Personalizando historinhas na vida real

As historinhas daqui da Fábrica acabaram me dando uma ideia que acabei colocando em prática recentemente: personalizar todas as histórias que conto para a minha filha, apimentando-as com nomes familiares a ela para cultivar mais a concentração.

Pus isso em prática na semana passada, durante uma historia sobre os Deuses Gregos. A história em si já era cativante o suficiente, verdade seja dita, até pelas interferências externas (como trovões ecoando no exato instante em que eu falava da ira de Zeus).

Mas a sua curiosidade assumiu proporções muito maiores quando disse que Afrodite era tão vaidosa quanto ela mesma, que Atena era tão sábia quanto a avó, que foi Eros quem flechou o coração do seu amigo Otto e que todos moravam em uma montanha que ficava na Grécia, bem depois de Portugal (país familiar para ela por ser onde moram os avós maternos).

Claro: é sempre necessário ter o cuidado de não destruir mitos ou histórias – não se pode desensinar uma criança, naturalmente. Mas posso afirmar que essa personalização, essa contextualização do novo no meio do familiar, funciona maravilhas para captar a concentração de uma criança.

Era óbvio, afinal: se funciona com os livros da Fábrica de Historinhas, por que não haveria de funcionar em todas as outras histórias?

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Entre cucas e bois da cara preta: o estranho hábito de educar a partir do medo

Nunca fui muito fã de contar histórias assustadoras para crianças. Aliás, nunca entendi muito o motivo das principais cantigas de ninar brasileiras sempre terem como propósito amedrontar os pequenos (“boi, boi, boi, boi da cara preta, pega esse menino que tem medo de careta”; “nana, neném, que a cuca vai pegar, papai foi pra roça, mamãe foi passear”; etc.). 

Mas, enfim, foram com essas cantigas que, provavelmente, todos nós aprendemos a dormir com medo de monstros e da solidão. 

Talvez haja um lado educativo nisso tudo: um amigo uma vez me disse que o grande papel dessas músicas assustadoras era mesmo ensinar as crianças que não havia alternativa na vida senão “corajosamente fechar os olhos” e enfrentar os medos. Segundo ele, ouvir os próprios pais cantarem que monstros estavam por vir, sendo depois abandonados sozinhos nas sua camas por toda a escuridão da noite, forjaria uma espécie de coragem fundamental para que as crianças aprendessem a enfrentar o mundo no futuro. 

Em minha humilde opinião, discordo: há de haver alguma maneira menos sádica de se ensinar coragem. 

Tenho uma teoria quanto a isso – uma teoria que comprovo apenas com a minha própria experiência empírica como pai: racionalizar o mundo é mais saudável do que incentivar o terror. Em outras palavras: é melhor educar do que aterrorizar. 

Explico-me: 

Quando se canta para uma criança que ela estará só e que um monstro a pegará em instantes se ela não se comportar de uma determinada maneira, busca-se – claro – administrá-la pelo medo irracional. Não se está ensinando valores essenciais e nem estratégias subliminares de autodefesa: está se ensinando apenas que a melhor maneira de sobreviver ao dia é submetendo-se ao medo e rezando para que o sol chegue antes dos monstros. Está se ensinando impotência.  

Não seria mais fácil contar as histórias do mundo para ela? Algo que tome carona em medos reais que ela estiver sentindo naquela faixa etária e que explique, de alguma maneira lúdica, que eles não tem razão real de ser? Algo que a acalme e que a force raciocinar sobre seus medos, elocubrando mecanismos de autoconvencimento de que eles realmente não existem? 

Crianças, principalmente as mais novas, são como esponjas: elas tendem a sugar todo átomo de ensinamento que se lance em suas direções. 

Se se semear medo como estratégia de “silenciamento”, certamente a criança entenderá que o mundo é mesmo um lugar aterrorizante e que o melhor que ela tem a fazer se quiser sobreviver é ficar escondida no seu canto sem ser percebida. Isso é coragem? Não me parece. 

Se se semear racionalidade, por outro lado, seu pequeno cérebro começará toda uma sequência de sinapses que terão como resultado não temer, mas entender o mundo. Bem melhor, não?

E qual a melhor maneira de semear racionalidade? Fazendo o óbvio: mantendo aceso o hábito de contar histórias para crianças. Não há ferramenta melhor para entrar nas “exóticas” mentes infantis para construir pontes entre o que elas são e no que elas poderão se transformar. 

O desencontro de energias do começo do ano

Para muitos pais, esse período entre meados de janeiro e o começo de fevereiro é uma sucessão de interrogações. Exceto pelos afortunados que tiraram férias no verão, nós, os demais, estamos já desde a segunda de volta à suada labuta!

Nossos filhos, no entanto, ainda estão nadando no delicioso ócio das férias. O resultado? Um óbvio “desencontro de energias”. Para os pequenos, afinal, ainda é hora de acordar tarde, passar as primeiras horas do dia vegetando pela casa e, depois, tentar descobrir o que fazer com tanta energia acumulada. E o que fazer??

