A agonia de não entender uma gravidez

“Papai, não quero que meus filhos saiam da minha barriga”.

Minha filha disse isso há pouco mais de um mês, quando fomos ao hospital ver o meu sobrinho chegar ao mundo. Não havia me dado conta do quão disruptivo para uma criança deve ser essa imaginação do parto.

Há, afinal, uma criança que cresce (sabe-se lá exatamente como) dentro de uma barriga – e uma saída para o lado de fora que, a julgar pelas contrações e pela óbvia suposição de um corte, certamente traz dores alucinantes.

Sim, mais de 30 dias se passaram – mas em mais 30 dias, aproximadamente, sua irmãzinha também nascerá, repetindo essa imaginação aterrorizada do que é um parto em sua mente.

Como qualquer pai faria, tentei explicar da maneira mais inteligível possível como se dá esse processo todo e como, no final das contas, ele é sempre bom. Não senti muita confiança no seu olhar: sendo homem, o que poderia eu saber de uma gravidez?

Minha mulher também tentou e, apesar de ter mais sucesso que eu, não conseguiu tirar esse medo da sua pequena mente.

Preciso recorrer a livros infantis, a historinhas que elaborem isso melhor.

Difícil é achar algo nessa linha.

Little boy hugging his mother belly.
Little boy hugging his mother belly.

A geografia de uma criança

Às vezes, quando me pego contando alguma história para a minha filha de 5 anos, esqueço que alguns referenciais simplesmente não existem para ela.

Para uma criança, o mundo é feito de familiaridades temporária e geograficamente dispersas entre si, descoladas, desconectadas. É um mundo tão diferente que sequer nos damos conta do que estamos contando.

A África, por exemplo, é uma terra com savanas por onde passam leões caçando girafas – mas que também divide espaço com os mesmos prédios pichados e avenidas largas que ela está habituada a ver na São Paulo que vivemos.

Esses prédios são tão onipresentes quando o céu e o arco-íris, aliás.

A Austrália não é muito diferente da África – basta trocar leões e girafas por cangurus.

A Europa, por sua vez, é uma grande Suécia pontilhada de castelos encantados e banhada pelo delicioso clima do sul da Itália. Exceto por Portugal, claro, que na verdade se resume ao apartamento de seus avós.

Há ainda, em sua cabeça, outros mundos que não se encaixam exatamente em continentes: o Egito com suas pirâmides, a Grécia com seus Deuses, a Babilônia com suas torres. Todos eles existem, embora não se saiba ao certo onde ou habitado por quem.

Estados Unidos? Não é exatamente um lugar. Tem os vulcões do Havaí e os belos prédios brancos de Washington, além de um louco artificialmente bronzeado que volta e meia aparece na TV para tomar o tempo de seus desenhos.

São visões de partes, de pequenas histórias ainda sem muita noção de espaço e tempo que, um dia, se costurarão em sua cabeça.

Um dia.

Talvez o marco do fim da infância seja justamente o momento em que esses lugares incríveis se fecharem no mesmo mundo e se dispersarem por muitos tempos.

Um dia, antes que isso ocorra, vou pedir à minha filha que desenhe o mundo tal qual ela o enxerga.

Será a história de todas as histórias.

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As histórias de fora

Dia desses peguei um livro que uma amiga minha, enquanto estava viajando pelo Atacama, comprou de presente para a minha filha.

O livro era sobre uma indiazinha que cuidava de llamas e que, um dia, acabou sendo levada por uma tempestade para além das montanhas nevadas e precisava achar de volta a sua casa. A história em si era semelhante às tantas que existem por aqui: falava de medo de abandono, da importância do amor como forma de se enxergar no mundo etc. Nesse caso, no entanto, não era a história que importava tanto: eram os referenciais.

Certamente, a história de uma indiazinha no Atacama deve ser extremamente familiar para chilenos – mas, para uma criança brasileira, pouca coisa poderia ser mais exótica. Enquanto eu ia traduzindo os textos a partir do meu próprio portunhol atravancado, Isa viajava nas imagens das llamas, nas montanhas que se confundiam com nuvens, de tão altas, nos desertos de sal, na própria figura de uma índia andina tão diferente das “nossas”.

Não foi uma história de dormir: foi uma viagem pelo imaginário de um outro mundo feito especialmente para crianças.

Foi uma experiência fenomenal.

