Como ensinar os motivos de feriados a crianças

Daqui a pouco é 15 de novembro, data importantíssima para o calendário brasileiro. Nesse mesmo dia, em 1889, o Brasil deixou de ser império e passou a ser república.

Houve um golpe militar, um exílio, o fim de uma era e o começo de outra. Como em qualquer mudança drástica, esta foi recheada de heróis e anti-heróis, de aventuras, de fracassos e de vitórias.

Pois é: eis a resposta para a pergunta-título deste post. O 15 de novembro até pode ser uma das datas mais importantes do nosso calendário – mas quase todas as outras tem elementos parecidos, histórias riquíssimas por trás dos feriados em que se transformaram.

Como ensinar os motivos de feriados a crianças? Transformando-os em histórias aventurescas compatíveis com suas idades. Dá, facilmente, para inventar um herói ou heroína qualquer que acompanhava o Marechal Deodoro naquele fatídico dia, na atual Praça da República da então capital do Império, o Rio.

Dá para fazer este herói ou heroína contar um pouco de como era a vida no Império e de como seria importante que todos pudessem participar mais das decisões do país. Dá para envolver a criança na história, para fabricar pequenos fatos e personagens que a guiarão pelos grandes acontecimentos.

O resultado disso? Não se trata apenas de fazer a criança entender o que aconteceu em uma data específica: trata-se de fazê-la se encantar pela História enquanto disciplina, algo essencial para a sua própria evolução como pessoa.

Está em casa pensando em como aproveitar esta terça? Então fabrique você mesmo uma história nova e leve seu filho até aqueles distantes tempos em que todo o mundo mudou.

E não esqueça de dar o seu toque na narrativa usando alguma licença poética para apimentar os fatos (sem alterá-los, claro): afinal, convenhamos, dificilmente uma criança se encantará pela imagem real deste senhor aqui embaixo:

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Livros são muito, mas muito mais importantes que filmes ou desenhos

Desculpem se ofendi alguém com a afirmação no título do post: a ideia não é denegrir nenhuma forma de arte.

Mas repito-me: livros são muito, mas muito mais importantes que filmes ou desenhos.

Por que?

Porque livros são histórias que acontecem na mente dos leitores.

Quando uma criança assiste a um desenho, há todo um enredo devidamente traduzido em figuras, vozes e cenários já criados para ela. Já houve uma interpretação feita por um diretor, já há formas atribuídas para as suas fantasias, já há cores, densidades, importâncias pensadas por outros. A criança apenas as digere.

Não com livros.

Com livros, tudo o que pode haver é a voz de um pai ou mãe lendo para seu filho ou filha. Os cenários? Eles até podem ser ilustrados – mas a falta de movimentos os transporta diretamente para a imaginação de uma criança. Em um livro, é a mente da criança que constrói as ações, que completa os enredos, que determina os estilos de cada um dos personagens.

Filmes e desenhos são assistidos por crianças passivamente.

Livros são sempre co-escritos por elas em suas mentes.

A diferença é brutal – assim como os efeitos para o seu desenvolvimento.

Usando festas de aniversário para entender melhor as nossas crianças

E não são?

Esse fim de semana fomos a um aniversário de um amigo da minha filha. Havia o tradicional, o que todos nós, pais, já estamos habituados a ver: animadores, crianças correndo para cima e para baixo, novos laços sendo feitos, amizades ganhando ou perdendo corpo, bolos, brigadeiros, famílias.

Tudo normal, certo?

Certo – só que apenas para nós, adultos.

Para uma criança, festas assim são um desafio à parte, uma oportunidade perfeita de amadurecimento em que se deve lidar com ambientes naturalmente mais competitivos que o ambiente familiar natural. Em outras palavras: cada festa de aniversário é, por natureza, uma trama à parte que cada criança, aniversariante ou convidada, está escrevendo.

O que resta a nós, pais, fazermos? Ler essas tramas, essas histórias.

Nesses casos, nos resta dar espaço e deixar as crianças se desenvolverem nas suas próprias comunidades. E, claro, observar, da primeira fila, esse amadurecimento acontecer com os nossos pequenos: ver a maneira que eles resolvem conflitos, como se impõem ou se resignam, como se divertem, como agem em suas comunidades.

Isso nos permitirá uma espécie de “diagnóstico”: saberemos (ou pelo menos teremos uma ideia mais precisa sobre) quais os elementos que precisam ser mais trabalhados em nossos filhos. Timidez? Saber ganhar? Saber perder? Saber negociar?

A partir daí vem o óbvio: usar a nossa observação para guiar a nossa educação, (incluindo a escolha de livros infantis que melhor se encaixarem em cada situação).

