Comprei um atlas

Não foi exatamente um atlas – não achei, pelo menos nas livrarias que visitei, nenhum atlas realmente interessante para crianças.

Na verdade, comprei um livro de fotos de viagens incríveis com mapas claros dos locais onde elas foram tiradas. Serviu ao propósito.

O atlas não é para mim: hoje, o Google e a Wikipedia acabam substituindo qualquer título do gênero feito para adultos. Ele é para a minha pequena filha.

Na medida em que eu vou lendo histórias para ela, mais e mais perguntas sobre as localidades em que elas ocorreram vão povoando a noite.

Em alguns casos, claro, os cenários são mundos mágicos e inexistentes… mas há outros bem reais.

Há o Nilo e as Pirâmides, há Roma Antiga, há o Olimpo com seus deuses, há os mares da Bahia.

Mesmo no caso das histórias que se passam em outras dimensões, como o País das Maravilhas de Alice, há o local e o tempo em que Lewis Carroll viveu e o que o inspirou.

Deixei o livro com ela e, sempre que surge alguma pergunta, me socorro dele para mostrar dunas, montanhas ou rios onde enredos se desenrolaram. Funcionou bem.

Continua funcionando.

Dia desses cheguei em casa do trabalho em silêncio e ela estava sozinha no seu quarto. Quando olhei, lá estava ela mergulhada nas fotos incríveis da Índia, provavelmente imaginando onde seria aquele lugar tão colorido e cheio de pessoas e animais exóticos.

Dá para perceber que essa nova curiosidade instalada tem ficado cada vez mais frequente pelos papos cotidianos e, claro, pela “aparição” do “atlas acidental” em todos os cantos da casa como que denunciando seu pequeno rastro.

 

 

Minha esperança? Que isso faça crescer mais nela aquele bichinho chamado de curiosidade pelo mundo, que ela cresça com vontade de devorar cada país que nos cerca.

Daqui a uns 10 ou 12 anos eu passo por aqui para contar se funcionou.

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Sendo co-autor de todos os autores do mundo

Desde que minha filha deitou os olhos sobre um livro de histórias do mundo do Monteiro Lobato, nada mais a demove de ouvi-lo até o final todas as noites.

Confesso que fiquei orgulhoso e envaidecido pela minha pequena leitora de 5 anos, ainda em fase de pre-alfabetização, ficar tão aficcionada por algo que certamente parece como um tijolo de letras para ela.

E sim: tenho lido Monteiro Lobato todas as noites, incansavelmente, às vezes utilizando a tecla SAP para pular partes mais complicadas e elaborar em torno de outras mais suaves.

Mas está ficando um desafio cada vez maior.

Como explicar, por exemplo, as penas de morte do Código de Drácon para quem sequer entende direito o conceito de morrer? Como explicar a escravidão, as perseguições a tantos povos, os assassinatos políticos e as lutas por direitos que uma criança de 5 anos entende não como conquista, mas como parte do mundo tal qual ele foi originalmente concebido?

Cheguei até a tentar mudar o livro. Ela aceita, principalmente no caso das histórias personalizadas daqui da Fábrica em que ela é personagem… mas isso dura apenas uma noite por mês. Nas demais, a regra é clara: Monteiro Lobato.

E o ritual é igualmente claro: passo o olho pela história da vez com a velocidade de uma cheetah e a reescrevo mentalmente, sublinhando algumas passagens, acrescentando outras, omitindo partes mais tensas.

Por hora, continua funcionando – milagrosamente. E ela continua com os olhos arregalados e os neurônios tecendo sinapses alucinadas enquanto ouve histórias de egípcios, persas, gregos, romanos.

Mas confesso, por fim, que nunca imaginei que contar histórias para dormir fosse se transformar em uma tarefa tão tensa para o pai – e nem que este precisaria treinar a própria criatividade para se transformar em co-autor de um dos maiores gênios da nossa literatura para fazer a magia acontecer!

Pensando bem, isso até era meio óbvio, não? Não seríamos nós, pais, afinal, os grandes co-autores de todos os livros que lemos para os nossos filhos?

