Histórias e vocabulário

Logo que comecei a contar histórias para a minha filha, minha maior preocupação era que ela não se perdesse em vocábulos que ela desconhecia. Minha solução? Traduzi-losdiretamente do papel, trocando algumas palavras dos textos por outras que sabia que ela conhecia.

Até que me toquei do quanto essa ideia era péssima.

O raciocínio é simples, mas tão simples, que chega a ser constrangedor. Além dos enredos em si, um dos grandes papéis de histórias – infantis ou não – é ampliar o nosso vocabulário. Com um acervo maior de palavras aprendidas em contextos claros, podemos formular melhor os nossos próprios pensamentos e criar linhas de racionalização muito mais sofisticadas.

Por outro lado, se fugirmos das novas palavras unicamente por elas serem novas, ficaremos sempre presos ao desenvolvimento de pensamentos mais tacanhos, pouco evoluídos, simplórios.

Se isso serve para um adulto de 40 anos, por que não serviria para uma criança de 5 ou 6, justamente na fase perfeita para sugar conhecimento?

Mudei de estratégia, claro. Hoje, ao invés de traduzir palavras, substituindo o novo pelo conhecido, eu as mantenho e, sempre que percebo uma interrogação no olhar da minha filha, páro e as defino melhor.

Não quero exagerar na “corujisse”, mas o fato é que bastaram algumas semanas para que ela desse um salto de inteligência, formulando pensamentos tão sofisticados que até nós, pais, desenvolvemos um hábito de ficar chocados no cotidiano.

É impressionante o quanto nossos filhos nos ensinam quando tentamos ensiná-los.

A agonia de não entender uma gravidez

“Papai, não quero que meus filhos saiam da minha barriga”.

Minha filha disse isso há pouco mais de um mês, quando fomos ao hospital ver o meu sobrinho chegar ao mundo. Não havia me dado conta do quão disruptivo para uma criança deve ser essa imaginação do parto.

Há, afinal, uma criança que cresce (sabe-se lá exatamente como) dentro de uma barriga – e uma saída para o lado de fora que, a julgar pelas contrações e pela óbvia suposição de um corte, certamente traz dores alucinantes.

Sim, mais de 30 dias se passaram – mas em mais 30 dias, aproximadamente, sua irmãzinha também nascerá, repetindo essa imaginação aterrorizada do que é um parto em sua mente.

Como qualquer pai faria, tentei explicar da maneira mais inteligível possível como se dá esse processo todo e como, no final das contas, ele é sempre bom. Não senti muita confiança no seu olhar: sendo homem, o que poderia eu saber de uma gravidez?

Minha mulher também tentou e, apesar de ter mais sucesso que eu, não conseguiu tirar esse medo da sua pequena mente.

Preciso recorrer a livros infantis, a historinhas que elaborem isso melhor.

Difícil é achar algo nessa linha.

Little boy hugging his mother belly.
Little boy hugging his mother belly.

A geografia de uma criança

Às vezes, quando me pego contando alguma história para a minha filha de 5 anos, esqueço que alguns referenciais simplesmente não existem para ela.

Para uma criança, o mundo é feito de familiaridades temporária e geograficamente dispersas entre si, descoladas, desconectadas. É um mundo tão diferente que sequer nos damos conta do que estamos contando.

A África, por exemplo, é uma terra com savanas por onde passam leões caçando girafas – mas que também divide espaço com os mesmos prédios pichados e avenidas largas que ela está habituada a ver na São Paulo que vivemos.

Esses prédios são tão onipresentes quando o céu e o arco-íris, aliás.

A Austrália não é muito diferente da África – basta trocar leões e girafas por cangurus.

A Europa, por sua vez, é uma grande Suécia pontilhada de castelos encantados e banhada pelo delicioso clima do sul da Itália. Exceto por Portugal, claro, que na verdade se resume ao apartamento de seus avós.

Há ainda, em sua cabeça, outros mundos que não se encaixam exatamente em continentes: o Egito com suas pirâmides, a Grécia com seus Deuses, a Babilônia com suas torres. Todos eles existem, embora não se saiba ao certo onde ou habitado por quem.

Estados Unidos? Não é exatamente um lugar. Tem os vulcões do Havaí e os belos prédios brancos de Washington, além de um louco artificialmente bronzeado que volta e meia aparece na TV para tomar o tempo de seus desenhos.

São visões de partes, de pequenas histórias ainda sem muita noção de espaço e tempo que, um dia, se costurarão em sua cabeça.

Um dia.

Talvez o marco do fim da infância seja justamente o momento em que esses lugares incríveis se fecharem no mesmo mundo e se dispersarem por muitos tempos.