Acrescentei, com isso, um item fundamental para qualquer viagem: uma visita a livrarias locais onde possamos escolher novas histórias que abram novos mundos para crianças.

O que mais podemos fazer por elas, afinal, senão abrir esses mundos?

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Fantasias inventando histórias

Primeiro, foi da Frozen. Depois, da Ariel.

Em seguida, as princesas (finalmente!) cansaram e começamos a inventar piratas, fadas, macacos mágicos.

Depois ela se entregou ao calor: queria mesmo era ficar de biquini (mesmo que se dissesse, em alguns momentos, uma vampira).

Fosse como fosse, minha filha passou esses últimos dias brincando de ser personagens. E nós?

Nós ficamos no entorno, dando volume à imaginação com histórias que se encaixassem nas suas fantasias. Nos transformamos em livros sendo escritos em tempo real, meio que por acidente, de maneira totalmente colaborativa. Criamos ondas de sorvete, céus com tempestades tumultuando os vôos das fadas e unicórnios, selvas brilhantes, oceanos de Nutella, torres mágicas, sofás voadores.

E quer saber? Foram histórias sensacionais essas – todas absolutamente diferentes das que costumamos comprar em livrarias. Todas, inclusive, bem mais empolgantes.

A descoberta do Carnaval, ao menos para mim, não poderia ter sido outra: deveríamos deixar as próprias crianças escreverem as histórias. Poucos adultos, afinal, conseguem chegar a um pico imaginativo como o delas!

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(Agora, se me dão licença, está na hora de experimentar alguma fantasia nova – o Carnaval só termina amanhã!!!)

Como lidar com as histórias de monstros que existem

Monstros… sempre eles. 

Pode-se fazer o que for: dizer que seres malignos alados de três olhos e dentes gigantescos não existem, provar que há apenas ar sob a cama, mostrar que o escuro é apenas o claro sem luz. Monstros, ainda assim, sempre persistirão na imaginação das crianças. 

E, até as gerações passadas, os monstros eram os mesmos: bruxas, cucas, dragões etc. 

Até que o “politicamente correto” decidiu iniciar uma cruzada contra todos, praticamente forçando as suas exclusões dos livros infantis. 

Mas isso apagou o medo? 

De forma alguma. Medos, afinal, são manifestações muito mais espirituais do que físicas: eles apenas assumem uma forma qualquer para que crianças possam enfrentá-los de frente. E sabe o que acontece quando essa “forma” é apagada, quando cucas somem e bruxas entram em extinção? 

A realidade empresta outras. 

Lá em casa, o novo monstro que deixa a minha filha com medo durante as noites é o mosquito da dengue. De tanto ouvir casos em casa e na escola, de tanto ver campanhas na TV, de tanto captar críticas ao clube em frente à nossa casa que insiste em deixar suas caixas d’água descobertas, ela concluiu que o pior monstro de todos é aquele minúsculo ser alado que, embora praticamente imperceptível, consegue aterrorizar o mundo inteiro. 

Como lidar com isso? 

Diferente da Cuca e das bruxas, o mosquisto existe. Diferente dos monstros de três olhos, é realmente às noites que seus zumzuns ao pé do ouvido os denunciam. Diferente dos monstros das histórias, nossa capacidade de defender os filhos é realmente limitada. 

Ainda estou enfrentando esse novo monstro lá em casa. Já inventei historinhas, já chamei atenção para o mosquiteiro sobre a sua cama, já acalmei os ânimos da minha pequena filha. 

Mas ele continua lá, com uma invisibilidade irritantemente presente, desafiando a tudo e a todos. 

Talvez novas histórias devessem ser escritas sobre esses novos monstros que assustam crianças, sobre monstros que realmente existem. 

Mas, independentemente disso, não deixa de ser um sinal dos tempos que nosso papel como pais deixa de ser o de ensinar que monstros não existem para ser o de ensinar a melhor e mais segura maneira de conviver com eles. 


 

O fim das férias e o começo (de verdade) de 2017

Quando evocamos a lembrança das férias, costumamos nos lembrar daquela maravilha que era ficar livre da rotina e poder dedicar todo o tempo a brincar. 

É provável que essa seja a mesma percepção que se consolide nas mentes de todas as crianças – mas apenas depois de uma certa idade. 