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Aprendendo a conviver com novas crianças na família

Minha filha tem 5 anos.

Até pouco tempo ela era filha única, sobrinha única, neta única.

Mas Isa nunca foi mimada, ao menos não no sentido pejorativo do termo – confesso, meio que seguindo uma linha de pai-babão, que ela tem uma maturidade impressionante.

Ainda assim, ela tem 5 anos.

Na semana retrasada, meu sobrinho nasceu.

Daqui a uns dois meses, sua nova irmã nascerá.

De repente, o mundo de criança única se desmoronou em uma divisão de atenção total envolvendo pais, tios, padrinhos, avós.

Perguntamos a ela se estava se sentindo deixada de lado, se estava angustiada, se estava agoniada com alguma coisa. A resposta era quase adulta: “não, sempre quis ter uma irmã e amei meu priminho”. Adulta demais para ser verdadeira, em minha opinião.

Só que crianças não se comunicam só pela fala: há que se entender os tantos signos que as cercam.

Alguns pequenos tiques apareceram. A sala se transformou em uma passarela onde ela desfila todas as roupas do armário todas as tardes. Comer ou escovar os dentes, tarefas que ela já fazia sozinha, viraram momentos de pedido de ajuda para mim ou para a minha mulher.

Por outro lado, não foram poucas as vezes que a percebemos brincando sozinha em um canto da casa, sem sequer perguntar se alguém gostaria de se juntar a ela (algo inimaginável há alguns poucos meses). Seu olhar e ouvido parecem ficar aguçadíssimos sempre que os nomes das novas crianças é mencionado. Medos noturnos passaram a ser mais frequentes.

Ela até caiu da cama no dia seguinte ao que os avós baianos vieram ver o priminho que acabara de nascer – uma reação inconsciente óbvia de quem julga estar perdendo seu lugar.

Hora de agir.

Sei que devemos dar espaço para que nossos filhos desenvolvam suas próprias couraças com as surpresas e frustrações da vida – mas sei também que uma atenção a mais no momento certo não há de fazer mal. E, se diálogos diretos são infrutíferos por erguerem as defesas de crianças que não querem assumir assim, tão abertamente, suas fraquezas, há que se navegar junto pela sua imaginação.

Navegar junto com um filho pela sua imaginação significa essencialmente duas coisas: brincar e contar histórias. Aliás, corrijo-me: o que é brincar, afinal, senão inventar um enredo colaborativo?

Tenho aproveitado cada segundo com ela efetivamente fabricando historinhas: algumas usando suas bonecas, outras a partir de datas específicas (como no Dia de Yemanjá, no 2 de fevereiro), outras com base nos livros personalizados (que tem sido perfeitos para isso) ou nas histórias do mundo do Monteiro Lobato.

Confesso que ainda não posso dizer que tudo está perfeito: medos e angústias não são como unhas encravadas e levam mais tempo para se resolverem. Mas uma coisa posso garantir: o olhar dela muda radicalmente e a pontinha de agonia se metamorfoseia instantaneamente em confiança (nos pais e em si própria) nos momentos em que as histórias estão em curso. Há de ser um bom sinal, certo?

Histórias… Poucas coisas são mais úteis para a educação de uma criança do que histórias.

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Reacostumando-se à rotina

Sei que a volta às aulas varia de estado para estado ou mesmo de escola para escola.

No caso da minha filha, elas recomeçaram na quarta-feira da semana passada.

Sim: como muitas crianças de 5 anos, ela estava em um estado de ansiedade incrível para rever as amigas e retomar a rotina.

Mas, sim, a readaptação ao horário tem sido tensa. Nada mais de dormir depois das 10 ou mesmo 11 e nada mais de acordar depois das 10. Depois das 10? Para não perder a van escolar, o horário de despertar agora é às 6:20, quando o dia ainda carrega alguns tons da noite neste final de verão.

Se isso por si só não bastasse, ainda há toda a carga de atividades extra como natação e ballet para somar mais cansaço a esses nossos tão amados pequenos seres humanos. O resultado tende a ser óbvio: pedaços de exaustão exibidos como pequenas malcriações e “ranzinzisses”.

