma interrogação no olhar da minha filha, páro e as defino melhor.

Não quero exagerar na “corujisse”, mas o fato é que bastaram algumas semanas para que ela desse um salto de inteligência, formulando pensamentos tão sofisticados que até nós, pais, desenvolvemos um hábito de ficar chocados no cotidiano.

É impressionante o quanto nossos filhos nos ensinam quando tentamos ensiná-los.

A agonia de não entender uma gravidez

“Papai, não quero que meus filhos saiam da minha barriga”.

Minha filha disse isso há pouco mais de um mês, quando fomos ao hospital ver o meu sobrinho chegar ao mundo. Não havia me dado conta do quão disruptivo para uma criança deve ser essa imaginação do parto.

Há, afinal, uma criança que cresce (sabe-se lá exatamente como) dentro de uma barriga – e uma saída para o lado de fora que, a julgar pelas contrações e pela óbvia suposição de um corte, certamente traz dores alucinantes.

Sim, mais de 30 dias se passaram – mas em mais 30 dias, aproximadamente, sua irmãzinha também nascerá, repetindo essa imaginação aterrorizada do que é um parto em sua mente.

Como qualquer pai faria, tentei explicar da maneira mais inteligível possível como se dá esse processo todo e como, no final das contas, ele é sempre bom. Não senti muita confiança no seu olhar: sendo homem, o que poderia eu saber de uma gravidez?

Minha mulher também tentou e, apesar de ter mais sucesso que eu, não conseguiu tirar esse medo da sua pequena mente.

Preciso recorrer a livros infantis, a historinhas que elaborem isso melhor.

Difícil é achar algo nessa linha.

Little boy hugging his mother belly.
Little boy hugging his mother belly.

A geografia de uma criança

Às vezes, quando me pego contando alguma história para a minha filha de 5 anos, esqueço que alguns referenciais simplesmente não existem para ela.

Para uma criança, o mundo é feito de familiaridades temporária e geograficamente dispersas entre si, descoladas, desconectadas. É um mundo tão diferente que sequer nos damos conta do que estamos contando.

A África, por exemplo, é uma terra com savanas por onde passam leões caçando girafas – mas que também divide espaço com os mesmos prédios pichados e avenidas largas que ela está habituada a ver na São Paulo que vivemos.

Esses prédios são tão onipresentes quando o céu e o arco-íris, aliás.

A Austrália não é muito diferente da África – basta trocar leões e girafas por cangurus.

A Europa, por sua vez, é uma grande Suécia pontilhada de castelos encantados e banhada pelo delicioso clima do sul da Itália. Exceto por Portugal, claro, que na verdade se resume ao apartamento de seus avós.

Há ainda, em sua cabeça, outros mundos que não se encaixam exatamente em continentes: o Egito com suas pirâmides, a Grécia com seus Deuses, a Babilônia com suas torres. Todos eles existem, embora não se saiba ao certo onde ou habitado por quem.

Estados Unidos? Não é exatamente um lugar. Tem os vulcões do Havaí e os belos prédios brancos de Washington, além de um louco artificialmente bronzeado que volta e meia aparece na TV para tomar o tempo de seus desenhos.

São visões de partes, de pequenas histórias ainda sem muita noção de espaço e tempo que, um dia, se costurarão em sua cabeça.

Um dia.

Talvez o marco do fim da infância seja justamente o momento em que esses lugares incríveis se fecharem no mesmo mundo e se dispersarem por muitos tempos.

Um dia, antes que isso ocorra, vou pedir à minha filha que desenhe o mundo tal qual ela o enxerga.

Será a história de todas as histórias.

z_p14-your-world

Como lidar com as histórias de monstros que existem

Monstros… sempre eles. 

Pode-se fazer o que for: dizer que seres malignos alados de três olhos e dentes gigantescos não existem, provar que há apenas ar sob a cama, mostrar que o escuro é apenas o claro sem luz. Monstros, ainda assim, sempre persistirão na imaginação das crianças. 

E, até as gerações passadas, os monstros eram os mesmos: bruxas, cucas, dragões etc. 

Até que o “politicamente correto” decidiu iniciar uma cruzada contra todos, praticamente forçando as suas exclusões dos livros infantis. 

Mas isso apagou o medo? 

De forma alguma. Medos, afinal, são manifestações muito mais espirituais do que físicas: eles apenas assumem uma forma qualquer para que crianças possam enfrentá-los de frente. E sabe o que acontece quando essa “forma” é apagada, quando cucas somem e bruxas entram em extinção? 

A realidade empresta outras. 

Lá em casa, o novo monstro que deixa a minha filha com medo durante as noites é o mosquito da dengue. De tanto ouvir casos em casa e na escola, de tanto ver campanhas na TV, de tanto captar críticas ao clube em frente à nossa casa que insiste em deixar suas caixas d’água descobertas, ela concluiu que o pior monstro de todos é aquele minúsculo ser alado que, embora praticamente imperceptível, consegue aterrorizar o mundo inteiro. 

Como lidar com isso? 

Diferente da Cuca e das bruxas, o mosquisto existe. Diferente dos monstros de três olhos, é realmente às noites que seus zumzuns ao pé do ouvido os denunciam. Diferente dos monstros das histórias, nossa capacidade de defender os filhos é realmente limitada. 

Ainda estou enfrentando esse novo monstro lá em casa. Já inventei historinhas, já chamei atenção para o mosquiteiro sobre a sua cama, já acalmei os ânimos da minha pequena filha. 

Mas ele continua lá, com uma invisibilidade irritantemente presente, desafiando a tudo e a todos. 

Talvez novas histórias devessem ser escritas sobre esses novos monstros que assustam crianças, sobre monstros que realmente existem. 

Mas, independentemente disso, não deixa de ser um sinal dos tempos que nosso papel como pais deixa de ser o de ensinar que monstros não existem para ser o de ensinar a melhor e mais segura maneira de conviver com eles. 


 

A história de se escrever sobre histórias

Uma das primeiras decisões que tomei quando comecei a Fábrica de Historinhas foi usar este espaço, o blog, para relatar um pouco da minha experiência como pai. Cheguei a me questionar repetidas vezes se não acabaria me arrependendo de escancarar tanta vida pessoal na Internet… mas hoje fico deliz pela decisão. 

Estive relendo alguns dos posts escritos nos últimos meses e, no final, acabei concluindo que o próprio blog se tornou – ao menos para mim – um relato vivo da minha história com a minha filha. Aqui já escrevi sobre a reação dela ao se enxergar em uma história, sobre como as noites mergulhadas em páginas tem alterado as nossas vidas, sobre como as imaginações – da criança e do pai – voam a cada novo conto feito para aprendermos mais sobre o mundo e as coisas. 

Na medida em que vou escrevendo cada post, vou também evitando que memórias importantes se percam no mar de passados que acumulamos todos os dias… e isso é importante. É como um diário antigo (mas jamais antiquado) em que todo o processo de crescimento intelectual da minha filha acaba sendo, de uma forma ou de outra, registrado. 

Falo muito aqui sobre a importância de se ler histórias para crianças – mas essa meta-aventura de se registrar a história da interpretação das histórias é igualmente importante. Nesse sentido, recomendo também a todos os pais e mães que, seja em um blog, no Facebook, no Insta ou no Youtube, aproveitem essa maravilhosa era de informação em que vivemos para fazer exatamente isso: registrar as histórias que todos já vivemos com os nossos próprios filhos. 

Há história mais importante que essa, afinal?