Aproveitar férias, afinal, tem uma relação direta com a liberdade individual. Quando a própria criança pode descer para a rua do prédio e brincar com os amigos para os quais ela mesmo ligou, poucos são os empecilhos para a diversão. Mas e no caso de crianças menores, com seus 4, 5 ou 6 anos, principalmente as que vivem em grandes centros urbanos famosos pela justificada neurose em torno da questão da segurança? 

Pode-se pensar e criar mil maneiras das crianças pequenas se divertirem e passarem o tempo – mas, no final das contas, elas estarão ainda dependentes das rotinas dos adultos. Descer para brincar? Só se houver alguém mais com elas. Ir a um parque? Idem. Brincar com os amigos? Só se os pais destes também estiverem com condições de combinar esses pequenos programas. 

O resultado disso: para crianças pequenas, principalmente na fase pre-alfabetização, o trecho final das férias é quase um suplício. Saudades dos amigos, tédio e energia acumulada acabam fazendo-as rezar pela volta da rotina escolar. 

Férias, para essas crianças pequenas, são simplesmente longas demais! 

Pois bem: a rotina escolar já começa a voltar a partir da semana que vem na maior parte do país. Com ela, voltam também os horários para dormir, as atividades extra-classe, as rotinas que darão mais sentido às historinhas de dormir. 

Com ela, a página do ano passado finalmente será virada – inclusive pela passagem para uma nova série. 

Com ela, e só com ela, começa realmente o ano de 2017 para os núcleos familiares. 

Assim, nosso desejo para todos não poderia ser diferente: um feliz 2017!!!

A importância de se permitir que crianças criem enquanto lêem

O título pode parecer óbvio mas, às vezes, acabamos nos esquecendo disso quando lidamos com nossos filhos. 

Quando ensinamos alguma coisa mais objetiva, temos a expectativa de que eles absorvam esse conhecimento de maneira quase inquestionável. 

Quando apontamos algum perigo, partimos do princípio de que eles o encarará com o pavor gélido dos velhos.

Quando mostramos alguma conduta, esperamos que ela seja desempenhada praticamente sem questionamentos. 

Quando lemos uma história, queremos crer que ela será ouvida em um silêncio tumular. 

Erro básico esse de achar que crianças são adultos. Não são.

Adultos, afinal, tem essa indiscutível capacidade de aprender calados, de ligar a intropecção e cruzar experiências de vida sem balbuciar uma única sílaba. 

Crianças, por outro lado, não tem esse acervo de conhecimento já sedimentado em forma de experiências e vivências. Tudo o que lhes é “ensinado” precisa ser questionado, às vezes em alto e bom som, para ser devidamente entendido. Diria mais: aprender, para crianças pequenas, é uma constante dialética hegeliana ao som de heavy metal. 

Crianças precisam criar estridentemente para projetar o que estão ouvindo e, por fim, entender, aprender. 

O que isso tem a ver com livros e histórias? A participação do adulto. 

Ou seja: se apenas abandonarmos as crianças com algum livro lúdico qualquer, daqueles que fazem figuras saltarem das páginas quando elas são viradas, ou com alguma app barulhenta no tablet, elas até podem se divertir – mas a capacidade de aprendizagem certamente será comprometida. 

Na fase pre-alfabetização, afinal, elas precisam do tom de voz de adultos lendo histórias; precisam das pausas dramáticas customizadas de acordo com as suas próprias características; precisam conseguir interromper com conjecturas, conclusões ou exclamações. Elas precisam interagir para conseguir construir sobre cada história e, por fim, aprender com ela.

Para crianças pequenas, aprender com histórias deve ser uma tarefa a dois, guiada por adultos até que estes se fizerem desnecessários no momento em que acervos próprios se consolidarem nas suas pequenas e impressionantes mentes. 

Não desperdicemos essa oportunidade: ler para crianças é muito mais essencial para o crescimento intelectual do que costumamos imaginar. 

O terceiro olho

Estava atravessando a sala para pegar um copo de água na cozinha quando me deparei com minha filha de 5 anos correndo para cima e para baixo com um adesivo de brilhante colado à testa.

Chamei ela em um canto:

– Você sabia que tem um povo, lá do outro lado do mundo, que acredita que nós temos um terceiro olho exatamente onde você colocou esse brilho?, perguntei.

– Não… mas eu não tenho outro olho aqui, não é, papai? É só um adesivo!