O que fazer? Bom… continuar remando o barco com as constantes e cotidianas correções de rota.

O que é educar, afinal, senão corrigir rotas a cada segundo?

Tanto falamos de contar histórias para crianças aqui que, às vezes, acabamos nos esquecendo de que as nossas vidas, de pais, são uma história à parte.

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Como ensinar o certo e o errado em um mundo tão errado quanto o nosso?

Missão difícil essa à que me propus ao fazer a pergunta título deste post. Tão difícil que, confesso, nem tentarei criar uma resposta definitiva.

NEsse sentido, tenho mais interrogações do que exclamações. Afinal, há moradores de rua ensinando o que é miséria pelas ruas da cidade, há pregações xenófobas na TV, há adultos destilando preconceitos que deveriam ser inconcebíveis, há cenas de guerra povoando a Internet, há muito, mas muito mais lágrimas do que sorrisos.

Não que eu ache que o mundo esteja cada vez pior: basta um mínimo de senso histórico para comparar os nossos tempos com os que queimavam infiéis em fogueiras públicas ou os que celebravam em praças as cabeças rolando em guilhotinas. Em verdade, acho que o mundo nunca esteve tão melhor e tão pacífico quanto em nossos dias… mas o “problema” é que as comunicações em si são tão abundantes e anárquicas que temos a sensação de estar vivendo no verdadeiro inferno.

E, se é justamente a comunicação que molda os nossos olhos e ouvidos, como ensinar aos nossos filhos que aquele vilão que está na posição de herói, guiando uma nação com a força do preconceito, está tão errado quanto coberto de apoios e aplausos?

Difícil isolar a educação que queremos dar a crianças que vivem tão inundadas de exemplos opostos aos valores que queremos que elas tenham.

A solução, como disse, não tenho. Acho que ninguém tem.

Mas talvez ela passe pela oportunidade única de se ler um livro para uma criança na hora de dormir. Por que? Porque esse é um dos únicos (senão “o” único) momento em que a sua atenção estará 100% voltada para a narrativa que estiver contando para ela. Sem TV. Sem brinquedos. Sem outros amigos bagunçando junto. Sem outros adultos tumultuando o áudio.

Apenas você e seu filho e uma história agindo como ponte para a sua formação ideal.

Funciona?

Espero que sim. Lá em casa, pelo menos, tudo indica que está funcionando 🙂

Germany, Berlin, Father reading book while son sleeping
Germany, Berlin, Father reading book while son sleeping

Personalizando historinhas na vida real

As historinhas daqui da Fábrica acabaram me dando uma ideia que acabei colocando em prática recentemente: personalizar todas as histórias que conto para a minha filha, apimentando-as com nomes familiares a ela para cultivar mais a concentração.

Pus isso em prática na semana passada, durante uma historia sobre os Deuses Gregos. A história em si já era cativante o suficiente, verdade seja dita, até pelas interferências externas (como trovões ecoando no exato instante em que eu falava da ira de Zeus).

Mas a sua curiosidade assumiu proporções muito maiores quando disse que Afrodite era tão vaidosa quanto ela mesma, que Atena era tão sábia quanto a avó, que foi Eros quem flechou o coração do seu amigo Otto e que todos moravam em uma montanha que ficava na Grécia, bem depois de Portugal (país familiar para ela por ser onde moram os avós maternos).

Claro: é sempre necessário ter o cuidado de não destruir mitos ou histórias – não se pode desensinar uma criança, naturalmente. Mas posso afirmar que essa personalização, essa contextualização do novo no meio do familiar, funciona maravilhas para captar a concentração de uma criança.

Era óbvio, afinal: se funciona com os livros da Fábrica de Historinhas, por que não haveria de funcionar em todas as outras histórias?

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O terceiro olho

Estava atravessando a sala para pegar um copo de água na cozinha quando me deparei com minha filha de 5 anos correndo para cima e para baixo com um adesivo de brilhante colado à testa.