Um dia, antes que isso ocorra, vou pedir à minha filha que desenhe o mundo tal qual ela o enxerga.

Será a história de todas as histórias.

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As histórias de fora

Dia desses peguei um livro que uma amiga minha, enquanto estava viajando pelo Atacama, comprou de presente para a minha filha.

O livro era sobre uma indiazinha que cuidava de llamas e que, um dia, acabou sendo levada por uma tempestade para além das montanhas nevadas e precisava achar de volta a sua casa. A história em si era semelhante às tantas que existem por aqui: falava de medo de abandono, da importância do amor como forma de se enxergar no mundo etc. Nesse caso, no entanto, não era a história que importava tanto: eram os referenciais.

Certamente, a história de uma indiazinha no Atacama deve ser extremamente familiar para chilenos – mas, para uma criança brasileira, pouca coisa poderia ser mais exótica. Enquanto eu ia traduzindo os textos a partir do meu próprio portunhol atravancado, Isa viajava nas imagens das llamas, nas montanhas que se confundiam com nuvens, de tão altas, nos desertos de sal, na própria figura de uma índia andina tão diferente das “nossas”.

Não foi uma história de dormir: foi uma viagem pelo imaginário de um outro mundo feito especialmente para crianças.

Foi uma experiência fenomenal.

Acrescentei, com isso, um item fundamental para qualquer viagem: uma visita a livrarias locais onde possamos escolher novas histórias que abram novos mundos para crianças.

O que mais podemos fazer por elas, afinal, senão abrir esses mundos?

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Fantasias inventando histórias

Primeiro, foi da Frozen. Depois, da Ariel.

Em seguida, as princesas (finalmente!) cansaram e começamos a inventar piratas, fadas, macacos mágicos.

Depois ela se entregou ao calor: queria mesmo era ficar de biquini (mesmo que se dissesse, em alguns momentos, uma vampira).

Fosse como fosse, minha filha passou esses últimos dias brincando de ser personagens. E nós?

Nós ficamos no entorno, dando volume à imaginação com histórias que se encaixassem nas suas fantasias. Nos transformamos em livros sendo escritos em tempo real, meio que por acidente, de maneira totalmente colaborativa. Criamos ondas de sorvete, céus com tempestades tumultuando os vôos das fadas e unicórnios, selvas brilhantes, oceanos de Nutella, torres mágicas, sofás voadores.

E quer saber? Foram histórias sensacionais essas – todas absolutamente diferentes das que costumamos comprar em livrarias. Todas, inclusive, bem mais empolgantes.

A descoberta do Carnaval, ao menos para mim, não poderia ter sido outra: deveríamos deixar as próprias crianças escreverem as histórias. Poucos adultos, afinal, conseguem chegar a um pico imaginativo como o delas!

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(Agora, se me dão licença, está na hora de experimentar alguma fantasia nova – o Carnaval só termina amanhã!!!)

Como lidar com as histórias de monstros que existem

Monstros… sempre eles. 

Pode-se fazer o que for: dizer que seres malignos alados de três olhos e dentes gigantescos não existem, provar que há apenas ar sob a cama, mostrar que o escuro é apenas o claro sem luz. Monstros, ainda assim, sempre persistirão na imaginação das crianças. 

E, até as gerações passadas, os monstros eram os mesmos: bruxas, cucas, dragões etc. 

Até que o “politicamente correto” decidiu iniciar uma cruzada contra todos, praticamente forçando as suas exclusões dos livros infantis. 

Mas isso apagou o medo? 

De forma alguma. Medos, afinal, são manifestações muito mais espirituais do que físicas: eles apenas assumem uma forma qualquer para que crianças possam enfrentá-los de frente. E sabe o que acontece quando essa “forma” é apagada, quando cucas somem e bruxas entram em extinção? 

A realidade empresta outras. 

Lá em casa, o novo monstro que deixa a minha filha com medo durante as noites é o mosquito da dengue. De tanto ouvir casos em casa e na escola, de tanto ver campanhas na TV, de tanto captar críticas ao clube em frente à nossa casa que insiste em deixar suas caixas d’água descobertas, ela concluiu que o pior monstro de todos é aquele minúsculo ser alado que, embora praticamente imperceptível, consegue aterrorizar o mundo inteiro. 

Como lidar com isso? 

Diferente da Cuca e das bruxas, o mosquisto existe. Diferente dos monstros de três olhos, é realmente às noites que seus zumzuns ao pé do ouvido os denunciam. Diferente dos monstros das histórias, nossa capacidade de defender os filhos é realmente limitada. 

Ainda estou enfrentando esse novo monstro lá em casa. Já inventei historinhas, já chamei atenção para o mosquiteiro sobre a sua cama, já acalmei os ânimos da minha pequena filha. 