– Depende. Dizem que é um olho invisível a partir de onde se percebe as coisas, se imagina as coisas que a gente não vê de verdade. Eu, pessoalmente, acho que é o olho da nossa imaginação. Quando você vê duas bonecas e inventa uma brincadeira, você está dando vida a coisas que não existiam até então. Você está enxergando com sua imaginação o que ninguém mais vê. E não é para isso que serve um olho? Para enxergar?

Ela parou, pensativa. Olhou ao redor.

– Então ali tem um castelo!, concluiu, apontando para o aparador. E no meu quarto tem três casas com amigas brincando!

Uma sucessão de lugares mágicos se abriu imediatamente, todos sempre repletos de detalhes e descobertas impressionantemente nítidas.

Depois de um tempo ela parou, novamente, me olhou fixamente nos olhos e disse, com uma expressão que só adultos costumam carregar:

-Você é um bom pai.

E saiu correndo para o quarto para brincar no seu mundo.

Isso foi na segunda passada.

Pelos próximos dias ela colou o adesivo na testa e não parou de inventar novas brincadeiras com seu “terceiro olho”. Com o tempo, claro, o adesivo acabou desaparecendo embaixo de algum sofá e ela não se lembrou mais dele. Mas uma coisa acabou ficando muito clara: ali, naquela historinha de segundos que contei para a minha filha no meio da sala na noite de uma segunda-feira qualquer, algumas sinapses novas foram geradas e a sua imaginação foi exercitada como tem que ser.

Ali também acabei concluindo que, aos olhos de uma criança, ser um bom pai ou uma boa mãe é algo intimamente ligado a saber exercitar a ilimitada imaginação infantil, é saber dotá-la de insumos, de ferramentas, para que ela mesma possa viajar mais livremente pela sua própria realidade individual. Em outras palavras: é saber guiá-la com as histórias certas nos momentos certos.

É provável que a história do terceiro olho e todo o episódio acabe caindo no esquecimento. É provável até que já tenha caído, aliás. Mas as sinapses, os exercícios mentais, ficaram – e não é isso, afinal, que realmente importa quando se tem 5 anos de idade?

(Fora isso, confesso em um tom mais egoísta, fez um bem tremendo ao ego ouvir um elogio gratuito desse de uma filha na difícil (e sempre recheada de falhas) tarefa de ser pai!)

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PS: Sim, eu sei que há muito mais sobre o terceiro olho do que eu contei. Mas convenhamos: estamos falando de uma criança de 5 anos, né?

O tempo que passa rápido

“Quero cortar meu cabelo assim”, falou Isabela, do alto de seus 5 anos, mostrando uma foto de uma menina com corte chanel.

Eu e minha mulher ficamos um tempo parados, apenas olhando e pensando. O motivo: até a noite passada, longos cabelos ao bom estilo Rapunzel eram quase que venerados por ela. Mudança súbita?

No mesmo dia ela elencou uma série de desenhos que não gostava mais de ver. Peppa caiu pelo alçapão, todo o universo da Disney se transformou em “coisa de bebê”, Luna se salvou por um fio. “E brincadeiras?”, perguntei. “Alguma que não gosta mais?”

Lá se foi Polly e massinhas cedendo lugar a desenhos, pega-pega e esconde-esconde.

No dia seguinte Isa chegou para mim com uma caixa de fio dental e me pediu para arrancar o primeiro dente mole que ela tinha na boca. Esse dente já estava por cair faz alguns dias, verdade seja dita – mas eu estava rezando para que o tempo se encarregasse da sua remoção. O tempo, ao que parece, é mesmo mais controlado por nós do que supomos.

Alertei que poderia doer um pouco, que sairia sangue e perguntei se ela não preferiria esperar até o dia seguinte ou mesmo aquela noite.

Nada.

Assim, em um minuto que doeu mais em mim do que nela, amarrei o fio dental e “ploc!”: o dente saiu.

Na noite de domingo, portanto, com o dentinho devidamente posicionado sob o travesseiro, tive a sensação que não estava mais dando boa noite a um bebê e sim a uma criança muito mais madura, formada. O primeiro dente de leite havia sido arrancado; os primeiros desenhos, ignorados; as brincadeiras mais inocentes, sepultadas, e até um corte de cabelo radicalmente novo delineava um conjunto de expressões novas, até então desconhecidas.

5 anos.

Não pude deixar de suspirar um óbvio clichê: “Como passou rápido…”

E também não pude deixar de respirar ao apagar as luzes e sorrir pela sensação de que estamos, de fato, aproveitando tanto cada segundo de convívio dessa incrível fase de transformações.

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