Chamei ela em um canto:

– Você sabia que tem um povo, lá do outro lado do mundo, que acredita que nós temos um terceiro olho exatamente onde você colocou esse brilho?, perguntei.

– Não… mas eu não tenho outro olho aqui, não é, papai? É só um adesivo!

– Depende. Dizem que é um olho invisível a partir de onde se percebe as coisas, se imagina as coisas que a gente não vê de verdade. Eu, pessoalmente, acho que é o olho da nossa imaginação. Quando você vê duas bonecas e inventa uma brincadeira, você está dando vida a coisas que não existiam até então. Você está enxergando com sua imaginação o que ninguém mais vê. E não é para isso que serve um olho? Para enxergar?

Ela parou, pensativa. Olhou ao redor.

– Então ali tem um castelo!, concluiu, apontando para o aparador. E no meu quarto tem três casas com amigas brincando!

Uma sucessão de lugares mágicos se abriu imediatamente, todos sempre repletos de detalhes e descobertas impressionantemente nítidas.

Depois de um tempo ela parou, novamente, me olhou fixamente nos olhos e disse, com uma expressão que só adultos costumam carregar:

-Você é um bom pai.

E saiu correndo para o quarto para brincar no seu mundo.

Isso foi na segunda passada.

Pelos próximos dias ela colou o adesivo na testa e não parou de inventar novas brincadeiras com seu “terceiro olho”. Com o tempo, claro, o adesivo acabou desaparecendo embaixo de algum sofá e ela não se lembrou mais dele. Mas uma coisa acabou ficando muito clara: ali, naquela historinha de segundos que contei para a minha filha no meio da sala na noite de uma segunda-feira qualquer, algumas sinapses novas foram geradas e a sua imaginação foi exercitada como tem que ser.

Ali também acabei concluindo que, aos olhos de uma criança, ser um bom pai ou uma boa mãe é algo intimamente ligado a saber exercitar a ilimitada imaginação infantil, é saber dotá-la de insumos, de ferramentas, para que ela mesma possa viajar mais livremente pela sua própria realidade individual. Em outras palavras: é saber guiá-la com as histórias certas nos momentos certos.

É provável que a história do terceiro olho e todo o episódio acabe caindo no esquecimento. É provável até que já tenha caído, aliás. Mas as sinapses, os exercícios mentais, ficaram – e não é isso, afinal, que realmente importa quando se tem 5 anos de idade?

(Fora isso, confesso em um tom mais egoísta, fez um bem tremendo ao ego ouvir um elogio gratuito desse de uma filha na difícil (e sempre recheada de falhas) tarefa de ser pai!)

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PS: Sim, eu sei que há muito mais sobre o terceiro olho do que eu contei. Mas convenhamos: estamos falando de uma criança de 5 anos, né?

Você já levou o seu filho a uma biblioteca?

Antigamente, bibliotecas eram lugares em que todos poderiam fazer empréstimos de livros (em muitos casos com cópias únicas) e devolvê-los depois de lidos. 

A própria evolução tecnológica impôs uma mudança dramática no cenário: livros são fáceis de se encontrar (seja em forma física ou digital) e bibliotecas já deixaram, há muito, de ser as guardiãs dos exemplares únicos de grandes histórias. Mas isso significa que elas não tem mais motivo de ser? 

De forma alguma. Bibliotecas, hoje, continuam sendo o que sempre foram: templos de disseminação da literatura. O estilo da “pregação”, por assim dizer, é que mudou. Em outras palavras: talvez não faça mais tanto sentido ir a uma biblioteca para tomar um livro emprestado como se fazia na década de 80. Mas faz, sim, muito sentido ir a uma biblioteca para mergulhar no universo da literatura com a mesma intensidade com a qual se vai, por exemplo, a um cinema ou a um museu. 

Quer exemplos práticos – principalmente focado nas crianças? 

A Biblioteca Infantil Multilíngue Belas Artes, na capital paulista, tem um espaço inteiro dedicado a crianças com o objetivo de estimular a leitura como brincadeira.