Para quem mora nas cidades costeiras, praia. Para quem mora em grandes cidades, parques ou museus. Para quem mora em pequenas cidades, ruas ou praças. Mas seja para onde for, há ainda a questão fundamental: com QUEM, já que estamos presos aos nossos ecritórios e já que pequenos de 3 a 7 anos não podem sair por conta própria perambulando pela cidade? Avós? Tios? Babás? Todos, em algum tipo de fórmula de revezamento que garanta que o tédio, filho do ócio, não apareça justamente no começo da noite, quando chegamos do trabalho já levemente assustados com o que vamos encontrar? 

Ah, as férias escolares… 

Mas olhe por outro lado: é também nesse momento que a educação mais fica nas mãos dos nossos núcleos familiares, incluindo toda a parentada e amigos, tanto nossos quanto dos nossos filhos. É nesses dias que as crianças mais aprendem a conviver com o próprio ócio, a inventar maneiras mais inusitadas de se divertir, a escrever, ainda que com as mentes, as suas próprias histórias e enredos vividos pelos bonecos e bonecas que lotam os seus quartos. 

Sim, eu sei: isso não alivia em nada a tarefa de enfrentar as férias escolares que ainda durarão mais um mês. Assim, na falta de algum conselho melhor (e se alguém o tiver, por favor o diga logo), deixo aqui, neste primeiro post do ano, um desejo para todos pais e mães envoltos no mesmo tipo de dilema de começo de ano que eu: que todos consigamos nos virar bem e que muitas histórias incríveis sejam escritas nesse verão! 

Feliz 2017!!!

Lidando com a falta de faltas no universo infantil atual

A vida é inegavelmente mais completa para uma criança hoje do que para uma criança da década de 80.

Não que sejamos todos milionários ou que vivamos com o PIB per Capita da Suécia, claro – mas o mundo ficou inegavelmente mais acessível. Pense na quantidade de vezes que você ouviu a palavra “não tem”quando era criança e na quantidade de vezes que profere isso para seus filhos.

Vá nos detalhes.

Lá atrás, se quiséssemos assistir a desenhos animados, tínhamos que acordar cedo e confiar no gosto do editor do Xou da Xuxa. Hoje, basta ligar o Netflix ou o Youtube e toda a infinidade de conhecimento produzido pela humanidade se materializa em um clique.

Não me levem a mal: não sou nem um pouco saudosista e nem penso que o mundo era melhor quando a vida era mais escassa. Ao contrário: acredito piamente que as oportunidades abertas para a humanidade como um todo pela nossa Era da Informação são maiores e mais brilhantes do que jamais este nosso planeta testemunhou.

Mas isso não significa que tudo seja perfeito.

Se tem uma coisa que aprendemos na nossa infância de escassez é a entender a falta. Entender que nem tudo estava permanentemente ao nosso dispor nos ensinava também a lidar com frustrações, a comemorar melhor as conquistas, a lutar mais pelas pequenas vitórias cotidianas.

Mas em um mundo em que tudo é possível e fácil, qual o propósito de se batalhar por qualquer coisa?

O perigo disso? Nossos filhos eventualmente crescerão e entrarão em um mercado de trabalho que tende a ser cada vez mais competitivo e árido – e não há como lidar bem com a competitividade se não se aprendeu desde cedo que frustrações e vitórias precisam ser enfrentados com um tipo de maturidade que só o tempo ensina.

Bom… e daí? Por que estou escrevendo sobre isso aqui no blog da Fábrica? Porque, se não dá para mudar o mundo ou enclausurar uma criança no século XIX, dá pelo menos para trabalhar a sua maturação com livros.

Livros, afinal, são retratos de tempos passados, de tempos que continham batalhas e que eram povoados por protagonistas e antagonistas. São realidades paralelas que crianças conseguem entender, digerir e usar, claro, para seu próprio benefício.

Se, por um lado, é difícil mudar o mundo em que vivemos hoje para inserir um pouco mais de “menos” na realidade, por outro é bem mais fácil usar as sempre bem vindas historinhas infantis para preparar as nossas crianças para um mundo muito mais severo do que o que eles esperam encontrar.

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Dê livros no Natal

Se você tem um filho(a) pequeno(a), são grandes as chances dele(a) receber toneladas de brinquedos neste Natal por parte dos tios, tias, avós e familiares em geral.

Nada contra brinquedos, claro – mas não pude deixar de notar, nesses últimos 5 anos desde que virei pai, o quão pouco duradouros eles são. E não digo isso pela qualidade técnica: falo da utilização prática mesmo.

Quando nós éramos menores, as opções disponíveis de brinquedos eram poucas: tínhamos uma meia dúzia com as quais nos divertíamos por meses a fio. Hoje, no entanto, qualquer visita a uma Ri-Happy na esquina nos apresenta a centenas de lançamentos diários tão impressionantes quanto caros.

As crianças, claro, se encantam. Os pais compram. As crianças brincam por alguns dias. Aí, quase que imediatamente depois, elas se deparam com um novo lançamento – seja em uma vitrine ou na TV. Surge uma nova demanda e o ciclo começa de novo.