Mas ele continua lá, com uma invisibilidade irritantemente presente, desafiando a tudo e a todos. 

Talvez novas histórias devessem ser escritas sobre esses novos monstros que assustam crianças, sobre monstros que realmente existem. 

Mas, independentemente disso, não deixa de ser um sinal dos tempos que nosso papel como pais deixa de ser o de ensinar que monstros não existem para ser o de ensinar a melhor e mais segura maneira de conviver com eles. 


 

A história de se escrever sobre histórias

Uma das primeiras decisões que tomei quando comecei a Fábrica de Historinhas foi usar este espaço, o blog, para relatar um pouco da minha experiência como pai. Cheguei a me questionar repetidas vezes se não acabaria me arrependendo de escancarar tanta vida pessoal na Internet… mas hoje fico deliz pela decisão. 

Estive relendo alguns dos posts escritos nos últimos meses e, no final, acabei concluindo que o próprio blog se tornou – ao menos para mim – um relato vivo da minha história com a minha filha. Aqui já escrevi sobre a reação dela ao se enxergar em uma história, sobre como as noites mergulhadas em páginas tem alterado as nossas vidas, sobre como as imaginações – da criança e do pai – voam a cada novo conto feito para aprendermos mais sobre o mundo e as coisas. 

Na medida em que vou escrevendo cada post, vou também evitando que memórias importantes se percam no mar de passados que acumulamos todos os dias… e isso é importante. É como um diário antigo (mas jamais antiquado) em que todo o processo de crescimento intelectual da minha filha acaba sendo, de uma forma ou de outra, registrado. 

Falo muito aqui sobre a importância de se ler histórias para crianças – mas essa meta-aventura de se registrar a história da interpretação das histórias é igualmente importante. Nesse sentido, recomendo também a todos os pais e mães que, seja em um blog, no Facebook, no Insta ou no Youtube, aproveitem essa maravilhosa era de informação em que vivemos para fazer exatamente isso: registrar as histórias que todos já vivemos com os nossos próprios filhos. 

Há história mais importante que essa, afinal?

Comprei um atlas

Não foi exatamente um atlas – não achei, pelo menos nas livrarias que visitei, nenhum atlas realmente interessante para crianças.

Na verdade, comprei um livro de fotos de viagens incríveis com mapas claros dos locais onde elas foram tiradas. Serviu ao propósito.

O atlas não é para mim: hoje, o Google e a Wikipedia acabam substituindo qualquer título do gênero feito para adultos. Ele é para a minha pequena filha.

Na medida em que eu vou lendo histórias para ela, mais e mais perguntas sobre as localidades em que elas ocorreram vão povoando a noite.

Em alguns casos, claro, os cenários são mundos mágicos e inexistentes… mas há outros bem reais.

Há o Nilo e as Pirâmides, há Roma Antiga, há o Olimpo com seus deuses, há os mares da Bahia.

Mesmo no caso das histórias que se passam em outras dimensões, como o País das Maravilhas de Alice, há o local e o tempo em que Lewis Carroll viveu e o que o inspirou.

Deixei o livro com ela e, sempre que surge alguma pergunta, me socorro dele para mostrar dunas, montanhas ou rios onde enredos se desenrolaram. Funcionou bem.

Continua funcionando.

Dia desses cheguei em casa do trabalho em silêncio e ela estava sozinha no seu quarto. Quando olhei, lá estava ela mergulhada nas fotos incríveis da Índia, provavelmente imaginando onde seria aquele lugar tão colorido e cheio de pessoas e animais exóticos.

Dá para perceber que essa nova curiosidade instalada tem ficado cada vez mais frequente pelos papos cotidianos e, claro, pela “aparição” do “atlas acidental” em todos os cantos da casa como que denunciando seu pequeno rastro.

 

 

Minha esperança? Que isso faça crescer mais nela aquele bichinho chamado de curiosidade pelo mundo, que ela cresça com vontade de devorar cada país que nos cerca.

Daqui a uns 10 ou 12 anos eu passo por aqui para contar se funcionou.

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Sendo co-autor de todos os autores do mundo

Desde que minha filha deitou os olhos sobre um livro de histórias do mundo do Monteiro Lobato, nada mais a demove de ouvi-lo até o final todas as noites.

Confesso que fiquei orgulhoso e envaidecido pela minha pequena leitora de 5 anos, ainda em fase de pre-alfabetização, ficar tão aficcionada por algo que certamente parece como um tijolo de letras para ela.

E sim: tenho lido Monteiro Lobato todas as noites, incansavelmente, às vezes utilizando a tecla SAP para pular partes mais complicadas e elaborar em torno de outras mais suaves.