A Biblioteca Infantil Aglaé Fontes de Alencar, em Aracaju, tem uma sala específica para oficinas e leitura coletiva de histórias.

A Biblioteca Lucília Minssen, em Porto Alegre, tem uma programação mensal rica com oficinas de leitura e apresentações teatrais. 

Em outras palavras: se, antigamente, bibliotecas eram lugares onde as pessoas escolhiam as histórias para levar para casa, hoje elas são ambientes onde as histórias são consumidas e trabalhadas diretamente. 

Hoje, as bibliotecas se transformaram em museus de histórias vivas. Quer coisa mais perfeita para incentivar o hábito de leitura em crianças? 

Aceite, então, uma dica: procure uma biblioteca em sua cidade, atente-se à programação e aproveite as férias para garantir uma visita com os seus pequenos! 

(Uma dica extra: este post aqui lista uma série de opções extremamente interessantes por todo o Brasil.)

Entre cucas e bois da cara preta: o estranho hábito de educar a partir do medo

Nunca fui muito fã de contar histórias assustadoras para crianças. Aliás, nunca entendi muito o motivo das principais cantigas de ninar brasileiras sempre terem como propósito amedrontar os pequenos (“boi, boi, boi, boi da cara preta, pega esse menino que tem medo de careta”; “nana, neném, que a cuca vai pegar, papai foi pra roça, mamãe foi passear”; etc.). 

Mas, enfim, foram com essas cantigas que, provavelmente, todos nós aprendemos a dormir com medo de monstros e da solidão. 

Talvez haja um lado educativo nisso tudo: um amigo uma vez me disse que o grande papel dessas músicas assustadoras era mesmo ensinar as crianças que não havia alternativa na vida senão “corajosamente fechar os olhos” e enfrentar os medos. Segundo ele, ouvir os próprios pais cantarem que monstros estavam por vir, sendo depois abandonados sozinhos nas sua camas por toda a escuridão da noite, forjaria uma espécie de coragem fundamental para que as crianças aprendessem a enfrentar o mundo no futuro. 

Em minha humilde opinião, discordo: há de haver alguma maneira menos sádica de se ensinar coragem. 

Tenho uma teoria quanto a isso – uma teoria que comprovo apenas com a minha própria experiência empírica como pai: racionalizar o mundo é mais saudável do que incentivar o terror. Em outras palavras: é melhor educar do que aterrorizar. 

Explico-me: 

Quando se canta para uma criança que ela estará só e que um monstro a pegará em instantes se ela não se comportar de uma determinada maneira, busca-se – claro – administrá-la pelo medo irracional. Não se está ensinando valores essenciais e nem estratégias subliminares de autodefesa: está se ensinando apenas que a melhor maneira de sobreviver ao dia é submetendo-se ao medo e rezando para que o sol chegue antes dos monstros. Está se ensinando impotência.  

Não seria mais fácil contar as histórias do mundo para ela? Algo que tome carona em medos reais que ela estiver sentindo naquela faixa etária e que explique, de alguma maneira lúdica, que eles não tem razão real de ser? Algo que a acalme e que a force raciocinar sobre seus medos, elocubrando mecanismos de autoconvencimento de que eles realmente não existem? 

Crianças, principalmente as mais novas, são como esponjas: elas tendem a sugar todo átomo de ensinamento que se lance em suas direções. 

Se se semear medo como estratégia de “silenciamento”, certamente a criança entenderá que o mundo é mesmo um lugar aterrorizante e que o melhor que ela tem a fazer se quiser sobreviver é ficar escondida no seu canto sem ser percebida. Isso é coragem? Não me parece. 

Se se semear racionalidade, por outro lado, seu pequeno cérebro começará toda uma sequência de sinapses que terão como resultado não temer, mas entender o mundo. Bem melhor, não?

E qual a melhor maneira de semear racionalidade? Fazendo o óbvio: mantendo aceso o hábito de contar histórias para crianças. Não há ferramenta melhor para entrar nas “exóticas” mentes infantis para construir pontes entre o que elas são e no que elas poderão se transformar.