Aniversários não são apenas comemorações, fins em si mesmas: são um ponto de partida perfeito para se realinhar a educação que nós mesmos estamos dando a nossos filhos.

 

 

A agonia de não entender uma gravidez

“Papai, não quero que meus filhos saiam da minha barriga”.

Minha filha disse isso há pouco mais de um mês, quando fomos ao hospital ver o meu sobrinho chegar ao mundo. Não havia me dado conta do quão disruptivo para uma criança deve ser essa imaginação do parto.

Há, afinal, uma criança que cresce (sabe-se lá exatamente como) dentro de uma barriga – e uma saída para o lado de fora que, a julgar pelas contrações e pela óbvia suposição de um corte, certamente traz dores alucinantes.

Sim, mais de 30 dias se passaram – mas em mais 30 dias, aproximadamente, sua irmãzinha também nascerá, repetindo essa imaginação aterrorizada do que é um parto em sua mente.

Como qualquer pai faria, tentei explicar da maneira mais inteligível possível como se dá esse processo todo e como, no final das contas, ele é sempre bom. Não senti muita confiança no seu olhar: sendo homem, o que poderia eu saber de uma gravidez?

Minha mulher também tentou e, apesar de ter mais sucesso que eu, não conseguiu tirar esse medo da sua pequena mente.

Preciso recorrer a livros infantis, a historinhas que elaborem isso melhor.

Difícil é achar algo nessa linha.

Little boy hugging his mother belly.
Little boy hugging his mother belly.

A geografia de uma criança

Às vezes, quando me pego contando alguma história para a minha filha de 5 anos, esqueço que alguns referenciais simplesmente não existem para ela.

Para uma criança, o mundo é feito de familiaridades temporária e geograficamente dispersas entre si, descoladas, desconectadas. É um mundo tão diferente que sequer nos damos conta do que estamos contando.

A África, por exemplo, é uma terra com savanas por onde passam leões caçando girafas – mas que também divide espaço com os mesmos prédios pichados e avenidas largas que ela está habituada a ver na São Paulo que vivemos.

Esses prédios são tão onipresentes quando o céu e o arco-íris, aliás.

A Austrália não é muito diferente da África – basta trocar leões e girafas por cangurus.

A Europa, por sua vez, é uma grande Suécia pontilhada de castelos encantados e banhada pelo delicioso clima do sul da Itália. Exceto por Portugal, claro, que na verdade se resume ao apartamento de seus avós.

Há ainda, em sua cabeça, outros mundos que não se encaixam exatamente em continentes: o Egito com suas pirâmides, a Grécia com seus Deuses, a Babilônia com suas torres. Todos eles existem, embora não se saiba ao certo onde ou habitado por quem.

Estados Unidos? Não é exatamente um lugar. Tem os vulcões do Havaí e os belos prédios brancos de Washington, além de um louco artificialmente bronzeado que volta e meia aparece na TV para tomar o tempo de seus desenhos.

São visões de partes, de pequenas histórias ainda sem muita noção de espaço e tempo que, um dia, se costurarão em sua cabeça.

Um dia.

Talvez o marco do fim da infância seja justamente o momento em que esses lugares incríveis se fecharem no mesmo mundo e se dispersarem por muitos tempos.

Um dia, antes que isso ocorra, vou pedir à minha filha que desenhe o mundo tal qual ela o enxerga.

Será a história de todas as histórias.

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As histórias de fora

Dia desses peguei um livro que uma amiga minha, enquanto estava viajando pelo Atacama, comprou de presente para a minha filha.

O livro era sobre uma indiazinha que cuidava de llamas e que, um dia, acabou sendo levada por uma tempestade para além das montanhas nevadas e precisava achar de volta a sua casa. A história em si era semelhante às tantas que existem por aqui: falava de medo de abandono, da importância do amor como forma de se enxergar no mundo etc. Nesse caso, no entanto, não era a história que importava tanto: eram os referenciais.

Certamente, a história de uma indiazinha no Atacama deve ser extremamente familiar para chilenos – mas, para uma criança brasileira, pouca coisa poderia ser mais exótica. Enquanto eu ia traduzindo os textos a partir do meu próprio portunhol atravancado, Isa viajava nas imagens das llamas, nas montanhas que se confundiam com nuvens, de tão altas, nos desertos de sal, na própria figura de uma índia andina tão diferente das “nossas”.

Não foi uma história de dormir: foi uma viagem pelo imaginário de um outro mundo feito especialmente para crianças.

Foi uma experiência fenomenal.

Acrescentei, com isso, um item fundamental para qualquer viagem: uma visita a livrarias locais onde possamos escolher novas histórias que abram novos mundos para crianças.

O que mais podemos fazer por elas, afinal, senão abrir esses mundos?

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