Mas está ficando um desafio cada vez maior.

Como explicar, por exemplo, as penas de morte do Código de Drácon para quem sequer entende direito o conceito de morrer? Como explicar a escravidão, as perseguições a tantos povos, os assassinatos políticos e as lutas por direitos que uma criança de 5 anos entende não como conquista, mas como parte do mundo tal qual ele foi originalmente concebido?

Cheguei até a tentar mudar o livro. Ela aceita, principalmente no caso das histórias personalizadas daqui da Fábrica em que ela é personagem… mas isso dura apenas uma noite por mês. Nas demais, a regra é clara: Monteiro Lobato.

E o ritual é igualmente claro: passo o olho pela história da vez com a velocidade de uma cheetah e a reescrevo mentalmente, sublinhando algumas passagens, acrescentando outras, omitindo partes mais tensas.

Por hora, continua funcionando – milagrosamente. E ela continua com os olhos arregalados e os neurônios tecendo sinapses alucinadas enquanto ouve histórias de egípcios, persas, gregos, romanos.

Mas confesso, por fim, que nunca imaginei que contar histórias para dormir fosse se transformar em uma tarefa tão tensa para o pai – e nem que este precisaria treinar a própria criatividade para se transformar em co-autor de um dos maiores gênios da nossa literatura para fazer a magia acontecer!

Pensando bem, isso até era meio óbvio, não? Não seríamos nós, pais, afinal, os grandes co-autores de todos os livros que lemos para os nossos filhos?

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Aprendendo a conviver com novas crianças na família

Minha filha tem 5 anos.

Até pouco tempo ela era filha única, sobrinha única, neta única.

Mas Isa nunca foi mimada, ao menos não no sentido pejorativo do termo – confesso, meio que seguindo uma linha de pai-babão, que ela tem uma maturidade impressionante.

Ainda assim, ela tem 5 anos.

Na semana retrasada, meu sobrinho nasceu.

Daqui a uns dois meses, sua nova irmã nascerá.

De repente, o mundo de criança única se desmoronou em uma divisão de atenção total envolvendo pais, tios, padrinhos, avós.

Perguntamos a ela se estava se sentindo deixada de lado, se estava angustiada, se estava agoniada com alguma coisa. A resposta era quase adulta: “não, sempre quis ter uma irmã e amei meu priminho”. Adulta demais para ser verdadeira, em minha opinião.

Só que crianças não se comunicam só pela fala: há que se entender os tantos signos que as cercam.

Alguns pequenos tiques apareceram. A sala se transformou em uma passarela onde ela desfila todas as roupas do armário todas as tardes. Comer ou escovar os dentes, tarefas que ela já fazia sozinha, viraram momentos de pedido de ajuda para mim ou para a minha mulher.

Por outro lado, não foram poucas as vezes que a percebemos brincando sozinha em um canto da casa, sem sequer perguntar se alguém gostaria de se juntar a ela (algo inimaginável há alguns poucos meses). Seu olhar e ouvido parecem ficar aguçadíssimos sempre que os nomes das novas crianças é mencionado. Medos noturnos passaram a ser mais frequentes.

Ela até caiu da cama no dia seguinte ao que os avós baianos vieram ver o priminho que acabara de nascer – uma reação inconsciente óbvia de quem julga estar perdendo seu lugar.

Hora de agir.

Sei que devemos dar espaço para que nossos filhos desenvolvam suas próprias couraças com as surpresas e frustrações da vida – mas sei também que uma atenção a mais no momento certo não há de fazer mal. E, se diálogos diretos são infrutíferos por erguerem as defesas de crianças que não querem assumir assim, tão abertamente, suas fraquezas, há que se navegar junto pela sua imaginação.

Navegar junto com um filho pela sua imaginação significa essencialmente duas coisas: brincar e contar histórias. Aliás, corrijo-me: o que é brincar, afinal, senão inventar um enredo colaborativo?

Tenho aproveitado cada segundo com ela efetivamente fabricando historinhas: algumas usando suas bonecas, outras a partir de datas específicas (como no Dia de Yemanjá, no 2 de fevereiro), outras com base nos livros personalizados (que tem sido perfeitos para isso) ou nas histórias do mundo do Monteiro Lobato.

Confesso que ainda não posso dizer que tudo está perfeito: medos e angústias não são como unhas encravadas e levam mais tempo para se resolverem. Mas uma coisa posso garantir: o olhar dela muda radicalmente e a pontinha de agonia se metamorfoseia instantaneamente em confiança (nos pais e em si própria) nos momentos em que as histórias estão em curso. Há de ser um bom sinal, certo?

Histórias… Poucas coisas são mais úteis para a educação de uma criança do que histórias.

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