E o brinquedo que havia sido comprado? Vai para a pilha que acaba rapidamente caindo na vala do esquecimento.

A abundância gera o desperdício.

Não tenho nada contra brinquedos, acreditem – mas tomei uma decisão importante neste Natal: trocarei trecos por histórias.

Não que minha filha não vá ganhar trecos, brinquedos: seu sorriso imediatista certamente será desenhado por presentes da família. Eu, no entanto, preferirei dar algo que dure mais tempo: uma história.

O que é esse “mais tempo”? No caso de uma história, o infinito de sinapses geradas na escuridão do cérebro infantil já a partir de uma única leitura. Perdoem o clichê, mas é mesmo verdade que livros duram para sempre. Pollys e Shopkins, não.

E quando digo história, quero dizer história mesmo. Nada de livrinhos interativos que fazem pedaços de papel saltarem a cada página folheada ou de coleções de adesivos inúteis: quero algo que faça a imaginação da minha filha dar forma, por conta própria, às palavras que ela ouvir.

Nada também de ebooks que cantam e fazem barulho: para uma criança pequena, entrando na fase de alfabetização, menos é mais. quanto mais interatividades eletrônicas existirem, mais ela exercitará os dedos e menos o cérebro.

Neste Natal buscarei o exato oposto.

Neste Natal o presente será algum livro incrível.

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Livro do mês: Descobrindo Profissões com a Sury

A segunda leva de livros personalizados da Fábrica está saindo agora das gráficas! E o título deste mês é “Descobrindo Profissões com a Sury“.

Profissões – algo por vezes difícil para se explicar para crianças que não entendem exatamente o que nós, pais, fazemos quando saímos de casa.

Pois bem: ensinar o significado de algumas das profissões, destacando aquelas que mais mexem com a imaginação infantil (como veterinários e bombeiros, para ficar apenas em dois exemplos), é sempre algo importante para o próprio processo de crescimento e entendimento de mundo.

Como parte da metodologia narrativa da Fábrica, os nomes dos seus pequenos aparecem como personagens principais, sendo guiados pela cadelinha Sury por esse mundo dos adultos que tanto atiça a imaginação!

Espero que gostem! E, se quiserem dar uma olhada mais a fundo nesse título, é só clicar na imagem abaixo ou neste link aqui: http://www.fabricadehistorinhas.com.br/ebooks_detalhe.aspx?id=f6c65cb3-b095-4e00-81fe-3b95caa1751a

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Como escolhemos os nossos livros?

Confesso que descobri o que agora escrevo apenas depois de ter virado pai. Há teorias, afinal, que só fazem sentido mesmo com a prática.

Sempre tive o hábito de ir com minha filha a uma livraria perto de casa para escolher alguma história interessante. Desde cedo, minha maior batalha nesses pequenos templos do saber era fazê-la escolher livros mais ricos do que coletâneas de adesivos ou mesclas de histórias com quebra-cabeças.

Mas, na medida em que íamos desbravando as prateleiras juntos, sempre me deparava com histórias assustadoramente ruins. Para ficar apenas em um exemplo, há uma infinidade de contos com bruxas e seres malignos que simplesmente não tem um ‘final’, um encerramento qualquer que evite que a criança passe semanas a fio se perguntando se algum ser maligno aparecerá em seu quarto à noite para devorá-la.

Teóricos e pedagogos podem fazer qualquer defesa para obras assim – mas, como pai, posso assegurar que crianças, principalmente as mais novas, precisam compreender o conceito de começo-meio-fim até para aprender a separar a fantasia da realidade.

Há outros fatores em jogo também, claro: a qualidade das ilustrações, a resistência das páginas, o volume de texto e, claro, a mensagem implícita no enredo. Fatores como esses foram os que mais levei em conta na hora de criar esse novo negócio, a Fábrica de Historinhas. Não queria que as nossas histórias fossem apenas seleções aleatórias das mais vendidas: queria que todas fossem meticulosamente selecionadas de acordo com o olhar de quem tem filho e não de uma editora.

E acabamos chegando a uma seleção inicial que julgo incrível, com muitos dos livros exclusivos para a nossa plataforma.

Sabe outro ponto importante? Pais não podem escolher livros às cegas: é importante que saibamos como a história se desenrola até para entendermos se ela é ou não ideal para nossos filhos.

Aqui, portanto, não haverá surpresas nesse sentido: os livros que entregamos mensalmente à base de assinantes estão todos abertos para visualização no site, bastando acessar a área de ‘nossos livros’.

Espero que gostem tanto quanto nós gostamos! 🙂

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Por que um bom livro é uma porta secreta?

A infância é surreal. Já comentei isso em algum post passado quando me alonguei, talvez mais do que o necessário, sobre como livros permitem que crianças criem mundos de acordo com as suas próprias e pessoalíssimas visões de mundo.

Nessa linha, vale muito conferir a palestra do autor Mac Barnett sobre a escrita que escapa das páginas abrindo todo um caminho para a imaginação:

https://embed.ted.com/talks/lang/pt-br/mac_barnett_why_a_good_book_is_a_secret_door